Felix: “A NET entrega a banda larga que vende”.


O presidente da NET, José Antonio Felix, resolve quebrar mitos. Nesta entrevista, garante que a sua empresa entrega a banda larga contratada, e que a oferta de só 10% “é coisa de advogado”. Reclama muito da campanha contínua contra o setor de telecom, e lembra que está investindo mais de R$ 3,5 bilhões este ano.

 

Comemora mais um ano de crescimento de mais de 20% das receitas. E acha que o excesso de regulação e intervencionismo aumenta o custo não só dos serviços, mas do Brasil. “E alguém paga a conta: ou as pessoas, ou o país, ou se investe menos para cumprir as obrigações”, completa.

 

Felix continua a acompanhar o movimento dos OTTs (empresas que oferecem os serviços de vídeo pela internet, como a NetFlix, por exemplo) mas acha que os fabricantes de aparelhos de TV, com suas TVs conectadas – também são uma ameaça. Assim como todos do setor, tem muitas dúvidas sobre este cenário, mas assegura que a NET está se preparando para sair na frente. A seguir a íntegra da entrevista:

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Tele.Síntese – O mercado de TV paga continua com bom desempenho, mas tem crescido bem menos. Como você avalia o ano?
José Antonio Felix– Acho que,na verdade,quem estava gerando o crescimento incrível era o DTH. A NET não apresenta esta explosão, mas mantém um crescimento constante ano após ano. Cresce 13% ao ano em Pay TV. Em receita, tem crescido estúpidos 23% a 24%.

 

Tele.Síntese– Há quanto tempo registra este desempenho?
Felix – Acho que desde 2008 registramos crescimento constante de forma muito sólida.  Mas há justificativas para isto: oferecemos, além da TV, a telefonia e banda larga. Em TV, a gente cresce entre 13% a 14%.

 

Tele.Síntese – Qual sua avaliação sobre as outras tecnologias?
Felix – Quem trouxe o crescimento do mercado de mais de 20% foi o DTH, na hora em que resolveu atender cidades menores. Antes,a Sky trabalhava mais ou menos no mesmo mercado onde a NET atuava. Esta é minha impressão, pois também não conheço os números da Sky. Com o ingresso das demais competidoras, considerei natural a entrada em municípios onde não havia nada. Mas achava esse crescimento de mais de 20% meio exagerado. A minha impressão é que vendiam desordenadamente. E resolveram fazer uma correção, um ajuste. A Sky teve um write off grande.

 

Tele.Síntese –  Qual a base de vocês hoje?
Felix– Nos últimos anos, estamos cabeando cerca de 2 milhões de residências por ano. Em 2013, vamos chegar próximo a isso, e em 2012 também chegamos a isto. Há cerca de três anos, grande parte de nosso investimento é direcionada para ampliar a cobertura.

 

Tele.Síntese – A NET comemorou este mês seis milhões de clientes.
Felix– Este é o número de clientes de TV paga, mas de casas conectadas (com outros serviços) temos 7,5 milhões.

 

Tele.Síntese– Em quantas novas cidades a NET vai chegar até o final do ano?
Felix– O nosso planejamento inicial era chegar em pelo menos mais 170 novas cidades, mas não vamos conseguir.

 

Tele.Síntese – Por quê?
Felix – Não conseguimos autorização dos postes

 

Tele.Síntese – Estes problemas do setor continuam existindo?
Felix – Sim, nada mudou. Parece que a situação vai melhorar com o regulamento que vai definir um preço–teto para o poste. O pessoal fala que vai ajudar. Mas, na prática,quando o regulamento sair,já teremos cabeado quase tudo. A gente chega a trocar de cidade, pois as dificuldades são tantas que a gente desiste em muitas delas.

 

Tele.Síntese– A NET está muito agressiva com o REPNBL (programa de incentivos fiscais para a construção de redes). Está com mais de 20 redes aprovadas. O que extamente vocês estão fazendo?
Felix Nós estamos investindo este ano a “bagatela” de R$ 3,5 bilhões, ou melhor, R$ 3,7 bilhões. Investimos bastante no ano passado, com esse montante, obviamente, temos projetos que se enquadram muito bem na política do governo.

 

Tele.Síntese – E vocês estão com alguma dificuldade de comprar tecnologia nacional, conforme estabelece o governo?
Felix – Não estamos com dificuldades na maioria dos casos. Há uma dificuldade com os amplificadores de rede, e temos que comprar muito em dólar, e com esta disparada, é um problema grande.

 

Tele.Síntese – Um dos problemas que o governo está diagnosticando é a baixa velocidade da banda larga. No PNBL, a oferta é ainda de 1 Mbps.
Felix –  Só se for na banda larga móvel. Na fixa, não tem problema nenhum. Não estou me referindo às cidades onde a NET não está. Até acredito que nestas cidades, a oferta não deva ser boa. A banda larga deve ser baixa mesmo, mas nas cidades onde a gente está,a velocidade é alta.  

 

Tele.Síntese – Mas se a gente pensar no país, a NET está em algumas centenas de cidades e o Brasil tem quase seis mil municípios
Felix – Mas se pensarmos em número de domicílios, já atingimos 30 milhões de pessoas dentro das residências. 15% da população.A NET está presente em 30 milhões de casas. E, se o Brasil tem 50 milhões de residências na zona urbana, estamos em 50% das casas. Estamos na porta de 100 milhões de brasileiros. É muita gente! A velocidade da banda larga onde a NET está, é muito alta. Nós oferecemos 30, 60 e 120 Mbps. Isto é compatível com qualquer país do primeiro mundo.

Tele. Síntese – Sim, mas a  avaliação do governo é de que a oferta ainda é baixa e há ainda muita pressão dos Procons
Felix – Recebo diariamente cartas e emails de clientes perguntando porque a gente só garante 10% da velocidade contratada. Não sei, em algum momento surgiu estes 10%, por que não conhecíamos a internet.Onde se mede a velocidade? Na casa da pessoa? No servidor, no head end? E quanto tráfego vai lá para China? Como me responsabilizo por isto? Surgiu então a ideia de advogado, que falou: “bota aí entrega de 10%, que deve dar”.

 

Tele.Síntese- Mas se a NET tem uma rede fixa, não tem problema de frequência, porque limitar o tamanho do tubo a ser entregue?
Felix –Antes, não havia nada e os advogados disseram aos engenheiros o que fazer. A partir do momento em que se estabeleceu as regras, não há mais problemas. Qualquer um pode medir: nós entregamos a velocidade contratada. Não tem este negócio de pagar 100 e receber 10.Nós vendemos 100 e entregamos 100. Para medir isto,gastamos um monte de dinheiro, porque quem paga no final é o consumidor, é o custo Brasil. Nós pagamos a caixinha para medir, pagamos a consultoria. A  cada cinco minutos aqui no Brasil, surge uma imbeciilidade desta. O melhor seria deixar o consumidor escolher.

 

Tele.Síntese – Estas regulações atrapalharam a entrega do serviço?
Felix – Não atrapalha em nada, mas cria uma animosidade contra o setor de telecomunicações. Acho uma vergonha. Parece que decidem assim: “vamos bater nos caras!”.E devem pensar: “não sei porque estamos batendo, mas eles sabem porque estão apanhando” (risos). Em qualquer cidade brasileira tem uma CPI das operadoras.  É impressionate como o setor apanha. E aí vem a multa. E qual é o critério da multa? Sei lá.

 

Tele.Síntese – Você acha que a Anatel está exagerando em sua intervenção regulatória?
Felix – Não tenho dúvida. E não é só a Anatel. O Brasil está assim. Anvisa, Aneel. Não sei como país ainda anda. Um intervencionismo muito grande do governo. E o pior, isto custa dinheiro. Pagamos estas estruturas intrervencionistas para fazerem o que não é preciso. O Brasil é carente em infra, saúde,educação.

Tele.Síntese – E as suas projeções para 2014?
Felix – Projeto o mesmo crescimento deste ano. O setor vai crescer 13%. As vendas continuam. Não vai ser 30% ou 20%, porque estava exagerado. O estranho é não crescer.

Tele.Síntese –  Um ano de regulamentação lei do SeAC. Qual a sua avaliação?
Felix – Para a gente é um sucesso. Acho que está bem.

 

Tele.Síntese – Havia uma preocupação de que os programas nacionais poderiam encarecer o serviço.
Felix – Não fico medindo se encareceu ou não. Media antes da aprovação da lei. Agora, não ganho nada em dizer que encareceu. Tenho que trabalhar. Lei é lei. É preciso fazer esta pergunta para quem vive de conteúdo. É também um segmento muito competitivo no Brasil. Não é fácil produzir conteúdo, especialmente quando existe um dominante, como acontece no país. O percentual de conteúdo da NET é muito alto, comparado com qualquer país do mundo. E este é um dos motivos pelos quais a margem das operadoras brasileiras é baixa. É um setor de muito investimento, é preciso ter uma margem alta, se não não fecha a conta. Se vamos investir R$ 3,5 bi é preciso ter este mínimo por ano, para a conta dar zero. Um dos motivos da margem ser menor do que em outros países é o custo do conteúdo, que é mais alto. Mas o custo dos impostos também é o mais altos, assim como o custo para fazer a máquina girar, etc.

 

Tele.Síntese- A Anatel mandou recentemente reordenar os canais abertos. Colocar os canais em linha é uma questão fácil de resolver?
Felix – Não é não. Nós estamos mudando o line up, para ficar mais cômodo para os assinantes encontrarem os canais. E um dia vem a lei brasileira e  manda botar mais canal, e depois vem um canal bacana, a acabamos com os canais todos desorganizados. A mudança é super complicada, pois afeta o assinante. E quando muda, a casa cai. Fizemos testes. Tendo em vista a excelente receptividade, estamos levando as mudanças para as cidades maiores, mas com muito medo. Pois qualquer coisa que a gente faz, estoura no call Center. É para lá que converge tudo. Lá  é o reflexo tudo que a gente faz, de bom e de ruim.

 

Tele.Síntese– A NET recorreu na Anatel contra seu enquadramento como PMS (empresa com poder de mercado) em algumas cidades, mas foi negado o argumento. Quais são as implicações desta decisão?
Felix Mais custo. Tudo o que é obrigação, implica mais custo. Tudo é “factível”. A diferença é que se tem jeitos e jeitos de se fazer a mesma coisa. Alguém paga: ou o país  ou as pessoas, ou se investe menos para cumprir a obrigação.

 

Tele.Síntese – Os serviços OTTs ainda não preocupam vocês?
Felix – Não tem como não preocupar. Por que existe uma incógnita no mundo. Vemos os movimentos muito de perto. E temos dúvidas em muita coisa. Ninguém tem certeza de nada. A NET já fez alguns movimentos visando se blindar em relação ao OTT. Um deles foi o lançamento do Now, pois é um OTT melhorado. Tem alta qualidade de vídeo e comodidade que OTT não traz.

 

Tele.Síntese – Ninguém quer assistir os filmes nos tablets?
Felix– Sim, querem. Mas é uma parcela infinitamente menor do que a que existe na TV. As pessoas não entenderem a parceria da NET com a Globosat, com  Muu, por exemplo. Nossos produtos também estão no tablet. Só que é necessário ser assinante para entrar.

 

Tele.Síntese – E os consoles de jogos?
Felix – Já estamos. Uma das dúvidas é esta. A grande discussão é: qual será a porta de entrada para este novo mundo que vai vir? Seremos nós? Ou os fabricantes como Samsung ou LG? Estamos nos preparando para sermos nós.

 

Tele.Síntese- Os fabricantes de TV são as maiores ameaças?
Felix – Não as maiores, mas são também ameças. Quando ligamos o TV deles, aparecem vários ícones, mas acho que não é democrático. Algumas coisas ficam escondidas.Todo mundo está se organizando tecnologicamente para isto. Não é muito fácil. É complexo. É por isto que a movimentação é lenta. O grau de complexidade tecnológica é muito alto. As coisas não existem. Não há uma solução pronta.

 

Tele.Síntese – E quem entra primeiro neste jogo?
Felix Nós. O Claro Vídeo, o Now são algumas dessas iniciativas.

 

Tele.Síntese – Mas parece que os números são muito baixos, de todos.
Felix – O Netflix também não divulga a sua base no Brasil. Aliás, ninguém sabe qual é a base dos números quando eles se referem à internet. Se é a base de pagantes, se é daquele que entrou uma vez e nunca mais voltou. Ninguém sabe nada.

 

Tele.Síntese – Você acha que no futuro os operadores de cabo mundam a sua vocação?
Felix– A vocação dos operadores de cabo não é a TV, mas a inovação.

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