Pandemia antecipou investimentos da Akamai no Brasil, que já prevê demanda do 5G


Empresa de CDN e segurança projeta um 2021 com tráfego elevado e antevê que 5G vai exigir mais dos serviços de entrega de dados atrelados a proteção. Grupo inaugurou no final de 2020 seu primeiro scrubbing center na América Latina, localizado em São Paulo.

O ano de 2020 foi atípico para todos. Uma pandemia se abateu sobre a humanidade, levou países a fecharem fronteiras e empresas a repensarem negócios. Quem dependida do mundo físico precisou de vez entrar na internet, e quem já estava na internet precisou se adequar à competição.

E quem faz parte das engrenagens que permitem à internet funcionar, precisou se esforçar para que não houvesse um colapso. Foi assim com a Akamai. Por seus servidores transitam um terço dos dados da internet mundial. Em dois meses de 2020, o tráfego teve picos de 130%. Como explica o CEO da empresa na América Latina, Claudio Baumann (na foto), foi preciso lidar com uma demanda que estava prevista para vir dali a um ano.

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A empresa correu para importar servidores, ao mesmo tempo em que levava funcionários para casa, executava um processo de fusão, suas equipes tinham mobilidade reduzida em função de lockdowns em diversas cidades e ainda planejava a implantação de um scrubbing center no país – o único na América Latina, dos 20 do grupo espalhados pelo mundo.

Para conseguir, antecipou investimentos. O que estava previsto aportar até meados de 2021 foi gasto até setembro 2020, explicou Baumann ao Tele.Síntese. Mas não pense que os aportes cessaram. Segundo ele, a Akamai segue de olho nas oportunidades que virão com o aumento da demanda.

Depois da pandemia, outra onda virá com a 5G. A tecnologia vai exigir um fluxo ainda mais rápido de dados, e mais soluções de computação de borda. Também demandará mais segurança do que nunca para dispositivos que não têm capacidade de lidar com programas pesados de proteção.

Por isso mesmo a companhia comprou, no final do ano passado a Asavie, uma empresa capaz de prover segurança para dispositivos, sem no entanto exigir a instalação de qualquer app no terminal. Leia abaixo a entrevista que fizemos com o executivo.

Tele.Síntese: A Akamai ampliou investimentos no Brasil no último ano, e este ano já anunciou que vai ampliar equipe de vendas. Por quê? Qual a estratégia para o Brasil?

Claudio Baumann, CEO da Akamai: A Akamai é uma empresa ligada à expansão contínua da internet. Mesmo se não vendêssemos nossos serviços para nenhum novo cliente, já teríamos crescimento vegetativo porque a internet não para de crescer.

Mas além disso, a pandemia foi catalizadora do uso da internet. Por exemplo, entre março e maio do ano passado, o tráfego de streaming aumentou 130% no mundo. Os dados do Brasil exatamente eu não tenho, mas também mostram crescimento e o padrão global é um bom proxy do que aconteceu aqui.

Em tudo o que diz respeito a tráfego interativo, a gente representa 34% do tráfego global. E vimos um crescimento que aconteceria em mais de um ano acontecer em apenas dois meses. Depois, em novembro teve o lançamento da Disney+, que é o tipo de evento que é uma cacetada para as redes.

Somos um serviço de entrega e de segurança. Se não garantirmos a alta instantânea, ficamos prejudicados. Então aceleramos planos de deployment para o terceiro trimestre, antecipamos para setembro, instalamos mais de 1 mil servidores. E mais banda, mais software, mais tudo. Em 2020 implementamos 5,5 vezes mais servidores e 3,2 vezes mais banda de internet comparado com 2019.

Não podemos deixar faltar capacidade para dar conta das demandas dos clientes nacionais e internacionais. Então tem esse efeito catalisador da pandemia que nos obrigou a aumentar os investimentos em rede e acelerou tudo. Nesse período, tivemos o desafio de aumentar a infraestrutura antes da receita, a banda adicional antes da receita. Mas mantivemos o Opex constante.

E quais as perspectivas para 2021?

Baumann: Com as dificuldades, a demora da vacinação, não dá perspectiva clara do que será a evolução para nossa vida. Falei com meu par na Ásia na Akamai, e lá o ritmo de volta é mais acelerado que o nosso. Já estão voltando a um ambiente com menos restrição. O tráfego lá subiu na pandemia, e quando caiu, não caiu ao patamar anterior. Ficou em 70%, 80% do que alcançou. Nossa percepção é que o degrau não vai ter caída para o mesmo patamar.

Acho que faz sentido, porque um monte de gente que usava pouco e-commerce começou a usar sistematicamente, streaming cresceu, e por aí vai. Então seguiremos com tendência de crescimento.

Os investimentos tiveram que aumentar além do previsto?

Baumann: Teve uma coisa bastante operacional, comprando servidores, ainda tinha o desafio de passar pela aduana, levar para os data centers, testar e ativar, com mobilidade reduzida. Isso foi um desafio.

A expansão pode se dar via aquisição? Alguma empresa brasileira no radar?

Baumann: Em 2019 fizemos a aquisição da Exceda, que era revendedora dos nosso serviços, e da qual eu era um dos sócios. Foi em novembro de 2019. A consecução dos efeitos dessa aquisição acabou acontecendo em 2020. Teve a integração da equipe, dos processos, tudo ao longo de 2020. Compramos a Exceda para ter o melhor dos dois mundos: os processos internos da Akamai e o time de serviços da Exceda. Essa transição nos tomou alguns meses. A empresa dobrou de tamanho no Brasil com isso.

No meio da pandemia, tivemos que integrar tudo. O pessoal de escritório nunca foi um grande problema para integrar. Mas suporte, como fazer para integrar com restrições de mobilidades, quando o cliente liga tem que ter alguém no escritório para dar suporte, no meio do lockdown? Então fizemos uma mudança total em apenas uma semana.

Por outro lado, a experiência nos ajudou a aperfeiçoar produtos. Temos soluções para conexão remota, e o que era para ser implementação gradual e bem estruturada, foi uma mudança de uma semana, com duas para estabilizar. O pessoal todo de suporte hoje está trabalhando de casa, mas com ferramentas que emulam ambiente de centro de operações. Isso aconteceu na Akamai inteira no mundo, com mais de 7 mil funcionários. A exceção são os SoCs.

Tem outras empresas que pretendemos comprar ainda, estamos analisando, mas nenhuma no Brasil.

Pergunto de Brasil porque temos clusters de desenvolvimento na academia…

Baumann: Acho que tem uma diferença entre ter a tecnologia, o conhecimento e o produto. Transformar conhecimento tecnológico em produto exige uma transição dolorida. Entre ter a ideia e transformar em algo empacotado há um longo caminho. Isso é algo que precisa ser trabalhado aqui.

Quais são hoje os principais clientes?

Baumann: Toda empresa que utiliza a internet para fazer negócios, que transacionam via internet, tem potencial para ser cliente. Nossa carteira tem grande parte de grandes empresas de mídia, e-commerces, e instituições financeiras.

Mais recentemente temos visto crescimento da base de clientes de manufatura, de distribuição, em função de colocar a equipe para trabalhar remotamente, e em segundo porque a digitalização da empresa acelerou. A internet virou oportunidade. E quando o app de streaming é pago, tem clientes, tem que ter a qualidade garantida. Entre os clientes estão Adobe, Airbnb, Dazn, Fox, Riot Games, Roblox, Ubisoft, entre outros.

Akamai sempre foi muito conhecida pelo fornecimento de CDN [content delivery network], para acelerar a conexão do usuário e reduzir o tráfego global de internet, certo. O investimento e estratégia seguem focados nisso? 

Baumann: Temos estratégia forte em segurança também. Está acontecendo a utilização maior da internet nos negócios, e os ataques aumentaram de maneira absurda. Ano passado inauguramos, em outubro, Centro de Tratamento de Ataques (Scrubbing Center) em São Paulo. É nosso único na América Latina. Ele não trabalha de forma isolada. Tem outros 20 centros ao redor do mundo que trabalham de forma coordenada.

Agora o fato de ter um no Brasil permite dar mais opções de conectividade, com circuitos dedicados. Quando o cliente sofre o ataque, não basta repelir. Precisa pegar o tráfego, filtrar com ferramentas, especializações e recursos humanos para fazer separar o que é malicioso e entregar o tráfego legítimo para a origem.

E qual o perfil hoje da sua receita?

Baumann: Hoje é muito grande em segurança. Em alguns momento separar a receita de segurança da parte de entrega ficou uma fronteira cinza. Porque na prática nós protegemos a entrega. Com isso, segurança já representa metade do faturamento.

A tendência é aumento gradativo da segurança porque cada vez menos faz sentido a entrega sem segurança. Em novembro teve muitos ataques ramsonware no mundo inteiro. São aqueles ataques em que os hackers extorquem empresa. É um negócio. Eles avisam que vão derrubar o site se não receberem um depósito em bitcoin. Não se trata da questão de performance ou offload do site. Se a segurança não estiver embutida no negócio, vai ter problema.

ISPs são clientes?

Baumann: Grande parte das empresas que tomaram decisão de implantar infraestrutura própria utilizam nossos serviços também. É onde podem investir em plataforma com certa capacidade para tratar os picos. E estamos em 137 países, e estamos em todos os provedores relevantes. E onde tem PTT, temos servidor. Não podemos estar em todos os provedores, porque alguns são muito de nicho. Mas a gente não está só nos grandões.

E a 5G, que provocará adensamento das redes e aumento da computação de borda, é uma oportunidade ou ameaça para vocês?

Baumann: Compramos, em outubro de 2020, uma empresa chamada Asavie, voltada para segurança em dispositivos móveis. Ela visa exatamente fornecer proteção bastante forte para os dispositivos móveis sem precisar de um software na aplicação ou um software cliente nos dispositivos, pensando nisso.

O 5G vai ter uma capacidade muito grande, vai trazer novas possibilidades. Tem o aspecto de segurança, que vai ser muito mais relevante, tem o aspecto de entrega de tráfego, e novas aplicações, como edge computing. Temos 270 mil servidores pelo mundo. Se o cliente quiser, tem a possibilidade de acelerar suas operações que hoje estão centralizadas. Pode ser que tenha transações que precisem de tempo de resposta muito baixa. Então o cliente coloca o aplicativo dele no nosso servidor. Tem uma parte da nossa rede que está na China. Se puder fazer o processamento lá, por meio desse aplicativo, roda lá, em vez de sair e voltar, por exemplo.

Outra funcionalidade que a gente vê que precisa ser rápida é a Internet das Coisas (IoT). Não vai ser necessariamente a quantidade de trafego trocadas, mas o tempo de resposta que será importante. O 5G abre um cenário novo e oportunidades para a gente.

Você falou em 2021 a internet não volta ao patamar pré-2021. Com isso, em quais setores espera haver mais demanda pelos seus serviços?

Baumann: Teremos forte crescimento em setores adicionais, com lançamentos para garantir a segurança em dispositivos, vemos oportunidade em garantir a segurança no home office, por exemplo. Um segundo ponto importante são os bancos digitais, ou a digitalização dos bancos tradicionais. E o e-commerce vai continuar a crescer. Quando você pega a participação do e-commerce em relação ao varejo como um todo, tem muito o que crescer ainda. E tem a LGPD, que aumenta a necessidade por segurança.

Qual o plano de expansão da rede este ano?

Baumann: Não tenho número final. No primeiro semestre vamos implantar algumas centenas de servidores. Não temos grandes data centers, mas temos data centers parrudos. A gente faz acordos com os ISPs, com as telcos, para colocar na boca da internet. A gente se conecta por LAN, em altíssima velocidade. O deployment da nossa rede é feito sempre em parceria com ISPs e telcos.

Somos completamente usuários de telecom. Medimos nossa capilaridade pela quantidade de tráfego que servimos com um hub de rede ou dois hubs de rede. Nosso negócio é ter servidor na parte central do Brasil e um ou dois trechos de rede até o terminal do cliente.

Fora 2020, que foi excepcional, aumentamos globalmente o tráfego em 30% a 40% ao ano. Aqui talvez seja um pouquinho mais acelerado.

O streaming de eventos ao vivo parecer ser a nova área de forte expansão da mídia, bem como a transmissão dos canais lineares. A CDN tem qual papel nisso?

Baumann: Temos feito entregas de quase todos os grandes eventos globais. As Copas do Mundo. Nosso recorde de tráfego em 2020 foi a final do Campeonato Mundial de Críquete. A transmissão ao vivo tem desafios adicionais. Primeiro, a dificuldade de se programar para a demanda. Por exemplo, a invasão do Capitólio, de uma hora para outra, os portais de notícia tiveram um aumento grande de demanda.

Depois tem a qualidade, e a segurança, a quantidade de conteúdo roubado é enorme ao vivo. E o último fator é o delay. As pessoas ficam incomodadas se ouvirem o vizinho gritar gol antes delas. Então nessa rede o princípio de funcionamento é diferente. Além do efeito amplificador de servir muita gente, tem a importância de colocar refletores do conteúdo pelo caminho.

Você falou na implantação de servidores. Muitos equipamentos desses vêm da China. As empresas do país, no entanto, vêm sofrendo bloqueios para acessos de componentes ou propriedade intelectual dos Estados Unidos. Isso prejudicou os negócios de vocês?

Baumann: Como são equipamentos agnósticos, usamos dezenas de fornecedores, Palo Alto, Cisco, Radware, uma infinidade. Também usamos equipamentos chineses que seguem as regras de homologação americanas. Até porque muitos dos equipamentos são feitos na China. Se você falar que não vai comprar placas e servidores feitos na China, talvez fique com problema de estoque para fazer a entrega de capacidade. Mas obviamente, como empresa americana listada em bolsa, somos rigorosos em nossas export policies.

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