Crise impulsiona separação entre infraestrutura e serviço


Para analistas financeiros, vai haver mais fusões de ISPs neste ano, a compra da Oi Móvel por Telefônica e TIM poderá sair bem diferente do que o esperado, e no futuro próximo pode surgir no Brasil uma empresa de telecom dona apenas de espectro.

A crise econômica derivada da pandemia de Covid-19 fortalece a perspectiva de que as telecomunicações vão sofrer grandes transformações no médio prazo. Analistas financeiros participaram de evento digital nesta segunda-feira, 15, no qual afirmaram que já em dois anos o cenário brasileiro tende a ser bem diferente do atual.

Conforme Válder Nogueira, do Banco Santander, a crise deixou clara a necessidade de otimizar custos. Uma vez que lojas foram fechadas na quarentena, as operadoras tiveram de melhorar as margens. Começaram, então, a acelerar alternativas para ampliar o retorno sobre o investimento. “Esse momento está trazendo discussões como a separação entre a infraestrutura e o serviço”, ressaltou. Ele participou de live realizada pelo site Teletime.

PUBLICIDADE

Vale lembrar que na Itália, a TIM uniu seu braço de infraestrutura com a Vodafone, em uma joint venture. Aqui no Brasil, a Telefônica vendeu suas torres para a Telxius, unidade do grupo espanhol também focado apenas em infraestrutura. Já a Oi adotou como plano estratégico ser cada vez mais uma empresa fornecedora de capacidade no atacado para as demais, além de si própria.

Nogueira afirmou que a consolidação do mercado de telecomunicações foi catalisado pela crise. A união de ISPs e operadoras competitivas, que já vinha acontecendo, prosseguiu neste ano. E deve tomar novos contornos à medida que empresas regionais com dificuldades por conta da crise sejam compradas.

“A crise é um catalisador a mais, principalmente se a empresa não aproveitava todas as oportunidades que deveria. É a hora de se ter um modelo de negócio bem desenhado, ou o ISP vai ser engolido por quem estiver mais estruturado”, reiterou. E lembrou que as grandes e médias operadoras têm crescido também com o modelo de franqueados. “A gente vê o modelo de franquia mantendo provedores que não conseguiram se manter de pé sozinhos”, disse.

Fusão de ISPs

Para a analista do Banco Itaú BBA, Suzana Salaru, os ISPs vão terminar nas mãos das grandes. “A capacidade de investimento dessas operadoras locais não vai conseguir fazer frente à das operadoras de maior porte. No final do dia, o que vai fazer a diferença vai ser a capacidade de manter e investir na rede”, disse, projetando um cenário futuro.

Carlos Sequeira, do BTG Pactual, pensa de modo semelhante. Segundo ele, os ISPs têm tido fôlego graças à adoção do modelo de infraestrutura como serviço adotado por fabricantes, o que tem facilitado a expansão das redes, permitindo que os investimentos sejam amortizados ao longo do tempo por quem tem mais dificuldade de acesso a crédito.

“Se a gente olhar a base de clientes das pequenas, desses pouco mais de 10 milhões de assinantes, quase dois terços usam velocidades baixas. À medida que os consumidores queiram mais, os ISPs terão de fazer upgrade da rede, e aí vão enfrentar as grandes”, disse. Conforme dados da Anatel para abril, dos 10,8 milhões de acessos hoje nas mãos dos pequenos, 4,2 milhões têm mais de 34 Mbps. Quase 4 milhões têm no máximo 12 Mbps.

Venda da Oi Móvel

Para os analistas, a consolidação que se avizinha também dos grandes grupos, com a provável venda da unidade de telefonia celular da Oi para Telefônica e TIM, trará mudanças enormes ao mercado local.

“As operadoras vão se concentrar no que sabem fazer melhor. No caso da Oi, em explorar a rede de fibra óptica. No caso das demais, no segmento móvel. A consolidação vai mudar a cara do setor no Brasil, garantindo um segmento móvel mais sedimentado e a Oi como provedora de capacidade, de infraestrutura, com foco absoluto nisso”, afirmou Sequeira, do BTG.

Nogueira, do Santander, reconheceu este cenário, mas foi mais cauteloso. Lembrou que a venda da Oi Móvel será alvo de profunda análise dos reguladores. “Não acho que só vão analisar os limites de espectro. Acredito que no fim o formato da fusão que vai ser autorizada será diferente do que está posto na mesa hoje”, defendeu. Lembrou que Anatel, Cade, TCU são órgãos que vão se pronunciar a respeito.

Segundo ele, o mercado terá expansão de empresas de nicho, focadas em MVNO, IoT. E incremento do papel dos fundos de investimentos. Nogueira prevê o surgimento de empresa especializada em espectro, que terá apenas este ativo e fará sua gestão entre operadoras móveis.

Marcos Aguiar, do BCG, acrescenta à transformação do mercado ganhos de eficiência com a digitalização, acelerada durante a pandemia. “A telcos têm de promover uma digitalização internamente, e isso virá acompanhado de  mudança de modelo organizacional”, disse. E explicou que a digitalização tende a melhorar o retorno sobre capital investido, que esteve em 4% “nos últimos anos”.

Governo ágil

Por fim, os analistas lembraram que cabe ao governo ajudar para que o setor de telecomunicações, cuja importância ficou evidente nesta pandemia, sofra menos impacto da crise.

Para a analista do Itaú BBA, Suzana Salaru, o governo precisa fazer mais do que apenas adiar o pagamento de Fust e Fistel para agosto. O adiamento do leilão 5G para 2021 é um item possível. “Quanto mais tempo tivermos para superar a crise, melhor para as empresas do setor. Como fazer o leilão se não sabemos se haverá quatro ou três operadoras daqui a dois anos?”, questionou.

Marcos Aguiar, do BCG, disse que trabalha com previsões de “volta ao normal” em 12 a 24 meses. Neste cenário, é fundamental que haja revisão do marco tributário. Por suas contas, as teles pagam hoje 74% da receita em impostos. O valor abrange a média de 40% de ICMS recolhido aos estados, além das taxas das Cides, como FUST, Fistel, Ancine.

“É urgente a regulamentação do PLC 79. Acho que a gente pode sair dessa crise com um net positive [resultado líquido positivo] para o setor. Vai depender de atuação mais ágil e proativa do governo, especialmente com esse novo ministério”, acrescentou. Na semana passa o presidente Jair Bolsonaro recriou a pasta das Comunicações, que será comandada pelo deputado Fábio Faria.

Salaru lembra que o governo terá de resolver a questão da renovação de outorgas que começam a vencer neste ano. Marcos Pontes, ministro que até semana passada cuidada da área de telecom, disse na sexta-feira que a minuta do decreto que permitirá a renovação está pronta, bastando Fábio Faria assiná-la.

Anterior Brasil será primeiro no pagamentos via WhatsApp
Próximos Oi Soluções lança serviço de vendas de mídia digital