Plano da QMC é investir mais de US$ 50 milhões no Brasil


No final de março, a empresa de infraestrutura wireless build-to-suit recebeu um aporte no valor de US$ 100 milhões de um grupo de investidores liderados pela Accel Partners. Segundo os sócios José Stella e Rafael Somoza, metade disso será investido no país nos próximos anos, onde vislumbram estratégia de longo prazo.

José Stella e Rafael Somoza - QMC - torres e antes
José Stella (esq.) e Rafael Somoza, co-CEOs da QMC Telecom

No final de março, a QMC Telecom, empresa de infraestrutura wireless build-to-suit, recebeu um aporte no valor de US$ 100 milhões de um grupo de investidores liderados pela Accel Partners.  É o maior investimento já feito pelo fundo na América Latina.

Como parte do acordo, o co-fundador da Accel, Arthur Patterson, e seu sócio, John Locke, farão parte do Conselho da empresa. O Grupo Santo Domingo também participou da rodada, juntamente com a equipe de gestão e com os investidores existentes, incluindo o Housatonic Partners.

Com essa nova série, a QMC totaliza US$ 172 milhões em capital levantado desde sua criação, em 2008. Foi a segunda rodada de investimentos da empresa. Quanto cada fundo passou a deter é um segredo que os sócios porto-riquenhos José Stella e Rafael Somoza não abrem. A empresa, que tem escritório em São Paulo, possui 1,5 mil torres (instaladas ou em projeto) espalhadas pelos mercados onde atua: Brasil, México, Colômbia e Porto Rico. A maioria delas fica no Brasil, garantem.

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O financiamento será usado para investimentos nestes países. Mais uma vez, sem citar números, os executivos garantem que a maior parcela, acima de 50% dos US$ 100 milhões, será gasta aqui. A QMC atua no Brasil desde 2012. Além de construir torres sob demanda para as operadoras, fazem projetos de DAS, que combinam small cells e fibra em uma infraestrutura indoor, sempre compartilhada por mais de uma operadora. Com esta atuação, a QMC afirma ter crescimento médio anual de 275% desde a fundação.

Tele.Síntese – Qual é a origem da QMC?
Rafael Somoza, Co-CEO – Depois de vender uma startup do ramo de outdoors [VIU Media, especializada em publicidade exterior] em Porto Rico, passamos a buscar um novo negócio. Em 2008 começamos testes. Fizemos um plano de negócios e criamos outra startup, dessa vez no ramos de torres. Financiamos a empresa com nosso capital. Em dois anos, atingimos nossas metas para cinco anos. Vimos a oportunidade e fomos pesquisar outros mercados. Analisamos de Estados Unidos a Brasil, num processo muito rigoroso. Somente no Brasil passamos 130 dias investigando o mercado local de torres. No México fizemos o mesmo.

Tele.Síntese – Quem vocês ouviram?
José Stella, Co-CEO – Falamos com todo mundo do mercado. Fizemos cerca de 150 entrevistas aqui no Brasil com possíveis clientes, fornecedores, reguladores.

Somoza – Por exemplo, eu fui um dia na prefeitura de Ananindeua, no Pará, para entender como obter um alvará para instalar uma torre em uma cidade no Norte do país. No México fizemos o mesmo, fomos a Tihuana…

Tele.Síntese – A ideia era uma abordagem diferente no Brasil?
Stella – Definimos como foco fazer uma empresa de torres no Brasil e, simultaneamente, no México. A ideia era reproduzir o que fizemos com sucesso em Porto Rico: entrar no mercado de torres green field build-to-suit. Ou seja, a operadora diz em que área precisa de uma torre. Nós fazemos a pesquisa, obtemos o espaço, montamos nossa torre e alugamos para esta operadora. Foi o que fizemos em Porto Rico, e que queríamos fazer no Brasil e no México.

Tele.Síntese – E quais os resultados? Hoje vocês têm quantas torres instaladas no país?
Somoza – 
Não falamos números, mas temos um portfólio de mais de 1,5 mil torres. Um terço disso já está instalado, espalhado por Brasil, Colômbia e México. Na Colômbia começamos em 2014.

Stella – No Brasil fazemos mais que torres, temos também projetos de small cells. No momento, temos dois grandes projetos em desenvolvimento. Um centro empresarial chamado Complexo Brasil 21, que está sendo construído em Brasília. Estamos instalando um sistema de DAS ativo ali. São mais de 220 mil metros quadrados cobertos por mais de 400 antenas. Exceto pelas arenas de futebol, achamos que seja o maior prédio comercial com sistema de DAS ativo no país. O complexo ficará pronto em breve. Outro projeto é o Patio Cianê, um shopping center em Sorocaba. A gente já acabou a obra, mas a operadora está finalizando a instalação de seus equipamentos. Também é um sistema DAS ativo.

Tele.Síntese – E porque o DAS ativo é mais indicado nestes casos?
Stella – Com esse sistema você pega o sinal analógico, converte em impulso elétrico, leva e traz das antenas por fibra óptica. É uma situação win\win. A demanda por capacidade é tão grande, que as operadoras não dão conta mais de instalar as próprias antenas. O sistema permite compartilhar. Além disso, há uma limitação no número de antenas que se pode instalar sem ter interferência entre elas. Para a operadora é bom, porque passa a ter uma melhor cobertura indoor. Para o dono do edifício, também, porque hoje em dia todo mundo quer permanecer conectado, inclusive lá dentro. A receita de um shopping está associada ao tempo que as pessoas passam ali. E a conectividade é um dos drivers que as fazem permanecer. As operadoras colocam seus equipamentos BTS em uma sala. Eles se conectam à nossa rede de fibra óptica que chega às antenas por todo o prédio.

Tele.Síntese – O mercado de small cells no Brasil ainda não deslanchou. Qual cenário vocês vislumbram para 2015?
Stella – O mercado não tinha mesmo muito crescimento. A gente acha que é um mercado que tem que ser explorado, e estamos buscando a fórmula certa.

Somoza – O foco das operadoras ainda está nas macrocells, pois ainda tem muita coisa por fazer. O indoor tem que ser uma solução neutral host, para compartilhar. Aí você pode diluir o custo para todo mundo. Não adianta só instalar para um. Nosso business é instalar todas as tecnologias para todas as operadoras. Esse é o modelo de negócio que ajuda as operadoras e a gente a desenvolver nosso negócio.

O que vemos que vai acontecer é que o Brasil precisará dos dois serviços. Em cidades como Nova York, por exemplo, tem-se os macrosites e os DAS trabalhando juntos. Então isso deve acontecer aqui também. As operadoras precisam desse ecossistema trabalhando em conjunto. A tendência é o hetnet (redes heterogêneas).

Tele.Síntese – Os small cells que vocês estão instalando já são 4G? Com WiFi?
Stella – Já são 4G. Não são um combo 4G/WiFi porque as operadoras não pediram, ainda, para fazermos assim, embora sejamos capazes. Mas é um equipamento muito modular. Pode-se fazer upgrades muito facilmente. O difícil é fazer o desenho das antenas e a distribuição por todo o prédio. Isso requer expertise.

Tele.Síntese – E em macro cells, quais os projetos?
Stella – Nosso modelo é alugar um terreno. Ali, construímos uma torre, geralmente de 50 metros. Somos donos da torre, responsáveis pela segurança e fornecimento elétrico. Mas as operadoras são donas das antenas, cabos, e equipamentos de solo. Somos os provedores do imóvel. Essa ainda é a principal fonte da nossa receita no Brasil.

Tele.Síntese – Quais operadoras são suas clientes?
Somoza – Todas: Algar, Claro, Oi, On Telecom, Sky, TIM, Vivo.

Tele.Síntese – O cenário regulatório para instalação de torres e antenas no Brasil tem o que melhorar?
Somoza – Acho que sempre tem o que melhorar, no mundo inteiro, não só aqui. A aprovação da lei [das Antenas, no Congresso] é um passo na direção correta, e deve melhorar a situação. Sempre que se tem uma regulação mais certa, clara, adequada e abrangente, faz todo mundo operar melhor. Queremos regras precisas para que, seguindo-as, tenhamos certeza do resultado esperado dentro de tempo razoável.

Tele.Síntese – O mercado de torres passa por consolidação no Brasil, e em outros países. Vocês pensam em fazer parte disso, sendo comprados ou adquirindo?
Somoza – Nosso foco não é comprar o portfólio de uma operadora. Nosso foco é fazer obras novas. Hoje em dia você pode dividir o mercado entre aqueles que buscam crescer por aquisição e aqueles que buscam o crescimento construindo. Nosso caso, quase 100%, é o built-to-suit. Hoje temos uma capacidade produtiva e desenvolvimento que, se não a maior, uma das maiores do país em número de profissionais dedicados. E em termos mensais de obras, somos a maior de todas. A gente concorre com a American Towers, mas o foco deles é outro, e tudo bem. Quando você já tem uma praça instalada, não há concorrência. Se a operadora precisa daquele ponto, ela busca aquele ponto. Não outro. Tudo depende do local onde a operadora precisa de cobertura. Ninguém quer construir uma torre do lado da outra. Queremos nos tornar a melhor prestadora de serviços de infraestrutura móvel nos mercado em que atuamos. E friso o termo prestadora de serviços, porque no final das contas estamos no ramo dos serviços.

Tele.Síntese – Como vão investir o dinheiro da rodada?
Somoza – Mais de 50% do dinheiro será investido no Brasil. A alta do dólar nos beneficia nesse caso, pois acabamos com mais dinheiro para investir aqui. Temos uma visão de longo prazo. Sabemos que há problemas agora, mas pensamos no Brasil daqui a 10 anos. Se tivéssemos visão de curto prazo, não iríamos investir agora. Há de se entender os mercado emergentes e ter estômago para lidar com os altos e baixos.

Tele.Síntese – A empresa é muito nova, de 2008. Já tem retorno sobre os investimentos?
Somoza – Pensando em equity value, a resposta é sim. Se não fosse um bom investimento, não conseguiríamos aporte de players como a Accell. A primeira rodada que fizemos foi de US$ 72 milhões para expandir a México e Brasil. E agora fizemos uma rodada para mais US$ 172 milhões. Isso é equity, não é dívida. Houve um aumento de capital. Por enquanto nosso foco está nestes mercados e Colômbia. Ali o investimento é mais novo, começamos em novembro. Podermos ir a outros mercados no futuro, mas por enquanto, estamos focados nestes três.

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