O futuro do mobile money no Brasil


Está claro que, nos próximos anos, o telefone celular estará no centro das transações financeiras no Brasil. O que ainda não está claro é a velocidade de implementação de projetos que facilitem o uso do celular para todos os tipos de pagamentos e recebimentos, bem como o escopo final das alianças que permearão esses novos …

Está claro que, nos próximos anos, o telefone celular estará no centro das transações financeiras no Brasil. O que ainda não está claro é a velocidade de implementação de projetos que facilitem o uso do celular para todos os tipos de pagamentos e recebimentos, bem como o escopo final das alianças que permearão esses novos serviços. As alianças são indispensáveis porque o desenvolvimento do conceito de mobile money depende de diálogo e parcerias entre dois ecossistemas muito diferentes – o sistema financeiro e a telefonia celular — e, ao mesmo tempo, necessita de uma cooperação ativa do Governo Federal.

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Já existem experimentos concretos de mobile money no Brasil. A Oi Paggo, por exemplo, é pioneira nessa atividade, ao desenvolver uma plataforma de utilização do celular como cartão de crédito, focando em segmentos sociais ainda carentes de acesso ao cartão de crédito, em especial a classe C, que vem se fortalecendo com o aumento do emprego e renda no Brasil. A Oi Paggo já possui mais de 150 mil clientes, em especial no Nordeste, onde o market share da Oi na área móvel está em torno de 40% e a empresa possui grande capilaridade. Até o momento, a Oi Paggo é um empreendimento solo, que se responsabiliza tanto pelos processos de credenciamento de estabelecimentos como de emissão de cartões de crédito virtuais.

Também a Vivo lançou uma série de iniciativas, priorizando desde o início parcerias com bancos e empresas de cartão de crédito. Como exemplos mais recentes destacam-se a parceria com o Itaú na oferta de um cartão de crédito co-branded, um projeto em desenvolvimento com a Mastercard visando transformar o celular em cartão de crédito e débito e a parceria com o Bradesco, por meio da Conta Bônus Celular Bradesco, onde clientes que abrirem uma conta no banco recebem de volta da Vivo o valor pago a título de tarifa mensal na forma de créditos de pré-pago. A Claro aponta para o mesmo caminho, com lançamento de parceria similar com o Bradesco, bem como a realização de testes com o NFC (Near-Field Communication), que permite a realização de pagamentos por meio da tecnologia contactless. A TIM também articula as suas proposições de valor nesse segmento. No entanto, apesar dessas iniciativas, o mobile money no Brasil ainda está em sua infância. Os benefícios para os consumidores são evidentes. Mas trata-se de um mercado segmentado.

Para os consumidores do pós-pago, cerca de 20% da população, nas classes A e B, a  conexão entre suas contas bancárias e cartões de crédito com o celular possibilitará a confirmação e informação sobre transações, uma camada extra de segurança e, principalmente, um novo canal para transações de pagamentos e transferências. Neste ponto, vale ressaltar o grau de adesão ao mobile banking oferecido por praticamente todos os grandes bancos de varejo no Brasil, possibilitando aos clientes o acesso a suas informações bancárias, recebimento de informações e alertas via SMS bem como realização de pagamentos de contas ou contratação de empréstimos, entre outros serviços. Da mesma forma, o mercado brasileiro tem vislumbrado uma multiplicação de serviços de mobile payments, ressaltando a conveniência de sua utilização, liderada por bancos, bandeiras (VISA Mobile Pay) e adquirentes (Foneshop, da Redecard).

Para a emergente Classe C, cuja importância e significação será transformar o Brasil na próxima década em “um país de classe média”, o celular já está abrindo o horizonte de inclusão nos sistemas de cartão de crédito. Iniciativas como a já citada Oi Paggo bem como a Novo e-pay visam atuar não apenas neste segmento mas estão fortemente focadas nele.  As recentes modificações no mercado de cartões no Brasil, com a entrada de novos adquirentes, acelerará a oferta de serviços inovadores, dentre os quais certamente estará a mobilidade, tanto para a ponta dos estabelecimentos quanto para os consumidores.

Mas talvez a contribuição mais importante do mobile money ao Brasil seja a facilitação da bancarização das classes D e E. No Sudeste Asiático e na África, onde os sistemas financeiros são frágeis e têm baixa capilaridade, as operadoras celulares estão jogando o papel revolucionário de universalizar o acesso da população ao sistema financeiro. No Brasil, onde o sistema financeiro já inclui cerca de 50% da população, existe a percepção do setor bancário de que contas especiais para a baixa renda resolverão, com o tempo, a adesão da outra metade da população, ainda desbancarizada.

Na verdade, o que aprendemos da Ásia e da África é que a população de baixíssima renda não é um cliente natural do sistema financeiro tradicional. E, ao mesmo tempo, que a população pobre está totalmente familiarizada com o sistema pré-pago da telefonia celular.  Os custos de manutenção das contas bancárias tradicionais também parecem ser incompatíveis com a renda desse segmento. O celular, assim, surge como um agente poderoso de inclusão financeira – e digital – que não pode ser desprezado pelo sistema financeiro e, em especial, pelo governo. Nesse sentido, a atuação próativa do Governo Federal — não somente do seu agente regulador, o Banco Central, mas de um conjunto de Ministérios e agências governamentais — será essencial.

Para tudo isso se concretizar, no entanto, é fundamental o diálogo entre bancos, bandeiras de cartão de crédito, operadoras de telefonia celular e reguladores e outras agências governamentais. Em conjunto, eles certamente poderão encontrar o que falta para acelerar o mobile money no Brasil.

Sérgio Goldstein é presidente da S Goldstein Consultoria Estratégica; Ricardo Tavares é CEO da TechPolis, Inc.

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