Indústria e operadoras se dividem quanto ao futuro do offload de dados


A Anatel decidiu ontem, 25, que toda a faixa de 6 GHz poderá ser usada por equipamentos WiFi 6E. Dessa forma, a agência deixou claro que não pretende destinar esse espectro para a quinta geração de redes móveis, a 5G, tão cedo.

A decisão agradou a indústria de equipamentos e provedores regionais, mas desagradou as operadoras móveis. De um lado, fabricantes apostam no crescimento do offloading das redes móveis. As teles, no entanto, preveem um mundo em que o offloading será cada vez menos necessário.

Offload é o termo em inglês para denominar o desembarque de dados de um tipo de rede, – no caso, a móvel – para outra, – no caso, a fixa via WiFi. Por exemplo, quando a rede celular está congestionada, e o usuário passa a usar o sinal de WiFi disponível na área, ele esta recorrendo ao offloading.

Oposição

Giuseppe Marrara, diretor de relações governamentais da Cisco Brasil, afirmou hoje, 26, em live realizada pelo Tele.Síntese, que atualmente 50% do tráfego no Brasil é resultado de offloading. “No final do ano que vem, será 59%”, afirmou, citando estudos da própria Cisco. Ele diz que quando as redes 5G forem massificadas, o offloading chegará a 70%.

Mas a afirmação é polêmica. Luciana Camargos, diretora de espectro futuro da GSMA, entidade global que reúne operadoras móveis, diz que a tendência prevista pelas teles é inversa. Ou seja, com a 5G e sua alta capacidade, o offloading via redes WiFi será cada vez menos necessário.

Para ela, o grande problema da decisão de ontem da Anatel é que no médio prazo não existem frequências médias disponíveis que possam ser destinadas para a 5G. “Na medida em que essas tecnologias disputam o mesmo espectro futuro, percebe-se que não são tão complementares como se pensa. Vai faltar espectro em faixas médias no Brasil”, vaticinou.

Segundo ela, a Anatel não tem opções fáceis nem decisões simples pelo caminho. Terá de pensar, nos próximos anos, em leiloar ou a Banda C (3,8 a 4,2 GHz), ou a faixa de 4,5 GHz a 4,8 GHz, ou a de 4,9 GHz a 4,99 GHz. Todas ocupadas por diferentes atores, o que exigirá muita conversa.

Provedores e Anatel

Para Alex Jucius, diretor da Associação NEO, que reúne provedores de internet, a decisão da agência reguladora foi acertada. “Havia 20 anos que novo espectro não era alocado para o WiFi. E agora foi feita uma alocação que garante o uso da tecnologia pelos próximos 20 anos”, resumiu.

Ele ressaltou o esforço de expansão da banda larga fixa baseada em fibra no interior do Brasil e nas capitais. Lembrou que as empresas vendem planos de 1 Gbps, mas há um enorme gargalo no WiFi. “Não está sendo suficiente no interior, e nos grandes centros urbanos certamente há muita interferência, o que traz a necessidade por novas faixas”, lembrou.

Para Emmanoel Campelo, membro do Conselho Diretor da Anatel e relator do processo concluído ontem, a agência se viu entre tomar uma decisão para já, ou esperar anos para liberar o espectro para redes celulares de forma harmonizada com outros países.

Ele ressaltou que Estados Unidos já destinaram os 6 GHz para o WiFi, enquanto a União Internacional de Telecomunicações deverá tomar uma decisão sobre o uso da frequência em redes móveis apenas daqui a seis anos.

“A UIT deliberará provavelmente somente na WRC [Conferência Mundial de Radiofrequências] de 2027. Na prática, a decisão era entre usar agora ou esperar até lá para usar no serviço móvel”, resumiu.

Luciana Camargos ressaltou, porém, que isso não significa que os estudos já não estejam acontecendo. A UIT já avalia destinar, na Europa, parte do espectro de 6 GHz para redes móveis. “Entendo que a discussão ficou centrada entre o que existe e o que pode ocorrer no futuro. Mas o que sentimos falta é: como a Anatel vê o futuro da 5G? Toda a consideração dada ao WiFi não foi dada ao 5G”.

Prazos

Seja como for, a decisão está tomada e a indústria já prepara as linhas de produção. Domicílios com fibra não vão faltar – as conexões FTTH já representam quase metade dos 36 milhões de contratos de banda larga fixa existentes no país. Estes são os clientes de ultra banda larga que poderão traduzir o acesso fixo em mais velocidade móvel dentro de casa.

Marrara, da Cisco, prevê que a indústria vai introduzir pontos de acesso WiFi 6E rapidamente no mercado. Segundo ele, a fabricação não é diferente dos atuais produtos WiFi 6 que usam as faixas de 2,4 GHz e de 5 GHz. Precisarão apenas integrar o chipset compatível com a nova frequência ao projeto – o que, diz, não é demorado.

“Tão logo a homologação dos equipamentos seja feita pela Anatel, o aparelho será fabricado no Brasil”, afirmou. Sua expectativa é que o produto chegue às prateleiras até o final do ano. Ele disse ainda que os preções dos equipamentos WiFi 6E devem ser de 10% a 15% mais caros. “Mas há muitos fabricantes, um mercado com mais de 30 deles, então a tendência é de que o preço se iguale ao praticado com os equipamentos WiFi atuais no médio prazo”, avaliou.

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