Por que Brisanet, Desktop e Unifique perderam valor desde a estreia na bolsa?


Papeis de Brisanet, Unifique e Desktop se desvalorizaram sem parar desde julho, quando as empresas abriram o capital. Analistas apontam vários fatores. O aumento da aversão ao risco por parte dos investidores institucionais é apenas um deles.

Por que Brisanet, Desktop e Unifique perderam valor desde a estreia na bolsa?
Crédito: Freepik

Lá se vão seis meses desde a estreia na B3 das operadoras Brisanet, Desktop e Unifique. Desde então, os papeis de todas elas perdem valor – em linha com as grandes do segmento de telecom – por motivos diversos. Conforme analistas de mercado ouvidos pelo Tele.Síntese, o comportamento dos investidores difere em relação a cada companhia.

Quando estreou na bolsa brasileira no final de julho de 2021, a ação ordinária da Brisanet era vendida a R$ 13,93. Hoje, o valor de mercado da companhia caiu mais de três vezes. As ações eram negociadas a R$ 3,83 nesta sexta-feira, 14.

PUBLICIDADE

Com isso a empresa tem capitalização de R$ 1,72 bilhão no momento, embora entregue resultados. No ano, cresceu 35% sua base de assinantes, por exemplo.

Na expectativa de trazer mais liquidez aos papeis ordinários, a empresa chamou o Credit Suisse para ser seu formador de mercado. O banco já começou a operar no dia 3 de janeiro. O contrato é de 12 meses, com possível prorrogação. Mas, segundo analistas, o formador tem pouca capacidade para elevar os preços dos papéis.

Unifique e Desktop

A perda de valor impactou também outros provedores que entraram na bolsa ano passado. Unifique, que levantou R$ 818 milhões, e Desktop, que obteve R$ 715 milhões, também enfrentam recuou dos preços das ações desde a abertura de capital.

A Unifique, que estreou em julho valendo R$ 8,49, hoje é cotada em R$ 5,74. Significa valor de mercado de R$ 2,07 bilhões – acima da Brisanet, portanto. A empresa tinha em novembro 468,65 mil clientes de banda larga fixa.

Já a Desktop começou negociada a R$ 24,25, também em julho de 2021, e atualmente tem papel vendido a R$ 14,09, o que representa capitalização de mercado de R$ 1,23 bilhão. A empresa tinha em novembro 469,9 mil assinantes.

Grandes teles

No caso das três grandes operadoras negociadas publicamente, a Oi foi a única que se desvalorizou. O preço dos papeis caíram sem parar ao longo de 2021. Hoje, as ações ordinárias são comercializadas a R$ 0,70. Valor de mercado de R$ 4,68 bilhões. Desde novembro os papeis ordinários são negociados abaixo de R$ 1.

Já TIM e Vivo apresentaram flutuações diversas. Em relação a julho de 2021, as ações da TIM se valorizaram um pouco. Naquele mês foram vendidas sempre abaixo de R$ 12, acima de R$ 11. E hoje valem R$ 12,66. Valor de mercado de R$ 30,43 bilhões.

A Vivo recorreu à recompra de papeis. Em julho, tinha as ações ordinárias valendo menos de R$ 42. Em outubro iniciou a recompra. O preço dos papeis subiu, e atualmente são negociados a R$ 47,17. Foram recomprados no quarto trimestre de 2021 2,37 milhões de ações, o que representa 0,14% do capital social da companhia. Para isso, o grupo gastou R$ 113 milhões, pagando preço médio de R$ 47,57 por ação. A empresa passou a ter em tesouraria 14 milhões de ações, equivalentes a 0,83% do capital social total. O programa de recompras terminará em 27 de janeiro. A diretoria estuda o cancelamento dessa ações.

Motivos para a desvalorização dos ISPs

Segundo analistas que pediram para não ter os nomes revelados, dois fatores pesam para o desempenho registrado por Brisanet, Desktop e Unifique no mercado de ações. Um deles diz respeito à aversão ao risco e elevação dos juros por parte de governos mundo afora.

Diante do cenário de aumento da rentabilidade de títulos de economias mais fortes que a brasileira, os investidores institucionais migram seus investimentos a fim de reduzir o risco. Neste caso, empresas que realizaram IPO recentemente sofrem mais por terem seus negócios ainda em desenvolvimento, com baixa compreensão por parte do investidor inicial.

Como disse um entrevistado, é uma questão sistêmica. “O papel não tem liquidez, então qualquer investidor que queira dinheiro, se desfaz dos papeis de IPO. Isso explica muito o desempenho de Desktop e Unifique, que caíram 30% a 40%. Não tem nada em relação à execução do plano de negócios. Não houve mudança de perspectiva para essas empresas. Elas estão entregando o que foi prometido no roadshow”, disse um analista.

Brisanet

O caso da Brisanet, porém, é mais complexo. A empresa sofre também com o mesmo problema sistêmico de aversão ao risco ante aumento de juros no mercado internacional. Mas não só.

A companhia entrou no mercado com um IPO que levantou R$ 1,25 bilhão, mas com uma lista de poucos investidores – teve menos compradores institucionais no começo do que Unifique e Desktop.

O fato de ter uma quantidade menor de investidores desde o começo faz o preço cair mais quando um destes sai. Outro ponto que levou à venda das ações da empresa diz respeito aos mercados em que está presente e à entrada no segmento móvel.

Para os analistas, o Nordeste hoje é o mercado mais competitivo em telecomunicações no Brasil, com grande penetração de fibra óptica e grande grupos em ação. A Brisanet concorre, observam, com Alloha Telecom (EB Capital), Cabo, além das grandes Oi, Claro e Vivo e ISPs menores. O consumidor local oferece tíquete médio mais baixo e sofre mais com inflação e pandemia, observam.

“É um cenário competitivo duro. Junta isso com a dinâmica do 5G, que os investidores ainda não entendem bem em geral, não apenas no caso da Brisanet, e tem-se a baixa da ação. Investidor não gosta de empresa no segmento móvel por conta do alto investimento e giro de capital. E a agressividade da Brisanet no leilão pesou”, observou um.

Esses fatores fizeram, inclusive, a Unifique, com menos clientes, ter valor de mercado maior que a Brisanet.

Oi, Vivo e TIM

Se os ISPs perderam valor por ocuparem o topo da lista dos investimentos arriscados dos investidores, porque operadoras grandes também perderam valor ou andaram de lado?

Aqui, os analistas separam a Oi da situação vivida por Vivo e TIM. A Oi, em recuperação judicial, vive uma série de desafios que podem resultar em uma “explosão de valor ou implosão da empresa”, nas palavras de um analista. Hoje em dia, os três ISPs (Brisanet, Unifique e Desktop), juntos, valem praticamente o mesmo que a Oi, embora esta tenha uma carteira com 40 milhões de clientes no fixo e outros 5 milhões na banda larga fixa.

No caso da Oi, pesam dúvidas sobre a conclusão da venda da Oi Móvel, sobre o contrato firmado com o BTG para remuneração da tele como integrante da sociedade V.tal, como acontecerá a transição da concessão de telefonia fixa, como será resolvida a dívida bilionária com a Anatel.

“A empresa tem necessidade de solução em âmbitos estruturais e regulatórios, o que dificulta a análise tanto pelo investidor institucional, como pelo investidor de varejo”, observa um analista. Já Telefônica e TIM sofrem em razão da aversão histórica do investidor à intensidade de capital consumido pelo setor de telecomunicações. A chegada da 5G não tornou as empresas mais atraentes, uma vez que aumenta a necessidade de empenho de capital para qualquer expansão. “O que pode destravar valor é se começarem a dividir mais o capital de rede, compartilharem mais a rede. Se mandarem bons sinais em relação a isso, o mercado vai olhar”, prevê o mesmo analista.

PUBLICIDADE
Anterior Remessas mundiais de PCs caíram 5% no último trimestre de 2021
Próximos RNP começa a instalar cabo óptico da Infovia 00