Nuvem: setor cresce, mas teme falta de profissionais


Marco Bravo, head do Google Cloud Brasil - divulgação
Marco Bravo, head do Google Cloud Brasil – divulgação

O mercado de nuvem pública no Brasil somava US$ 3,2 bilhões em 2021, com taxa de crescimento anual  composta (CAGR) de 31% para o período 2020-2024, de acordo com dados da International Data Corporation (IDC).

De janeiro de 2020 a dezembro de 2021, 87% das companhias que migraram para a nuvem são de pequeno porte, ou seja, que contemplam até 50 colaboradores, segundo levantamento da Sky.One.

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O mesmo estudo da Sky.One mostra que, em 2020, o setor de comércio – atacadista e varejista liderou o ranking das empresas que mais migraram para cloud, com 39,13%. Na sequência estão contabilidade (15,08%) e software house (12,36%). No ano seguinte, o segmento de comércio – atacadista e varejista permaneceu predominante, com 33,68%; e a sequência teve contabilidade (14,64%), tecnologia (10,21%); e transporte e logística (7,71%).

A pesquisa também apontou que, em 2020, as empresas apostaram na migração de seus sistemas para a nuvem em busca de gestão do ambiente (35,01%), infraestrutura atrelada ao software (26,60%), mais segurança (22,88%), capacidade de armazenamento (7,37%) e reinvestimento de infraestrutura (4,51%).

Já em 2021, o benefício buscado pelas companhias estava relacionado à gestão do ambiente (45,41%), infraestrutura atrelada ao software (19,64%), capacidade de armazenamento (15,82%), mais segurança (10,46%) e reinvestimento em infraestrutura.

São dados que apresentam como anda o mercado de nuvem no Brasil. Para que tenhamos uma ideia melhor ainda do momento pelo qual passa o segmento, e de seu futuro, o TS ouviu executivos de grandes empresas de cloud.

Dados e previsões

“Estimamos que os investimentos em nuvem pública (Iaas & PaaS) no Brasil realizados pelas PMEs, em 2022, devem passar de R$5 bilhões”, diz Roberto Arruda, CRO da Sky.One.

Roberto Arruda, CRO da Sky.One - divulgação
Roberto Arruda, CRO da Sky.One – divulgação

“De acordo com o Gartner, a nuvem deve representar 14,2% do mercado total de gastos corporativos com TI até 2024, ante 9,1% em 2020. Ainda segundo a consultoria, quase 70% das organizações que já utilizam serviços em nuvem e devem investir mais no uso da tecnologia, ainda em decorrência da pandemia”, comenta Mariana Hatsumura, diretora de Azure da Microsoft.

Segundo a executiva, é um setor que cresce continuamente e, nos últimos dois anos, em razão da aceleração da digitalização, esse crescimento foi ainda maior. “Ainda assim, é um mercado cheio de oportunidades de criação de novos negócios e soluções baseadas em nuvem, especialmente no ambiente multicloud”, diz.

Hatsumura conta que a intenção da Microsoft é liberar os clientes empresariais das restrições de “onde” seus ativos estão para permitir que se concentrem em “como” realizar a inovação.

“Construímos uma estratégia de nuvem híbrida abrangente para fornecer as plataformas de armazenamento, ferramentas de gerenciamento, análises e de segurança que ajudam os clientes a reduzir a complexidade e transformar sua nuvem híbrida ou não em uma solução comercial ágil”, fala a diretora.

Mariana Hatsumura, diretora de Azure da Microsoft. - divulgação
Mariana Hatsumura, diretora de Azure da Microsoft. – divulgação

“Para nós, o poder computacional da nuvem é o que trará ainda mais inovação para os negócios operarem durante e no pós pandemia, com as mudanças que esse cenário tem trazido. A nuvem combinada com a análise de dados fornece aos negócios insights valiosos tanto para gerir suas companhias quanto para entender o perfil de seus clientes”, complementa.

Para Cleber Morais, Diretor Geral para Setor Corporativo da AWS no Brasil, esse movimento de mais de 3 bilhões de dólares, identificado pela IDC, é bem significativo, “mas o potencial de transformação pela nuvem é muito grande e estamos apenas começando a explorá-lo”.

Segundo o executivo da AWS, estudos de mercado mostram que apenas cerca de 5% do investimento total de TI nas empresas em todo o mundo é direcionado a nuvem. “Os outros 95% vão para tecnologias on premises, ou seja, há muito espaço para a transformação digital das empresas.”

“A IDC considera que a chamada terceira plataforma envolve tecnologias como a nuvem, mobilidade, Big Data, Analytics e Social. A consultoria estima que para 2022, na América Latina, a terceira plataforma irá representar 23% do mercado, quando comparado com tecnologias tradicionais”, complementa Marco Bravo, head do Google Cloud Brasil.

Tendência 

Bravo expõe uma tendência a partir dos números obtidos pelo Google Cloud. “Em 2021, encerramos o ano com uma receita global de US $19,2 bilhões. No quarto trimestre de 2021, o Google Cloud apresentou receita global de US $5,5 bilhões, aumento de 45% na comparação ano a ano”, informa.

Diz que em 2021, na comparação com 2020, foi observado um crescimento de mais de 80% no volume total de negócios para o Google Cloud Platform, e um crescimento de mais de 65% no número de negócios acima de 1 bilhão de dólares.

“Com relação ao nosso ecossistema de parceiros, em 2021, na comparação com 2020, o número de clientes que gastaram mais de US $1 milhão por meio do nosso marketplace aumentou em seis vezes. Gastos de clientes por meio de parceiros de canal no GCP mais do que dobrou, assim como o número de certificações ativas entre nossos principais integradores de sistemas globais”.

E explica. “Esses números representam uma tendência que está acontecendo ao redor do mundo, inclusive no Brasil. O Banco BV, por exemplo, buscou no Google Cloud o parceiro para ajudar a identificar possibilidades para reimaginar a experiência do cliente. E a Globo está migrando seus data centers para a nuvem do Google para aproveitar a elasticidade da nuvem e todo o potencial de AI, ML e Análise de Dados.”

Crescimento geral

E os fornecedores registraram significativo crescimento nos últimos dois anos. A Sky.One teve um crescimento de 67% até o momento, comparado ao ano passado, “que já havia sido acelerado pela pandemia”, diz Arruda.

Na Microsoft, houve aumento de 46% na procura pelo Azure e outros serviços em nuvem no último trimestre, encerrado em dezembro passado. Hatsumura acredita que isso ocorreu porque, com a ascensão do trabalho híbrido e a busca por inovação em todos os segmentos, os serviços em nuvem da empresa têm crescido, com uma forte demanda por serviços baseados em consumo.

A receita global da AWS no quarto trimestre de 2021 foi de US$ 17,7 bilhões, valor 39,5% acima do registrado no quarto trimestre de 2020, informa Morais.

A Locaweb diz não poder divulgar seus resultados por ter no grupo a Nextios, que tem capital aberto na B3, mas indica que, nos últimos dois anos, teve “crescimento alto de duplo dígito” na Nextios, “principalmente no portfólio de migração e gestão de clientes na nuvem”, segundo Guilherme Barreiro, diretor geral na Nextios.

Expansão e futuro

A IDC estima que o consumo de nuvem deve crescer 34,2% entre 2019 e 2024 no Brasil. Com os resultados positivos, as empresas vão planejando sua expansão e seu futuro.  Google Cloud, por exemplo, aumentou seu foco de atuação em setores como utilities, agronegócios, manufatura e logística, na América Latina.

“Para isso, o Google Cloud trouxe especialistas de cada uma dessas indústrias para que as empresas que atuam nesses setores acelerem a transformação digital e inovem seus modelos de negócios”, conta Marco Bravo.

Na AWS, o plano de crescimento está inserido no montante de R$ 1 bilhão investido de fevereiro de 2020 até o fim deste ano na expansão da Região AWS de São Paulo, infraestrutura que oferece mais de 200 serviços para os clientes brasileiros. A empresa também planeja lançar sua primeira AWS Local Zone, no Rio de Janeiro.

“Também anunciamos, no fim do ano passado, que investiremos em um terceiro AWS Edge Location no Brasil, desta vez em Fortaleza, que se soma ao AWS Edge Location de São Paulo e do Rio de Janeiro. Tudo isso deixa claro como acreditamos nas empresas, startups e governos do Brasil que migrarão em breve para a nuvem, de forma a adquirir diferenciais competitivos como flexibilidade, escalabilidade, ótimo custo-benefício e segurança”, diz Cleber Morais.

Roberto Arruda, da Sky.One, acredita que os gastos em nuvem pública serão acelerados por vários fatores: o crescente aumento de aprendizado de máquina e inteligência artificial pelas empresas para tomada de decisões, o início do uso da tecnologia 5G, a crescente preocupação com a cibersegurança, a necessidade de integração das diversas aplicações que as empresas têm passado a usar, e a enorme escassez de mão de obra.

“Esperamos um crescimento de 100% da receita para este ano, comparado ao ano passado”, conta o executivo, sobre sua própria empresa.

Para Guilherme Barreiro, a expectativa de crescimento aumenta ano a ano. “Segundo dados também do próprio IDC, ainda temos mais de 70% do workload das empresas brasileiras em instalações on premises ou em modelo tradicional de TI. Mais importante do que o tamanho de mercado, este percentual atual mostra o tamanho real da oportunidade e da necessidade destas empresas. A migração para nuvem é uma certeza: a dúvida somente é quando”, fala o diretor da da Nextios, do grupo Locaweb.

Adesão

Mas, dentro de toda essa expectativa, que tipos de empresas irão aderir à nuvem?

Uma pesquisa realizada pela The Harris Poll e patrocinada pela Microsoft constatou que 86%  dos entrevistados planejam aumentar seus investimentos em ambientes híbridos ou multicloud, e 95% dizem que essas tecnologias são fundamentais para seu sucesso.

“Os resultados da pesquisa realizada com líderes empresariais, profissionais de TI e tomadores de decisão de TI em empresas de médio a grande porte dos EUA demonstram a oportunidade em 2022 da tecnologia em nuvem resolver necessidades complexas do mundo dos negócios”, comenta Hatsumura.

Ela conta que uma das áreas em que a nuvem está começando a mostrar resultados é no setor de finanças. “Recentemente, o banco mineiro Semear adotou o Microsoft Azure para suprir suas demandas e para dar suporte na migração dos dados dos clientes para a nuvem. O resultado foi que o processo de migração do sistema para a nuvem foi concluído com êxito, uma vez que conseguiram proteger as informações dos clientes e as do banco”, exemplifica.

Barreiro tem percepção parecida. “Nós trabalhamos aqui com praticamente todas as indústrias e elas estão migrando para a cloud massivamente. Isso vale para as pequenas (desde startups) quanto para médias e grandes. Mas um exemplo do tamanho de quebra de paradigma é o volume de empresas do setor financeiro que estamos levando para a nuvem”, diz o executivo da Nextios / Locaweb.

A AWS percebe maior abrangência. “A nuvem é a grande habilitadora da transformação digital e é para todos que precisam colocar a tecnologia no centro dos negócios para poder crescer. Vemos empresas de todos os portes e verticais adotando a tecnologia, desde startups a grandes corporações e órgãos governamentais”, fala Morais.

Arruda, da Sky.One, tem visão parecida. “O uso da nuvem pública tem sido importante alavancador de um novo modelo de negócio para diversos segmentos. Os setores de varejo, serviços, especificamente de logística, gestão de pessoas, contabilidade, e o agronegócio tiveram adoção acelerada nos últimos dois anos”.

“Neste ano, temos observado que as empresas vêm realizando movimentos motivados por maior agilidade de parcerias na cadeia de valor, monetização de dados, otimização logística, previsões de demanda, controle de fraude, entender melhor o comportamento do cliente, sempre através de melhoria da gestão sobre grandes volumes de dados”, complementa Marco Bravo.

“No Google Cloud, trabalhamos com um mapeamento de indústrias-foco, que envolve empresas de indústrias como saúde, varejo, bens de consumo, serviços financeiros, telecomunicações, mídia & entretenimento, games, manufatura, logística e governo. Muitas dessas já são foco da nossa operação e neste ano estamos agregando para a nossa operação na América Latina as indústrias de agronegócios, utilities, manufatura e logística”, completa.

Inserção do Brasil

As multinacionais de cloud sempre demonstraram interesse no Brasil, mas esse interesse vem crescendo. A AWS lembra que implementou sua Região São Paulo há 10 anos e que, desde então, tem investido e apostado continuamente no mercado brasileiro.

“Investir em uma infraestrutura gigantesca como essa é sempre um compromisso de longo prazo, pois estamos falando de milhares de racks e servidores, entre outros investimentos massivos. No Brasil, a nuvem foi essencial para a transformação digital das organizações que hoje têm acesso a serviços como computação, armazenamento, banco de dados, redes, analytics, aprendizado de máquina, Inteligência Artificial (IA), Internet das Coisas (IoT), realidade virtual, realidade aumentada, entre tantos outros”, diz Cleber Morais, Diretor Geral para Setor Corporativo da AWS no Brasil.

“A inovação é um dos pilares de atuação do Google Cloud em todo o mundo, impactando, inclusive, os clientes aqui do Brasil. Exemplo disso é o fato de que algumas empresas brasileiras foram early adopters de algumas soluções antes mesmo de serem lançadas ao mercado, como a Cloud Retail Search, que aprimora as buscas por produtos nos sites e apps das empresas; e Cloud Fleet Routing API, que ajuda os operadores logísticos a aprimorar seus serviços, otimizar a operação e melhorar a experiência do usuário”, comenta Marco Bravo, do Google Cloud, empresa que recentemente fez parcerias com Telefónica, Nokia e Ericsson.

“O mercado brasileiro é importantíssimo para a Microsoft”, afirma a diretora Mariana Hatsumura.

“Hoje, as empresas líderes dos principais setores do país estão usando os serviços de nuvem da Microsoft em suas jornadas de transformação digital, especialmente com a ajuda dos mais de 25 mil parceiros que fazem parte do nosso ecossistema no Brasil”, diz.

Ela conta que, com a nova região anunciada no Brasil, a operação global da Microsoft tem agora 65 regiões de nuvem, apoiando mais de 1 bilhão de clientes em mais de 90 países ao redor do mundo.

“Um caso recente de empresa que está se beneficiando do cenário de nuvem híbrida é a TIM Brasil. A operadora foi a primeira do país a anunciar a migração de 100% de seu datacenter, localizado em São Paulo e Rio de Janeiro, para um ambiente multicloud conosco e com a Oracle – uma colaboração que já acontece em outras partes do mundo”, exemplifica a executiva da Microsoft.

“Eu falo aqui da perspectiva de uma empresa brasileira e que atua majoritariamente com clientes brasileiros. É evidente que as multinacionais perceberam o tamanho da oportunidade do mercado brasileiro. Não à toa, temos diversas delas, consideradas Global System Integrators, que tem se transformado, e muito, para poder atender não somente o workload tradicional em datacenter mas também a jornada para a nuvem”, conclui Guilherme Barreiro.

Déficit de profissionais

Apesar de todo esse interesse, há falta de profissionais, diz a AWS. “O setor de TI tem um déficit estimado de 200 mil profissionais no Brasil e, até 2024, cerca de 420 mil novas vagas devem ser criadas, de acordo com a Brasscom. Em contrapartida, a previsão é de que aproximadamente 150 mil vagas não sejam preenchidas por falta de profissionais qualificados”, afirma Cleber Morais.

Segundo a o executivo, a empresa, desde 2017, já treinou mais de 300 mil brasileiros. “Temos um compromisso mundial de treinar 29 milhões de pessoas até 2025 para ajudá-las a desenvolver suas habilidades em nuvem por meio de cursos e treinamentos gratuitos. Nosso objetivo é ajudar a fechar o gap de mão de obra especializada.”

A Sky.One pede, inclusive, que o problema seja resolvido de forma regulatória. “A ausência de um marco regulatório para a contratação de mão de obra especializada por empresas de outros países tem sido o maior agressor ao atual gargalo de qualificação de profissionais”, afirma Roberto Arruda, CRO da Sky.One.

“O déficit de profissionais se dá em diversas funções dentro das organizações que passam a contar com empresas como a nossa para assegurar a sua continuidade. Mesmo fazendo parte da nossa cultura e do nosso planejamento estratégico, as pessoas são ainda o ativo mais vulnerável quando são expostos a salários em euro ou dólar comparado às regras trabalhistas brasileiras”, diz.

“A formação de mão de obra especializada em TI precisa ser um compromisso de todos – empresas, instituições, governos. Para apoiar a transformação e inovação digital, os governos precisam adotar políticas que priorizem a nuvem, como vimos em outros países”, afirma Morais.

“A pandemia certamente acelerou a transformação digital em muitos países e vimos mais inovação nos primeiros 12 meses a partir de março de 2020 do que nos últimos cinco anos. No entanto, é importante facilitar a maneira como os governos podem adquirir infraestrutura e serviços de computação em nuvem, assim como a capacitação dos profissionais”, finaliza.

 

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