Disputa geopolítica com a China pode rachar a indústria de telecom, alerta a Ericsson


A indústria de telecomunicações enfrenta uma ameaça sem precedentes que pode rachá-la e resultar no fim de padrões compartilhados em todo mundo para a criação de redes móveis. O alerta é da Ericsson, fabricante sueca de equipamentos para infraestrutura. Tal ameaça é resultante da guerra comercial que vem acontecendo entre Estados Unidos e China, na qual cada vez mais países entram por pressão de um dos lados. É o caso da Suécia, cujo regulador de telecom decidiu proibir, no final de 2020, que fornecedores chineses vendam para operadoras locais.

“A situação geopolítica pode ter consequências em toda a indústria, levar a um racha industrial, a uma separação de cadeias de valor globais e à separação de padrões de telecomunicações móveis”, avisa o conselho da companhia na página de riscos aos quais a empresa está sujeita em seu balanço financeiro de 2020, publicado hoje, 29.

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Especificamente sobre a decisão do regulador sueco, a Ericsson alerta que a China instituiu restrições em 1º de dezembro a empresas estrangeiras que sejam consideradas ameaças aos seus interesses. A empresa não está na lista. Mas a decisão do regulador traz o risco de inclusão, avalia o board.

Neste caso, o impacto para os negócio seria ruim não apenas por não poder vender para o enorme mercado chinês – no qual cresceu em 2020. Mas também devido à possibilidade de empresas de tecnologia acessarem importantes cadeias de valor que se originam ou dependem do gigante asiático.

Negócio arriscado

Börje Eckholm, CEO da Ericsson, também manifestou em sua carta aos acionistas preocupação com a entrada da Suécia nesta nova “guerra fria” entre EUA e China. Vale lembrar que a empresa está saindo de um longo processo de turnaround, e a última coisa que seu comando deseja é ver sua estratégia comercial afetada por questões geopolíticas.

“Nosso negócio em 180 país atualmente foi erigido sob as bases do comércio livre e aberto e em mercados competitivos. Isso também garantiu o desenvolvimento de um padrão único, global, para as telecomunicações móveis mundiais. É fundamental que respostas à situação geopolítica sejam acompanhadas de salvaguardas ao extraordinário valor associado aos padrões da 5G e além”, diz Eckholm.

Os resultados da companhia no ano que passou justificam a preocupação. A China é o segundo principal consumidor de equipamentos da Ericsson. O país compra 8% de tudo o que a empresa produz. Só perde para os Estados Unidos, para onde vão 33% das vendas.

Resultados 2020

A companhia reportou hoje seus resultados de 2020. No ano que passou, a Ericsson ampliou em 2% as receitas, para 232,4 bilhões de coroas suecas (o que equivale a US$ 27,85 bilhões). O lucro operacional saltou 163%, para o equivalente a US$ 3,33 bilhões. E o lucro líquido multiplicou-se por 10x, chegando a US$ 2,11 bilhões.

A venda de equipamentos de rede cresceu 7% em 2020. Este é o principal negócio da empresa. Esta evolução compensou a retração nos segmento de serviços digitais (-6%), serviços gerenciados (-12%) e novos negócios (-4%).

Os resultados seriam melhores, lembrou a empresa no balanço, não fosse a pandemia de Covid-19, que levou operadoras a frearem investimentos, e à desvalorização cambial de diversos mercados, como o latino americano.

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