Convergência é independência


O gigante adormecido chamado Brasil parece estar despertando, ainda que de forma sonolenta, para a complexa tarefa de escolher como deverá se dar sua inserção econômica, política e cultural na sociedade da informação. E o despertador que sacudiu nossa sociedade para essa agenda atende pelo nome de TV Digital. As definições que estão em curso, e o debate travado no país desde o final dos anos 90, nos dão a convicção de que estamos diante de uma janela de oportunidade histórica cujo caráter estratégico só tem paralelo na luta dos brasileiros pela manutenção dos centros de decisão da produção de aço, do petróleo e da química fina no século passado.

Na visão do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), organização social que congrega 124 entidades da sociedade civil, as opções que fizermos como Nação, neste momento, podem estabelecer uma nova plataforma industrial, assentada na microeletrônica e na convergência dos setores de telecomunicações, radiodifusão e informática, bem como assegurar a inserção autônoma da cultura, da economia e da ciência do país no cenário internacional. Ou, de outro lado, condenar as próximas gerações de brasileiros à dependência nessas áreas.

O título deste artigo é o mote de uma campanha do FNDC a partir da qual queremos mostrar à sociedade como a convergência dos sistemas e mercados de comunicação em torno da digitalização vai além da atualização e integração de plataformas tecnológicas e atinge o cotidiano de cada brasileiro, a realidade da nossa balança comercial, o grau de competitividade de nossa indústria, o índice de nacionalização de nossa cultura e o nível de soberania de nosso país.

Pré-requisitos para definição

PUBLICIDADE

Ainda em 2001, quando o governo anterior também tentava impor à sociedade uma sensação de urgência em relação a esta definição – fazendo coro a uma simples substituição da tecnologia analógica pelo padrão digital preferido pelos radiodifusores –, o Fórum alertava que a opção, por uma determinada plataforma tecnológica, seria decorrência do modelo formulado para os negócios e serviços da área das comunicações como um todo e não o contrário. Entendíamos que os padrões técnicos destas plataformas não eram totalmente incompatíveis entre si e poderiam ser adotados com composições distintas das originais (isso foi sobejamente demonstrado pelo trabalho dos 20 consórcios de universidades e institutos de pesquisas contratados para buscar soluções inovadoras para os sistemas). Também defendíamos que qualquer atualização tecnológica precisava garantir o aumento do número instituições atuantes nos sistemas de comunicação, ampliar a incidência do público sobre os sistemas privados e estatais de comunicação; e criar meios para que a incidência democrática do público sobre a mídia contribuísse para orientar o papel desta na construção da cultura nacional, como base da afirmação da soberania nacional.

Naquele momento, éramos voz solitária nesse discurso. Veio um novo governo e testemunhamos a instituição do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), que contemplou algumas de nossas preocupações. Antes dele, porém, chegava também a inexorável constatação de que os sistemas de comunicação social – e suas redes e aparatos tecnológicos, desenvolvidos fundamentalmente para o transporte e a distribuição de conteúdo –, aliados aos avanços no campo dos semicondutores e da computação, alargariam o conceito de civilização e, com ele, o de cidadania. Se, hoje em dia, o brasileiro incluído socialmente vive em um núcleo habitacional urbano, provido de serviços públicos e de segurança, a digitalização estabelece um patamar de exigência que vai além disso. Cria o conceito de “cidadão digital” para descrever o indivíduo socialmente incluído.
Ao mesmo tempo, a convergência nos dá a oportunidade de construir “nações digitais”, aquelas que mantêm sob seu controle:

  • a constante exigência por inovação científica em relação à pesquisa e ao desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação, da microeletrônica e da cibernética/robótica;
  • uma plataforma industrial voltada para o beneficiamento de recursos naturais renováveis e para a produção de semicondutores;
  • um comércio direcionado para o escoamento da produção de bens eletroeletrônicos de consumo no âmbito doméstico e global;
  • uma educação vocacionada à sociedade do conhecimento;
  • distribuição de renda e geração de emprego meio da exploração dos novos serviços digitais.

Portanto, a universalização dos serviços digitais e o domínio da produção de semicondutores em uma ambiente de convergência passa a ser uma questão nacional da qual dependem a democracia e a própria afirmação da cidadania brasileira. Reduzir todo esse cenário a uma mera disputa de torcidas sobre qual o melhor padrão tecnológico para a televisão terrestre é jogar uma cortina de fumaça sobre o debate. E colocar o gigante novamente para dormir. Talvez pelos próximos 40 anos.


* Celso Augusto Schröder, jornalista e professor universitário, é coordenador-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), titular do Comitê Consultivo do SBTVD, suplente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e secretário-geral da Federação Nacional dos Jornalistas.

Anterior Ericsson: chamada GSM em rede IP
Próximos Vem aí o primeiro registro de internet móvel, o .mobi