Telebras trabalha para gerar caixa


Novos clientes, mais parcerias. O presidente da Telebras explica como a nova orientação é produzir resultados para atingir o break even em 2018, sem perder foco nos grandes projetos estratégicos de governo e na nova missão de usar sua rede para levar serviços de e-gov ao cidadão.

Com a meta de atingir o break even operacional da empresa em 2018, Jorge Bittar, à frente da Telebras há pouco mais de quatro meses, não perdeu tempo. Iniciou um processo de conquista de novos clientes dentro do governo, marcado por muitas visitas e conversas; abriu espaço para parcerias, onde cada um entra com o que tem de melhor; e criou um novo lema dentro da empresa – “Tudo pode” – para atender bem os clientes atuais e potenciais.

Os resultados já começam a aparecer, com a ampliação do portfólio de clientes. “Temos uma missão estratégica, mas não podemos depender eternamente dos recursos do Tesouro”, comenta Bittar. Sua missão é se equilibrar entre os projetos estratégicos de governo – como o lançamento do satélite, o cabo submarino Brasil-Europa e a ampliação da rede da Telebras nas regiões metropolitanas – e a geração de caixa com a prestação de serviços aos clientes de governo e também as clientes privados, como provedores regionais de acesso à internet e serviços de comunicações e grandes operadoras.

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Ao lado desse desafio que já é de bom tamanho para que empresa que tem um déficit operacional de R$ 350 milhões/ano, o ex-deputado federal pelo PT fluminense se impôs mais um. Fazer da rede da Telebras um canal para o governop prestar melhores serviços ao cidadão. No momento, negocia com o MEC um projeto piloto de distribuição de conteúdos digitais pela rede da Telebras e suas parceiras. “Vamos ser apenas o canal”, diz Bittar, para quem a educação do século XXI passa necessariamente por novas metodologias de ensino onde as tecnologias digitais cumprem um importante papel, ao lado da conexão das escolas com banda larga de qualidade.

Jorge Bittar - Telebras (divulgação)Tele.Síntese – Em tempos de crise, como levar adiante um projeto de dar novo gás à Telebras?
Jorge Bittar – De fato, trabalhamos hoje em um cenário de grande escassez de recursos, diante dos problemas fiscais do governo. No entanto, nós temos alguns projetos extremamente importantes para cumprir nossa missão. É o projeto de satélite, para o qual o governo tem assegurado os recursos, já que o satélite é um contrato internacional, com a Thales Alenia Space, francesa, e com a lançadora de satélite, que é a Ariane Space. O satélite está rigorosamente dentro de seu cronograma, tanto no segmento espacial quanto em toda a infraestrutura de solo.

Temos um backbone já implantado, que cobre boa parte do território brasileiro, com um grau razoável de redundância, construído com uma concepção em anel. É uma infraestrutura fundamental para que possamos atender nossos clientes, que são dominantemente os provedores, os clientes de governo, para os quais oferecemos banda larga com segurança, e as próprias grandes operadoras, com as quais nós construímos parcerias, seja vendendo IP, seja fazendo swap de redes, seja comprando ou vendendo capacidade de transporte ou de acesso.

E nossa missão é justamente essa, não é concorrer com as operadoras privadas, mas se constituir como uma operadora neutra, capaz de ter uma infraestrutura com um grau de capilaridade razoável, e disponibilizar esta capilaridade para todos aqueles que querem ser nossos parceiros, buscando oferecer acesso de qualidade, seja às residências, seja aos serviços de governo ou corporativos. É isso que estamos fazendo, continuamos seguindo esta trilha. Tenho procurado intensificar a relação com nossos clientes para que possamos ampliar o faturamento da empresa e fazer com que ela possa perseguir o objetivo da sustentabilidade.

O outro grande projeto é o cabo para a Europa. O cabo tem uma estrutura de financiamento que está sendo bem construída porque conta com recursos da União Europeia, que tem interesse de conectar as redes de pesquisa e desenvolvimento científico da Europa e da América Latina. E também temos conversado com alguns grandes clientes que possam dar sustentabilidade e este investimento, que será de cerca de US$ 185 milhões.

Tele.Síntese – Como está alocado o orçamento deste ano?
Bittar – Estamos investindo R$ 700 milhões no satélite, temos uma previsão de investir R$ 240 milhões nas nossas redes metropolitanas e fizemos um pequeno investimento inicial, cerca de R$ 5 milhões, no início da constituição da empresa do cabo. Os investimentos mais pesados do cabo deverão ocorrer no próximo ano. É basicamente isso, o restante foram investimentos em tecnologia da informação, em suporte, em melhoria do sistema de operação e manutenção da empresa. O investimento total é de quase R$ 1 bilhão.

Tele.Síntese – Você tem afirmado a necessidade de a empresa gerar caixa, porque ela tem um déficit operacional grande, da ordem de R$ 350 milhões. Como superar essa situação?
Bittar – Nós revimos todo o plano de negócios da empresa e hoje temos uma perspectiva de alcançar o break even em 2018, a partir da intensificação da comercialização de nossos serviços e, portanto, do aumento de nosso faturamento. Até 2018 ainda dependeremos de recursos do Tesouro.

Tele-Síntese – Essa intensificação da comercialização dos serviços vai se dar de que forma?
Bittar – Para todos os tipos de clientes. No caso dos pequenos e médios provedores, temos intensificado nossas parcerias através de suas associações. Estamos buscando apoiar a qualificação desses provedores, na forma de um trabalho do Sebrae, na linha da capacitação para gestão, para melhoria do atendimento aos clientes finais. Queremos também dar suporte à constituição de um fundo de aval para que eles tenham acesso a crédito de uma forma mais segura, de tal maneira que eles possam avançar na qualidade de seus serviços e na expansão de suas redes. E isso vai implicar uma maior demanda por capacidade e alguns outros serviços que eles se propõem a prestar e que estamos procurando desenvolver.

Por exemplo, eles querem ter acesso aos PTTs, aos pontos de troca de tráfego. Estamos preparando um grande pacote para oferecer aos provedores, por meio das associações (Abrint, Anid, Abranet e outros), essa possibilidade. Eles compram os serviços de transporte da gente e, chegando aos PTTs, eles têm redução de custo à medida que se integram às demais redes. Hoje, grande parte do que trafega nas redes são conteúdos de vídeos, Netflix, Google e outros. Quando você chega nos PTTs os data centers estão ali, então você permite que seus usuários finais tenham acesso mais direto àqueles conteúdos, sem sobrecarregar demais as redes. Eles querem, com isso, reduzir custos e melhorar a qualidade dos serviços. De nosso lado, também ganhamos pois a gente usa nosso backbone e redes de acesso. Então, estamos lançando novos produtos para os provedores.

Tele.Sintese – E em relação ao cliente governo, vocês têm algum movimento mais específico, estão desenhando novos produtos?
Bittar – Desde o escândalo do vazamento de informações confidenciais do governo, inclusive da Presidência da República (chamado episódio Snowden, que denunciou a espionagem de dados pela agência de segurança dos Estados Unidos), o governo vem adotando providências para constituir redes mais seguras. Há inclusive um decreto da Presidência a respeito. E a Telebrás tem se preparado para oferecer redes cada vez mais seguras, mais imunes à bisbilhotagem internacional.

Temos construído parcerias com outras empresas de governo, particularmente com Serpro e Dataprev, porque eles complementam nossas redes. Têm data center, computação em nuvem, sistemas de TI, bancos de dados, essas coisas que são fundamentais para atender aos diversos clientes de governo com qualidade. Quero oferecer redes de grande qualidade, a preços acessíveis. Redes seguras e serviços diferenciados para esses clientes de governo, buscando apoiar uma definição cada vez melhor para os serviços que esses clientes de governo prestam à sociedade.

Eu costumo dizer que a Telebrás não é apenas uma vendedora de bits, é uma empresa de governo que busca chegar a pontos do país onde as operadoras privadas não chegam, por serem áreas de baixa rentabilidade, ou chegam precariamente. Todos sabem que a internet é um fator fundamental de incremento da produtividade e do acesso à cultura e à informação. E a economia brasileira precisa fazer uma revolução na produtividade para sair dessa crise econômica em que se encontra. Esse é nosso papel estratégico. Não é o papel de competir, mas de chegar nesses pontos e dar suporte aos clientes de governo para que eles possam oferecer serviços de qualidade à sociedade.

Tele.Síntese – A Telebras conquistou novos clientes nesse período, nesses poucos meses que está à frente da empresa?
Bittar – Há tanto novos clientes já atendidos e muitos com os quais estamos em entendimento, na área de governo. Estamos discutindo, por exemplo, com os Correios soluções não só de banda larga, mas de serviços que possam agregar aos que já prestam, incorporando tecnologias. E com vários outros atores de governo, buscando soluções estruturantes para serviços que eles prestam.

Tele.Síntese – E que clientes que já estão no portfólio?
Bittar – Toda a rede do Ministério do Trabalho em Minas Gerais está sendo suportada por nós, o Ministério da Justiça, a Companhia de Pesquisas em Recursos Minerais, poderia fazer uma lista grande de clientes que estamos atendendo. E atendemos também alguns clientes de peso no setor corporativo, que preferem comprar da Telebras por ser uma rede neutra. Por ser um acordo comercial, de confidencialidade, não posso citar nomes, mas também estamos buscando clientes privados.

Tele.Síntese – Quando você assumiu a Telebras, disse que pensava em usar a rede da empresa, o seu backbone, também para levar serviços de governo à população. E me parece que vocês estão pensando em iniciar este projeto pela área da educação. Isso avançou?
Bittar – Tem avançado. Nós temos dialogado muito com o MEC, na busca de uma solução sistêmica para a educação básica. Ao longo dos últimos dez anos tem havido um esforço muito grande, por parte do MEC, no sentido de incorporar tecnologias da informação e comunicação às nossas escolas. Está na memória de todos ainda a troca de obrigações que houve com as concessionárias para a implantação de banda larga em muitas escolas, embora sejam acessos de velocidade hoje considerada baixa, a distribuição de tablets, o programa Um Computador por Aluno, WiFi, laboratórios do Proinfo em muitas escolas.

O que nós estamos vendo com o MEC é se construímos uma solução mais sistêmica para o tema, inspirada em muitos países que têm incorporado TICs no sistema educacional. Um aspecto fundamental é trabalhar muito os professores e pedagogia, metodologia de ensino, de tal maneira que ela possa ser adaptada, ter conteúdos apropriados para esse sistema educacional e trabalhar com banda larga de qualidade e todas as tecnologias que podem ser importantes dentro de uma escola para que a gente possa, de fato, revolucionar a educação básica no país.

Tele.Síntese – Mas qual é o modelo?
Bittar – Todo o conteúdo hoje disponível seria armazenado em data center e distribuído a escolas de todo o país, em princípio por meio de um CDN. E distribuído pela rede da Telebrás e de nossas parceiras, que podem ser grandes operadoras, em banda larga de qualidade a todas as escolas públicas do país. E a ideia é uma articulação entre o MEC, os estados e os municípios. O grande desafio do Brasil é a educação básica e a educação técnica. Então nós queremos trabalhar para que o Plano Nacional de Educação ocorra em um ambiente mais apropriado à realidade do século XXI. A ideia é fazer um plano de transição para que a gente possa migrar do sistema tradicional de ensino para um sistema baseado em conteúdos digitais e escolas conectadas.

Tele.Síntese – O país já produziu muita coisa, mas você não acha que é um sonho migrar para conteúdo digital educacional e banda larga de qualidade nas escolas com toda essa restrição orçamentária, universidades em greve, sem recursos, nesse estado de penúria?
Bittar – Como todos sabemos, o momento de crise é um momento de riscos mas também de oportunidades. Nós temos que trabalhar com sabedoria, busca os recursos onde eles possam estar disponíveis. Acredito que com uma boa proposta sistêmica, que possa sensibilizar o MEC, com esforço conjugado de governos estaduais e municipais, alocando recursos que já são alocados em nossas escolas, mas que possam ser melhor utilizados, poderíamos, por exemplo em material didático, fazer uma migração do livro para os conteúdos digitais. É perfeitamente possível imaginar coisas desse tipo.

Eu tenho conversado com muitos dirigentes do setor de educação, não só do MEC mas de estados e municípios, e eles têm revelado um interesse grande com relação a isso. Há muitas experiências exitosas, nacionais e internacionais, que nos entusiasmam. O prefeito de São José dos Campos, em São Paulo, está fazendo um belíssimo trabalho. Sensibilizou e capacitou os professores, as crianças estão adorando. É fácil compreender. Uma criança hoje já nasce conectada, muitas vezes as crianças ensinam os adultos a lidar com dispositivos. Mesmo em famílias de renda baixa há um smartphone. Quando a criança chega na sala de aula, o ambiente dela muda. A professora ordena que ela desligue o smartphone e ela é obrigada a trabalhar neste ambiente do século XX. Giz, quadro verde, papel. Isso não é algo que estimule as crianças. O que São José dos Campos fez foi manter as crianças conectadas dentro da sala de aula e adaptar os processos pedagógicos a isso, sensibilizar os professores para essa nova era. Claro que também estão fazendo a transição, eles lidam com papel, ainda, e também com conteúdo multimídia. Então você pode ensinar matemática na forma de games, pode falar sobre história e geografia recorrendo a conteúdos da internet. A conexão é boa, o prefeito de São José está colocando 30 Mbps, full, em cada escola.

Estudamos muito, também, a experiência de outros países. Por exemplo, o Plano Nacional de Tecnologia da Educação do governo norte-americano americano, que é muito interessante. Nós não estamos imaginando que vamos sair do zero para as escolas conectadas em um passe de mágica. É um processo de transição. Mas é preciso fazer isso de forma estruturada, organizada, planejada e articulada com estados e municípios.

Tele.Síntese – Qual a ideia em debate? Fazer um piloto, alguns pilotos?
Bittar – Quem vai comandar isso é o MEC. Nós somos prestadores de serviços, qualificados, conhecemos o mundo da tecnologia, e nos colocamos à disposição do MEC. Estamos interagindo com o ministério e identificamos um grande interesse por parte de seus principais dirigentes nesse sentido. A ideia é montar alguns projetos piloto, aprender com eles e depois montar um plano para, gradualmente, disseminar esses conteúdos, como costuma ocorrer, das escolas urbanas para as escolas rurais. Em vez de reduzir maioridade penal, que optemos para levar educação e cultura a nossa juventude. São conteúdos educativos, culturais e de entretenimento e a ideia é levar às escolas e às residências do entorno, das famílias de baixa renda, criando subsídios a essas famílias para que as crianças da escola possam continuar conectadas quando forem fazer seu dever de casa, complementar o processo de educação.

Tele.Síntese – Você falou de parcerias com o Serpro e o Dataprev. Recentemente, nesse processo de enxugamento da estrutura do governo federal, falou-se da possibilidade de junção das duas empresas e até delas com a Telebras, para que seja criada uma grande empresa de TICs. Isso é verdade?
Bittar – Entendo que isso não tem procedência alguma (no que se refere à Telebras). Consultei diversos dirigentes do governo e eles não confirmaram essa iniciativa. Eu não teria nenhum problema em sentar e conversar sobre o tema, mas o fato é que ele não foi colocado na mesa. O que nós estamos fazendo são parcerias operacionais e comerciais entre essas empresas para otimizar a utilização das competências e dos recursos de cada uma no sentido de prestar o melhor serviços possível aos membros do governo, ou seja, em vez de superpor serviços e iniciativas, otimizar. Se, para eu desenvolver um serviço, precisar de um data center, posso usar o do Serpro ou da Dataprev. E se eles precisarem de redes para interligar data centers e clientes podem recorrer a nós. Estamos em um momento de escassez, em um momento em que se impõe a necessidade de o governo fazer mais com menos recursos.

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