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Rede privada 5G: viabilidade de soluções sem operadoras gera debate

A implantação de redes privativas sem operadores em alguns países, e os obstáculos envolvidos, foram debatidos por representantes do setor no Global Media Summit.
Rede privada 5G: viabilidade de soluções sem operadoras gera debate
Implantação de rede privada 5G sem operadoras tem limitações, segundo especialistas (Crédito: Freepik)

Enquanto o 5G gera expectativas para empresas que fazem uso de rede privada, operadoras e governo, sobram dúvidas sobre como funcionará, na prática, a monetização e o retorno dos investimentos. Representantes do mercado e analistas discutiram durante o Global Media Summit, no Vale do Silício, na Califórnia, os diferentes modelos experimentados no mundo, entre eles, a possibilidade de implantação sem a participação das operadoras.   

Durante o debate, Jan Söderström, vice-presidente e chefe do Grupo Industrial e de Tecnologia Avançada da Ericsson citou casos independentes. “As operadoras estão envolvidas em, aproximadamente, metade das implantações nos EUA. Em áreas onde você tem espectro empresarial, como CBRs da Coréia e da Alemanha, você pode executá-lo por conta própria. E você não precisa depender de operadoras se não quiser”, diz.

Apesar disso, Söderström pontua os obstáculos da empreitada sem as operadoras. “Quando estamos construindo nossas redes 5G privadas, reduzimos a funcionalidade do OSS, bloqueamos os parâmetros, simplificamos e, portanto, um departamento de TI pode realmente executá-lo. Isso, claro, vem com algumas limitações, por exemplo, você não pode tocar todos os instrumentos que a rede 5G pode tocar. Então, se você quer jogar com todos os recursos do padrão 5G, então talvez você construa com uma operadora, porque ela tem uma organização para gerenciar essa complexidade para você”.

Já Marc Cohn, principal estrategista de tecnologia da Spirent Communications, que trabalha com empresas de telecom nos EUA, não vê viabilidade da rede sem as operadoras. 

“Não vejo muitas redes onde não haja pelo menos alguma operadora porque há um componente de telefonia aqui. Além disso, os provedores de nuvem estão entrando em parceria com as operadoras e estando no front-end, então, os integradores estão assumindo um papel enorme”, disse.

“Então eu acho que não está claro quem vai ganhar, ou certamente está claro que ninguém vai ficar com o bolo inteiro”, diz Cohn.

No mesmo sentido, Anit Lohtia, CTO e líder de estratégia 5G da Dell, aposta que “veremos cada vez mais a participação das operadoras” na rede privada. “Esse mercado corporativo 5G será uma área de crescimento. As operadoras precisam evoluir seus processos de negócios e estudar ótimas soluções para diferentes verticais para diferentes casos de uso e elas farão parceria com parceiros do ecossistema para fazer isso acontecer”, afirmou.

O desafio da monetização

Marc Cohn, estrategista da Spirent Communications; Jan Söderström, vice-presidente da Ericsson; e Anit Lohtia, líder de estratégia 5G, Dell Technologies (Crédito: Global Media Summit/Divulgação)

Ainda de acordo com Lohtia, um dos principais pontos da grande questão sobre como monetizar o 5G está em uma adaptação do modelo de negócios das operadoras. 

“Se olharmos para as gerações de tecnologia até o 4G, as operadoras venderam principalmente a conectividade, seja um servidor, chips, ou qualquer outra forma em que o modelo de negócios tenha sido mais focado na venda de conexões ou dispositivos. Agora, o mundo requer a criação de soluções. É sobre como criar soluções para diferentes verticais, com diferentes casos de uso dentro da vertical, que é muito diferente de vender uma conexão simples”.

 

“Portanto, a mentalidade deles deve mudar para avançar em direção às soluções, em vez de apenas vender essa conexão e deixar que o terceiro cuide de tudo. A empresa deve ser um grande mercado. Essa é uma nova área de crescimento para as operadoras”, analisa Lohtia.

Complexidade vs. negócios

Cohn, da Spirent Communications, afirma que as soluções mais populares de 5G nos EUA estão diretamente ligadas à facilidade de implantação. 

“Existem alguns casos de uso que estão ganhando força  – e não estou dizendo o único, mas apenas apontando um deles  – que é o acesso sem fio fixo. Em outras palavras, usar o 5G apenas para contornar a infraestrutura de telefonia fixa, seja cabo, seja fibra, seja qualquer coisa, e está ganhando força, apenas por causa da facilidade de implantação”, afirmou Cohn.

É o caso da Ericsson, que tem trabalhado com esse caso de uso, de acordo com Jan Söderström, vice-presidente. “Muitas vendas nesta área”, disse, mas pontuando que não é para qualquer empresa.

“Nós, da Ericsson, ofertamos roteadores para veículos de segurança… Portanto, isso passa do limite de organizações menores que não o possuem, eles provavelmente podem contratar seu 5G privado ou uma rede da operadora, onde todo o gerenciamento complexo ocorre pela operadora, você só precisa confiar no fatiamento para manter seus dados seguros”.

Quem vai contratar?

Levantamento da International Data Corporation (IDC) mostrou a tendência das empresas de esperarem a evolução das soluções em 5G antes de aumentar o investimento em suas redes privativas.

A pesquisa, realizada com empresas norte-americanas, comparou a virada de 2021 e 2022 com 2022 e 2023. O grupo que declarou aumentar os investimentos em rede 5G privativa caiu de 60,8% para 42,5% neste período. Já aquelas empresas que decidiram investir o mesmo valor do ano anterior passou de 24,2% para 45.2%. 

Quanto maior a intenção de investir em 5G, menor é o grupo. As empresas que decidiram gastar 15% a mais passaram de 29,1% de entrevistados para 15,8%. 

‘O 5G não é o 5G’

Marc Cohn, estrategista da Spirent Communications, reconhece que as expectativas ainda não podem ser supridas, considerando a espera por soluções práticas. “No momento, o 5G não é 5G. Não estamos vendo a capacidade que todos estão entusiasmados, que é uma das razões pelas quais não atendemos às expectativas”, disse Cohn.

Questionados sobre o que o setor pode fazer para passar para o próximo nível, de oferecer o 5G em sua capacidade máxima, os representantes do mercado foram unânimes em concordar que “ainda vai levar um tempo”. 

“É preciso investimento de tempo. Não vai ser um processo rápido. Não está claro o que pode avançar no ano de 2023 e talvez até o início de 2024”, opina Cohn.

O vice-presidente da Ericsson pontuou que a tecnologia, por si só, não é a única responsável pela experiência. “Não é só 5G, é estratégia de dados, é edge, é tudo. E são muitos sistemas legados e brownfield. Normalmente, é como um longo projeto de consultoria antes mesmo de começar”, afirma.

No mesmo sentido, Lohtia, da Dell, destacou que é preciso integração, principalmente quando se fala em rede privada. “As pessoas que têm problemas de negócios não entendem a tecnologia. As pessoas que entendem de tecnologia não têm ideia de quais processos de negócios estão sendo executados naquela empresa ou ambiente específico. Então, [o 5G] não é um desafio tecnológico, é mais uma questão de processo que precisa ser abordada”, disse.

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