Os efeitos da crise econômica na indústria de software e serviços de TI


{mosimage}Qual o impacto da crise econômica mundial na Indústria Brasileira de Software e Serviços de TI? Neste artigo, o diretor de mercado da Softex, Djalma Petit, considera tanto os efeitos negativos que podem afetar esse setor como os aspectos que podem fortabelecer a indústria que exporta serviços de software e TI e como elas podem crescer com a recessão.

O mundo assiste preocupado a uma crise econômica, cujas conseqüências ainda não são  completamente previsíveis. O problema ocorrido com os títulos subprime na economia norte-americana mergulhou o sistema financeiro mundial em um clima de incertezas e preocupações. A recessão e o desemprego já assolam as economias centrais. Em relação ao Brasil, todos torcemos para que os fundamentos de nossa economia, as reservas disponíveis em moeda estrangeira e as ações governamentais atuem como diques de contenção suficientemente fortes para manter o tsunami econômico mundial – ou pelo menos a maior parte dele – longe das nossas praias, uma vez que já se sabe que não apenas marolas chegarão por aqui.
 
Mas, especificamente, qual o impacto desta crise para a Indústria Brasileira de Software e Serviços de TI (IBSS)?
 
A IBSS vive um momento decisivo, em sua trajetória para se tornar um setor econômico importante para o desenvolvimento nacional. Há um conjunto de fatores – competência técnica, conhecimento do funcionamento de setores empresariais, proximidade cultural com os mercados clientes, custos relativamente competitivos, entre outros, que têm estimulado muito os empresários e o próprio Governo a acreditar que a IBSS tem grande potencial para contribuir mais efetivamente para o crescimento sustentado do PIB nacional. Ela pode ser geradora de renda e empregos de per si ou, por suas características próprias, atuar como instrumento para a melhoria da eficiência de diversas outras cadeias produtivas. Como prova desta crença, o governo manteve o setor como uma das opções estratégicas da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), lançada há alguns meses.

Para analisar o potencial impacto do atual cenário econômico mundial na IBSS, vale recordar que o setor se desenvolveu mesmo em épocas de crises, como durante o período de hiperinflação vivido pelo país. Aliás, convém dizer, foi durante aquele período que a IBSS desenvolveu competências até hoje muito valorizadas no cenário ultracompetitivo do mundo globalizado.

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O Brasil possui um mercado interno para software e serviços de TI muito pujante. E nossas empresas se beneficiam disto, apesar de termos aqui atuando a maior parte das corporações globais de TI, disputando espaço com nossas companhias. Em relação ao mercado externo, nossa participação ainda é aquém de nosso potencial. Em termos de percentual de faturamento, as receitas advindas de projetos no exterior ainda não representam fatias substanciais. Porém, as projeções são no sentido de que isto passasse a acontecer nos próximos um ou dois anos.

Na construção de cenários que venham a decorrer da crise econômica, são aventadas hipóteses tanto positivas quanto negativas. Como dito, as principais empresas brasileiras de TI têm planos de expandir significativamente suas receitas decorrentes de negócios internacionais. Assim, sem duvida, se a crise se traduzir em forma de recessão muito aguda, na qual os clientes cancelem ou adiem projetos, os planos de expansão das empresas terão que ser revistos. Algumas empresas já reportam compasso de espera na condução de projetos por parte de seus clientes. A torcida é que isto seja apenas um momento de observação ou de replanejamento.

Em relação ao contexto doméstico, talvez a crise traga, para as empresas brasileiras, um ambiente marcado pelo acirramento da competição com as empresas internacionais de serviços de TI, como as indianas, que têm os mercados americano e europeu como alvo principal. Tais empresas, em função do ambiente recessivo nos EUA e na Europa, com receitas em queda, poderão fazer ofensivas comerciais significativas no mercado interno brasileiro. Passaríamos, assim, a ser um alvo preferencial, caso os efeitos da conjuntura global aqui no Brasil não sejam de grande magnitude, como desejamos nós brasileiros.

Por outro lado, a crise poderá desencadear uma busca ainda mais obstinada por redução de custos por parte das empresas americanas e européias, resultando em um aumento do processo de terceirização, o que vai seguramente gerar muita demanda para nossas empresas. Como nossos custos são inferiores aos praticados por empresas nativas americanas ou européias, e como há um movimento – por motivos geopolíticos – de diversificação na escolha de fornecedores, até agora muito concentrados em único país, é provável que haja um fluxo de encomendas importante em direção às nossas empresas.

A recente valorização do dólar frente ao real também é um fator que contribui muito, pois nossos serviços passam a ter custos mais competitivos. É nesta busca determinada pela redução de custos como elemento de ganho de competitividade para superar o momento de crise, não tão improvável de acontecer, que pode residir uma rara oportunidade para a Indústria Brasileira de Software e Serviços se consolidar como player internacional relevante. Este cenário positivo pode também evitar que as empresas indianas venham a desenvolver ações de vulto no mercado interno brasileiro no sentido de capturar fatias consideráveis em nosso mercado, pois estarão ocupadas em atender seus clientes americanos e europeus.

Entretanto, em relação a este cenário positivo, surge um complicador. O presidente norte-americano eleito Barack Obama tem sinalizado que dará muita importância ao tema ‘emprego’ na condução de sua política econômica. Ainda é uma incógnita até que ponto a administração Obama vai implementar medidas práticas, efetivas (subsídios, redução de impostos ou outros), que desincentivem a terceirização ao exterior como forma de redução de custos.

De qualquer modo, as empresas brasileiras de software e serviços de TI devem considerar seriamente que as dificuldades criadas pelo atual cenário econômico desfavorável podem vir a se tornar um possível gerador de novas oportunidades. Por vezes, pode resultar de um ambiente de crise, onde predominam condições extremamente adversas, um conjunto de oportunidades que, se bem aproveitadas, podem alavancar o crescimento de uma indústria, no caso a Indústria Brasileira de Software e Serviços de TI para exportação.  


* Djalma Petit é diretor de Mercado da SOFTEX (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro)

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