Rede da Eletronorte é o único transporte para os provedores de internet do Pará


O Pará é a “capital” de provedores que operam ilegalmente, segundo as empresas que prestam serviços de acesso à internet nas diferentes cidades do estado e que participaram na terça-feira, 15, do evento Encontro Provedores Regionais realizado em Marabá pela Bit Social. Mas, esse não é o maior problema dos pequenos e médios provedores que prestam serviços nos 144 municípios do Pará. O grande entrave continua sendo a falta de infraestrutura, como o transporte do sinal. Os provedores compram o link de diferentes operadores, em geral em Brasília, e a única rede de transporte existente é a da Eletronorte. Com isso, quando o sinal cai, os serviços são interrompidos. Foi o que aconteceu, por exemplo, na noite da última terça-feira. “O sinal caiu à noite e só foi restabelecido ao meio dia da quarta-feira (16). Cerca de 75 empresas que usam a rede da Eletronorte ficaram sem serviço”, relatou Mark Damon, da Tel7 Telecom, que opera em sete municípios do Pará.

“O preço também é alto e a carga tributária do serviço chega a 30%. Tem ainda o problema do aluguel do poste. Assim, se compramos o mega a R$ 130, o serviço de banda larga para o usuário final vai sair a R$ 200”, completa Damon, que provê internet em Tucuruí, Serra Pelada, Eldorado dos Carajás, entre outros municípios, atendendo a um total de 1.500 clientes.

A mesma dificuldade é enfrentada pela Zumpa Telecom, que opera há sete anos em Marabá e está finalizando o plano de banda larga popular, que será lançado com ofertas de R$ 50, com velocidade de 500 Kbps, e de R$ 100 com 1 mega.

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Para Afonso Vasques, que opera em Canaã dos Carajás, o maior problema é a pirataria. Ele apontou que só em Canaã existem oito provedores ilegais. “Tem provedores piratas atendendo até prefeituras. Já fizemos inúmeras reclamações na Anatel e continuamos enfrentando a competição desigual”, afirmou. O especialista em regulação da Anatel, Carlos Evangelista da Silva Jr., que foi um dos palestrantes do Encontro Provedores Regionais, recomendou que os ISPs continuem protocolando denúncias na Anatel. “Operar sem autorização é crime”, enfatizou.

Serviços limitados e parcerias

Boa parte dos provedores do Pará oferece apenas o acesso à internet. Poucos já ofertam serviços de valor adicionado como VoIP e alguns planejam lançar o serviço de TV paga. A Junto Telecom, que opera há dez anos em Marabá e em mais seis cidades, tem internet e VoIP. “Nossa dificuldade é a mesma”, disse Wairisson Gomes, da Junto.

Uma possibilidade para melhorar a infraestrutura, e que foi debatida no evento, é a ampliação das redes de acesso na região Norte por meio da RNP, a Rede Nacional de Pesquisa, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e do Programa Cidades Digitais, do Ministério das Comunicações.

A RNP, informou Eduardo Grizendi, diretor de Engenharia e Operações, tem 27 PTTs (pontos de troca de tráfego) em todo o país e está ampliando sua infraestrutura para levar conexão em alta velocidade para todos os institutos e universidades federais. No Pará, tem um pop em Belém e está buscando parcerias para chegar nas cidades do interior. “Na cidade de Bragança, por exemplo, temos dois campi e preciso contratar circuito com, no mínimo, 20 mega”, informou Grizendi. Outra possibilidade colocada pelo diretor da RNP é a cessão de um par de fibra, nas redes metropolitanas da RNP, para um provedor local. Em troca, este se responsabilizaria pela manutenção da rede.

No mesmo painel, Américo Bernardes, diretor do Departamento de Infraestrutura da Secretaria de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações, afirmou que a participação dos provedores regionais é fundamental para a sustentabilidade do Programa Cidades Digitais, que conclui até agosto a implantação das 80 cidades da primeira fase. A licitação das 262 cidades da segunda fase, todas elas com até 50 mil habitantes e com baixa penetração de banda larga, será realizada ainda este mês, de acordo com o executivo. Deste segundo lote, 61 cidades se encontram na região Norte do país.

Como se dá a participação dos provedores regionais? Bernardes explicou que as prefeituras recebem as redes, a partir de agora com 24 pares de fibras das quais usam de três a quatro pares. Além de licitar o provedor para a prestação do serviço para a própria prefeitura, secretarias, outros órgãos de governo e pontos em praças públicas, a prefeitura, para sustentar o projeto após os seis primeiros meses de funcionamento, poderá alugar os pares de fibras restantes para o poder públicos – os governos estaduais, por exemplo – e para empresas privadas fazerem a oferta de banda larga às residências. As prefeituras poderão, também, trocar o uso de pares de fibras por serviços, como a manutenção da própria rede, sugeriu Américo.

Tecnologias

Além e políticas públicas, o evento abordou as tendências e tecnologias disponíveis no mercado para que os ISPs possam ampliar suas redes – a maioria ainda por rádio na região Norte – e oferecer novos serviços. O gerente de produtos GPON da Padtec, Glauco Pereira, falou sobre a “onda inovação” por que passa o setor, que traz novos serviços e, consequentemente, demanda mais tráfego. “Do lado da indústria, existem tecnologias que permitem estruturar a rede para atender essa demanda e os componentes começam a ter os preços reduzidos, o que viabiliza os investimentos em uma rede de fibras óticas e equipamentos que otimizam essa rede”, comentou.

A engenheira de banda larga da Furukawa Industrial, Giovana Labegalini, acrescentou que, hoje, a internet influencia em todos os negócios e citou como exemplo o e-commerce, cujas vendas dobraram no país entre 2010 e 2013. “Para implantar uma rede de fibra, o primeiro passo é um projeto bem elaborado, que vai permitir a expansão futura, e o uso de equipamentos homologados pela Anatel”, recomendou. Seguindo esses requisitos, assegurou, será possível reduzir o custo de operação das redes.

Encontro Provedores

O evento realizado em Marabá contou com a participação de cerca de 80 provedores regionais, de 22 cidades, dos estados do Maranhão, Pará e Tocantins. Além de debater os problemas dos ISPs regionais, os encontros têm por objetivo levar informações sobre as linhas de financiamento do BNDES para esse segmento, e os cursos de capacitação e gestão oferecidos pelo Sebrae para pequenas e médias empresas. O Encontro de Marabá teve, ainda, uma apresentação didática sobre os passos que o provedor regional precisa adotar para se transformar num AS e, assim, ter direito ao número próprio de IP. O palestrante Julio Sirota, assessor técnico de projetos e desenvolvimento do NIC.br, explicou que, entre as vantagens de ser um AS, o provedor ganha política própria de roteamento (duas rotas), numeração própria, redundância, troca de tráfego nos PTTs.

O encontro em Marabá foi o sexto de uma série de eventos que a Bit Social tem realizado, desde o ano passado. Os anteriores aconteceram em Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Recife (PE) e Curitiba (PR). O pŕoximo da série será dia 22 de maio, em Natal (RN) e o seguinte dia 22 de julho, no Rio de Janeiro (RJ). A iniciativa da Bit Social tem por objetivo levar formação, e informação, para os provedores regionais, que atendem pequenas cidades e áreas distantes. Os Encontros Regionais são realizados com o patrocínio do BNDES, do Sebrae e da Padtec. O Encontro de Marabá teve o apoio da Furukawa e apoio institucional da Abrint, da Zumpa Telecom e da Momento Editorial.

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