Hirata: Qual será o seu papel na revolução do 5G no Brasil?


Hugo Hirata - Open Labs
Por Hugo Hirata**

O 5G está chegando e cada dia que passa, muitos serão os desafios para sua implementação, mas a promessa é de uma revolução, tanto na experiência de utilização da internet móvel, como a criação da “Avenida 5G”, uma avenida que se abre com novas oportunidades de desenvolvimento de aplicações para novos negócios, em diversas verticais.

Segundo a Anatel, entre 2020 e 2021, a internet banda larga conquistou mais de 5 milhões de novos assinantes no Brasil, representando um crescimento de 14% no período. Sendo apenas a telefonia móvel responsável por um crescimento de 8,2%. Em dezembro de 2021, o Brasil já contava com cerca de 253 milhões de assinantes de internet móvel, sendo 77,8% desses atendidos através da tecnologia 4G.

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Apesar disso, a pandemia iniciada em março 2020, colocou em evidência o tema da exclusão digital, que colocou algumas camadas da população à margem da sociedade, afetando principalmente o direito à educação, potencializando ainda mais desigualdade no país. Um estudo realizado pela consultoria PWC, divulgada em março de 2022, identificou que quase 34 milhões de pessoas estão desconectadas, ou seja, nunca acessam a internet, e outras 86,6 milhões não conseguem se conectar todos os dias.

Há uma expectativa da revolução 5G no Brasil diminuir essa demanda reprimida, para a qual já existem propostas que podemos conferir no decorrer do artigo.

O que é o 5G?

Neste contexto, muito se fala sobre a chegada do 5G no Brasil, a mais nova geração da tecnologia que provê o serviço de internet móvel usada diariamente por milhões de brasileiros e brasileiras, prometendo além da melhoria significativa na experiência de navegação, a democratização do acesso aos dados móveis no país, entregando conectividade para essa parcela da população excluída digitalmente.

Quais são seus benefícios para os usuários?

Desde o início dos anos 90, as tecnologias de conectividade móvel vêm transformando o dia a dia das pessoas, desde os primeiros serviços de dados que permitiam apenas pesquisas de previsão do tempo no 2G, até a massificação do acesso à internet móvel, popularização de novas redes sociais (ex. Facebook, Instagram, Tiktok), aplicativos OTTs de streaming de vídeos on demand (ex. Youtube, Netflix, Oi Play) e aplicativos de comunicação por voz e vídeo (ex. Whatsapp, Telegram) proporcionadas e difundidas pelas tecnologias 3G e 4G.

O 5G chega prometendo melhorias significativas em termos de experiência de uso do serviço de dados, até 100x mais rápida e tempo de espera (latência) cerca de 20x menor, além de muito mais estabilidade na conexão.

Para além disso tudo, o usuário irá se beneficiar com uma maior cobertura que estará também como um dos pontos a serem considerados para esta evolução tecnológica. A implementação do 5G, realizará um upgrade à rede existente e aumentará ainda mais a cobertura nacional.

Quais são as oportunidades para novos negócios?

Um estudo da Deloitte entregue ao Ministério da Economia em abril de 2022, indicou que até 2031, o ecossistema de soluções digitais e aplicações do 5G no Brasil tem a expectativa de gerar uma demanda potencial de software na casa dos R$ 101 bilhões, sendo cerca de 10% desse valor, estimados para a tecnologia de redes de acesso desagregadas, o Open Ran.

A “Avenida 5G”, como estão sendo chamadas essas oportunidades pelos especialistas, ainda indica um benefício potencial total de R$590 bilhões se forem contabilizados os ganhos de produtividade e redução de custos potencializados pelo 5G.

A União Internacional de Telecomunicações (UIT) estima que haverá nos próximos 10 anos um crescimento de tráfego de dados entre 10 e 100 vezes, principalmente pelo fato do 5G passar a permitir conectividade não apenas entre pessoas, mas principalmente entre objetos(dispositivos), a chamada internet das coisas (IoT, Internet of Things). Muito se especula sobre novas oportunidades em soluções, aplicativos, serviços e modelos de negócio que serão criados e/ou expandidos com essa transformação apoiada pelo 5G. Dentre elas estão:

  • Financeiro: Digitalização dos serviços bancários
  • Carteiras Digitais: Digitalização do dinheiro do dia a dia
  • Educação: Plataformas de ensino à distância
  • Agronegócio: Automação, monitoramento dos rebanhos e da lavoura
  • Indústria 4.0: Automação industrial com ecossistema 5G, Edge Computing e Digital Twins
  • Mobilidade: Veículos autônomos
  • Telemedicina: atendimentos, cirurgias e exames à distância
  • RA e RV: Realidade virtual aplicada à shows, eventos e lojas
  • Teletrabalho: migração da população das capitais para o interior do país

Entre muitas outras oportunidades de negócios, todas as possibilidades descritas acima, necessitam de características de rede específicas (5G network slicing) para atender às suas necessidades, por exemplo, serviços que envolvam comunicação por vídeo, necessitam de estabilidade da conexão e largura de banda, já os que permitam transferência de arquivos, seja um filme ou série, exigem altas velocidades, assim como se tratando da operação de uma máquina remota, é necessária uma rede que permita um tempo de resposta baixo, ou seja, baixa latência.

Dessa forma, as redes privadas, suportadas pelo 5G, chegam para prover capacidades específicas de conectividade para que permitam serviços otimizados e personalizados em um meio de comunicação seguro, seja ele uma loja, uma fábrica, área de mineração ou uma fazenda, e que cumpra requisitos de cobertura, qualidade, confiabilidade e privacidade necessários para cada necessidade de negócio. Desta forma, 5G oferece sempre o que é realmente necessário para o serviço prestado.

Três desafios para implementação do 5G no Brasil

1.Leilão 5G

Apesar das grandes expectativas sobre a implementação do 5G no Brasil, diversos são os desafios. O primeiro deles, foi leilão das faixas de frequência para o 5G, que ocorreu em novembro de 2021 movimentando cerca de R$ 46 bilhões por 10 operadoras. Essas, arremataram as frequências com a expectativa de até julho de 2022, entregar ao menos 1 antena 5G (estação rádio base) para cada 15 mil habitantes em cada uma das capitais brasileiras, incluindo o Distrito Federal, ou seja, com cobertura ainda bastante restrita. E a expansão para cidades não-capitais prevista apenas para 2025.

Além dessa obrigação, o leilão também definiu alguns compromissos das operadoras para investimento na ampliação da conectividade no território brasileiro, sendo as mais importantes, a de levar internet móvel para as estradas federais (aproximadamente 31.000 Km) e para municípios brasileiros com pelos menos 600 habitantes (cerca de 6 milhões de brasileiros atendidos), além da construção de uma rede privada para o governo federal em Brasília.

2.Transformação das telcos

A migração da tecnologia 3G para o 4G, por volta de 2013, teve grande investimento das operadoras de telecom e promoveu a massificação efetiva da internet móvel do Brasil, permitindo o surgimento e expansão de novos aplicativos e serviços. Nesse cenário, segundo dados da teleco, as grandes Telcos apresentaram um crescimento de valor de mercado de cerca de 62% nos últimos 7 anos, em contrapartida o Instagram, comprado pelo Facebook em 2012, foi avaliada 6 anos depois, com valor de mercado 100x maior (crescimento próximo dos 10.000%). Isso exemplifica o desequilíbrio em termos de valorização dessas empresas suportados por essa evolução tecnológica.

Para o 5G, as operadoras de telecomunicações estão atentas para que esse desequilíbrio não se repita. Um indicador disso é o movimento de transformação dessas operadoras, se organizando de uma forma diferente, dividindo-se em segmentos de negócio distintos:

  • Infraestrutura de redes neutras, provendo serviço de conectividade, tanto para redes fixas ou móveis e que atendam a multioperadoras de telecomunicação de forma não discriminatória
  • Serviços de telefonia e dados no mercado de comunicação, focando na melhor experiência de uso de seus usuários finais

E dessa forma, separando as responsabilidades, para que cada uma possa focar em seus objetivos de forma mais efetiva. As grandes operadoras do país já estão adotando esse modelo: Oi & V.tal, Vivo & FiBrasil e Tim & I-Systems.

3.Parcerias

Outra evidência bastante clara da transformação do mercado são as alianças das operadoras de telecomunicações com empresas(startups) de outros setores, como bancária, educação e saúde. As parcerias, que no passado, eram pontuais e rasas, agora se mostram muito profundas e duradouras, em que as operadoras entram com seus principais ativos, como a sua base de clientes e sua grande capilaridade comercial, e as parceiras, com a tecnologia e o conhecimento de negócio do seu setor de competência, fechando um ciclo “ganha-ganha”, em que as operadoras compartilham seus ativos em troca de uma participação societária de suas parceiras.

Temos um longo caminho até que o 5G esteja disponível para toda população brasileira e que todas as suas potencialidades sejam atingidas. Para isso é essencial que se crie um ecossistema favorável à inovação e criação de valor em cima do 5G, em que tenhamos:

  • Iniciativa privada, como as operadoras de telecom, empresas de TI e startups, buscando e investindo constantemente em novas soluções, nas mais diversas verticais, que tragam diferencial no dia a dia das pessoas
  • Setor público, governo federal, prefeituras e órgãos reguladores, atuando no objetivo de destravar barreiras burocráticas na implementação da infraestrutura
  • Juntamente com os órgãos de educação, escolas, universidades e institutos de pesquisa, estimulando o ingresso e a manutenção da mão de obra qualificada no mercado de trabalho brasileiro e que possam promover o intercâmbio de conhecimento do exterior para agilizar o processo de inovação no Brasil

Serão muitas etapas neste longo caminho, assim como muitos também serão os benefícios que se espera do 5G. Na minha opinião, o mais importante deles será a oportunidade de digitalização do Brasil de uma forma ampla e equalitária, provendo conectividade para a população brasileira e concedendo melhores oportunidades aos menos favorecidos. No meu ver, é essa digitalização inclusiva e ampliada é que será o combustível do ecossistema 5G e que vai potencializar a geração das novas oportunidades de soluções e serviços que melhorem a vida das pessoas e que levem o país a um próximo passo na sua evolução social e econômica.

*Hugo Hirata é Especialista em TI e Pré-vendas na Open Labs

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