Reação do pós-pago: fenômeno deve se manter nos próximos anos


A telefonia móvel chegou quase à totalidade dos brasileiros no ano passado. Como resultado, o ritmo de crescimento da base diminui rapidamente. Enquanto, em 2012, foram adicionados à base nacional 19,5 milhões de acessos, expansão de mais de 8% na comparação com o ano anterior, em 2013 o incremento foi de 9,92 milhões, alta de 3,55% em relação a 2012. Agora, a chamada “maturidade” da telefonia móvel do país deve levar a outro fenômeno: a expansão da participação do pós-pago ante o pré-pago. Em 2013, afirma Márcio Fabris, diretor de marketing da Telefônica Vivo, este fenômeno começou a aparecer, mas deve se estender para os próximos anos, de forma sustentável.

“Essa é uma tendência. O ano de 2013 marca o começo de uma mudança”, declarou Fabbris ao TeleSíntese Análise. A avaliação é compartilhada pelo diretor de prática de telecomunicações da consultoria Booz&Company para a América Latina, Nuno Gomes, e por Carlos Roseiro, diretor do segmento móvel da TIM.

No fechamento de 2013, a base de pós-pago do país representava 21,95% (59,5 milhões) do total de acessos, uma variação positiva de 2,48 pontos percentuais em relação à participação do pós-pago registrada em dezembro de 2012. De 2011 para 2012, a variação na participação do pós-pago sobre a base total foi menos da metade, 1,28 p.p. E, de 2010 para 2011, esse avanço foi de mero 0,5 p.p.

PUBLICIDADE

Diversos fatores influenciaram o avanço do pós-pago em 2013, aponta a indústria. Um deles foi o maior rigor da Telefônica Vivo, maior operadora do país, na desconexão de acessos pré-pagos – a operadora diminui o prazo de 90 para 30 dias sem chamadas, passados 60 dias sem realização de recargas. A analista de telecom da consultoria Frost&Sullivan, Georgia Jordan, explica: “A Telefônica vem registrando adições líquidas negativas no pré-pago desde meados de 2012. E, por causa de seu tamanho, fez com que a penetração do pré-pago caísse”, afirmou.

Mas Fabbris, da Vivo, lembra que a mudança na política de desconexão da Vivo apenas segura a base de pré-pagos. Os acessos pós-pago crescem por si só: “O número absoluto cresce”. Em 2013, a adição líquida de pré-pago somou 0,5 milhão; enquanto a adição líquida dos pós-pago somou 9 milhões. Na TIM, salienta Roseiro, o crescimento do pós-pago em 2013 foi de 15% na comparação ano a ano (1,5 milhão de clientes), enquanto o do pré-pago ficou em 2,5% (61 milhões de usuários). A ascensão de parcela das classes D e E para a classe C nos últimos anos, combinada com a redução do nível de desemprego, criou condições para que mais gente pudesse pagar um ticket médio maior na telefonia móvel e se sentisse segura para realizar um contrato.

A isso se soma o esforço das operadoras, para apoiar os usuários na migração de um modelo de pagamento para o outro. As empresas criaram os planos-controle, com valor fixo a ser cobrado todo mês por determinada franquia de minutos on-net e off-net. Esses planos são considerados “planos de passagem” ou “trampolins” e têm se popularizado no país.

Ligações ilimitadas
“Em 2012, fomos pioneiros ao lançar um plano-controle com ligações ilimitadas de TIM para TIM e mais R$ 10 para SMS e chamadas para outras operadoras”, afirma Roseiro. Em novembro do mesmo ano, explica, a TIM avançou e criou o plano Liberty Controle Express, que prevê o pagamento da fatura com cartão de crédito. O modelo dispensa a comprovação de renda do usuário para assinatura do contrato e, segundo Roseiro, estimulou que mais pessoas aderissem ao pós-pago. A Vivo, por sua vez, lançou um plano-controle com chamadas ilimitadas em 2013, o que aumentou muito a migração, como explica o diretor de marketing da companhia.

Outra linha de atuação das operadoras, que ajuda a aumentar a confiança do consumidor na contratação de planos pós-pago, são as ações para esclarecimento das regras dos planos e investimento na confiabilidade dos sistemas de billing. O cliente que não toma susto quando chega a conta cria uma relação de confiança com a prestadora de serviço e segue no modelo de pagamento após o uso. “Uma das medidas que tomamos foi obrigar o usuário a desbloquear o uso de dados no plano para poder utilizar a banda larga móvel. Estava acontecendo de uma pessoa comprar um smartphone, clicar no aplicativo, por exemplo, de clima, usar transferência de dados, mas depois questionar a cobrança”, explica Fabbris.

Além dos fatores já citados, outras tendências do mercado de telecomunicações brasileiro devem contribuir para o avanço do pós-pago. Com o avanço da penetração de smartphones no Brasil – a IDC estima em 120% o crescimento da venda desse tipo de dispositivo móvel em 2013 – mais usuários devem buscar planos de dados. As operadoras oferecem pacotes pré-pagos de dados, mas as franquias são baixas. “O uso dos dados no Brasil ainda é baixo, mas o usuário que quiser usar mais vai perceber que não vale continuar no pré-pago porque a franquia é muito limitada. Essa é uma estratégia das operadoras. Não é do interesse delas fazer plano com franquia maior no pré-pago”, salienta Georgia, da Frost&Sullivan.

Para Bruno Freitas, analista da consultoria IDC, o próprio modelo de uso dos dados deve estimular a migração para o pós-pago. As pessoas querem receber notificações assim que acontecem e, para isso, precisam ter um pacote de dados. Na voz, as pessoas não precisavam ter crédito para receber chamadas. A oferta de pacotes para quem tem múltiplos dispositivos também é um fator do avanço do pós-pago, avalia Gomes, da Booz&Company, porque pode ser usado para planos familiares, que antes eram, em muitos casos, atendidos pelo pré-pago.

Por último, a queda da taxa de interconexão (VU-M) deve ter impacto indireto na participação de cada um dos modelos, apontam os entrevistados. Com a tendência de diminuição do efeito clube exclusivo (gerado por ligações on-net muito mais baratas que as off-net), o interesse dos brasileiros em manter em funcionamento diversos chips tende a diminuir. “Com a ligação entre operadoras mais barata, é possível que diminua o número de linhas pré-pagas, de forma que a participação do pós-pago cresça”, aponta Fabbris, da Vivo.

Ainda, como o peso da VU-M é maior nas chamadas pré-pagas do que nas pós-pagas (a Booz&Company estima 30% a 40% no primeiro caso e 10% a 20% no segundo), a queda deve da taxa deve pressionar ainda mais as operadoras a buscar clientes cujo ARPU é maior. “O impacto para as operadoras no caso do pré-pago é maior. Elas terão que buscar formas para compensar essa perda. Isso pode fazer com que se esforcem para tornar as ofertas do pós-pago mais atraentes”, diz Gomes. Outra opção é que a pressão pela redução dos preços das chamadas off-net faça com que as prestadoras de serviço elevem os preços on-net, e aí mais pessoas tenderão a colocar no papel os custos de telefonia móvel e observar os benefícios do pós-pago. Gomes lembra que, para as operadoras, o avanço do pós-pago não significa necessariamente maior rentabilidade; pode ser um ARPU maior e uma relação de mais longo prazo.

Anterior Para Abert, internet acaba com o debate sobre a propriedade cruzada de mídias
Próximos Marco Civil: Mesmo após acordo com teles, discussão do projeto é adiada por obstrução do PMDB.