Viva o otimismo moderado!


{mosimage}Apesar da crise econômica atual provocada por oscilações no mercado norte-americano de crédito imobiliário, as telecomunicações vão de vento em popa, afirma Lourenço Coelho, vice-presidente da Ericsson. A telefonia móvel no Brasil, antes entendida como artigo de luxo e símbolo de status, já conta hoje com 121 milhões de assinantes. 

Há quanto tempo ouvimos falar num Brasil do futuro, numa nova potência mundial, no celeiro do mundo? Nos primórdios dos anos 60, já se acalentava esta idéia, este sonho longínquo. Com o passar dos anos, este sonho foi se transformando em fantasia e, mais adiante, se revelou verdadeira utopia.

A partir do governo Juscelino Kubitschek, a nação brasileira deu asas à imaginação e montou um mundo fantasioso, onde a prosperidade duradoura e o crescimento reinariam absolutos. Quem não se recorda do período ufanista da era Médici, em 70, com o seu slogan "Brasil, ame-o, ou deixe-o", ao som da canção "Pra Frente Brasil", no auge do clima de comemoração do recém conquistado campeonato mundial de futebol ?

A economia brasileira passou por diversas fases de instabilidade, nas quais a combinação perversa de inflação, endividamento crescente e crescimento pífio se repetiu ao longo dos anos 80, sacudida, aqui e ali, ora por efeitos de crises externas (ápice da crise do petróleo), ora pela turbulência provocada por planos econômicos mirabolantes, na busca do sucesso fácil, invariavelmente fadados ao fracasso. Os economistas de então apelidavam os planos de heterodoxos, nome que, na minha interpretação leiga, mais dizia respeito a um amontoado de ações mágicas, que não seguiam a cartilha do bom senso comum que toda dona de casa sempre conheceu: a despesa tem que ser menor que a receita.

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Esta situação nos despertava revolta, aviltamento e um sentimento neurótico de perseguição. Como se vítimas fôssemos de um complô internacional, esquecendo-nos que éramos, e sempre fomos e seremos, não só vítimas, mas os próprios algozes de nosso insucesso. Nossos jovens, políticos e sindicatos gritavam slogans "Fora FMI", como que numa inconsciente tentativa de transferir, para outros, a responsabilidade pelos nossos desmandos e irresponsabilidade fiscal.

Somente a partir de 1994, com a concepção do Plano Real, na transição dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, foi que decidimos entrar nos trilhos de uma estrada longa, sinuosa, trepidante e desconhecida, mas que nos levaria algures.

Parecia que tínhamos concluído o nosso dever de casa, mas não o suficiente para nos aliviar dos impactos funestos, na esteira surpreendente de várias crises externas, como a da Ásia, Rússia e México. Estávamos, ainda, vulneráveis, pois nosso superávit comercial era muito baixo, nossa balança de pagamentos deficitária e nossa reserva em moedas estrangeiras insignificante. Sofremos, mas não sucumbimos.

Em 2003, inaugurou-se o governo Lula. Apesar de um início turbulento, face às expectativas negativas da comunidade financeira à luz do que poderia ser um governo de esquerda, a administração federal reforçou as políticas de austeridade fiscal, de controle da inflação, de estabilização monetária, de alongamento e mudança do perfil das dívidas interna e externa, de geração de superávit primário nas contas públicas e de acumulação de reservas.

Apesar da crise atual provocada pelo mercado de "subprimes" (quebra generalizada dos fundos de ações que financiam o sistema habitacional americano, sem exigência de garantias reais), o Brasil vai muito bem, obrigado! Crescemos no ano passado à taxa superior a 5%. Parece pouco mas, para quem passou pelo que passamos, isto é paraíso.

As telecomunicações vão de vento em popa. Nunca se vendeu tantas linhas
celulares: só em 2007, foram quase 21 milhões de novos assinantes e se prevê um crescimento semelhante neste ano. Tal crescimento fomentará, ainda mais, a expansão econômica, uma vez que telefonia celular é, comprovadamente, um instrumento de inserção digital, que, por última análise, deságua na inclusão social. Importante observar que, há 10 anos, a telefonia móvel no Brasil era entendida como artigo de luxo e símbolo de "status". Hoje, já contamos com 121 milhões de assinantes.

É por isto, e por muito mais que há de vir, que devemos nos orgulhar, com peito estufado e alma lavada, de sermos brasileiros. Somos donos de nosso nariz e temos consciência disto. Somos grandes e temos potencial para crescer muito mais, é só manter-nos na trilha do esforço duradouro e do otimismo moderado, mas aliviados de qualquer sentimento de culpa ou de inferioridade. Estamos predestinados a protagonistas no cenário internacional entre nações que, hoje, levam a dianteira, mas isto nos exigirá muito sacrifício, disciplina e determinação. Nada que uma boa distribuição de renda não facilite!


Lourenço Coelho é Vice Presidente Comercial e de Marketing da Ericsson Brasil

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