Componentes, como sempre, o grande vilão do déficit


09/12/2005 –  O déficit comercial da indústria eletroeletrônica tem sido sistemático, nos últimos anos. Em 2006, pode crescer 45%, para US$ 10,4 bilhões, segundo estima a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Também vem se mantendo, ao longo dos anos, o peso das importações de componentes no saldo negativo do setor Abinee. Em …

09/12/2005 –  O déficit comercial da indústria eletroeletrônica tem sido sistemático, nos últimos anos. Em 2006, pode crescer 45%, para US$ 10,4 bilhões, segundo estima a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Também vem se mantendo, ao longo dos anos, o peso das importações de componentes no saldo negativo do setor Abinee. Em 2005, as compras externas de semicondutores, componentes para telecomunicações e componentes para informática vão ser de US$ 6,1 bilhões, o que representa 41% das importações totais da indústria eletroeletrônica. Daquele total, 48% foram importações de semicondutores. Como as exportações de componentes será de US$ 2,3 bilhões, o déficit da área, de US$ 3,8 bilhões, significa 53% do saldo comercial negativo de toda a indústria.

Diante disso, entende-se toda a frustração do setor eletroeletrônico com o fato de a política industrial não ter saído do papel, e de a Lei de Informática continuar sem regulamentação. E por que a frustração, em alguns casos, beira ao descrédito. Afinal, cotidianamente, grandes fabricantes mundiais anunciam investimentos – em novas plantas ou em pesquisa e desenvolvimento (P&D) – mundo afora. Ou melhor, muito particularmente na China e na Índia. É para este último país que estão se dirigindo recursos bilionários da AMD e da Intel (que até tinha desistindo da Índia, mas voltou atrás, diante da iniciativa da maior concorrente, a AMD). A Índia não tem tradição na fabricação de chips, não tem mão-de-obra especializada nessa indústria e, grave, não tem oferta suficiente de energia e recursos hídricos, insumos fundamentais na produção de componentes.

Mas, afinal, por que Índia? De acordo com as empresas, por duas razões principais: o mercado interno está crescendo, o governo está disposto a apoiar iniciativas relacionadas a alta tecnologia, por exemplo, reduzindo impostos. O Brasil dispõe de energia e água em abundância, pode até oferecer mão-de-obra qualificada, mas a economia patina, a renda não sai muito do lugar e a carga tributária não tem qualquer complacência com a tecnologia. Para não mencionar as políticas monetária e fiscal.

“Com a política industrial, contávamos que teríamos algumas salvaguardas para a indústria de componentes, um segmento debilitado. Não aconteceu nada, aumenta a nossa dependência externa, enquanto assistimos mudanças das plantas para a China”, diz Humberto Barbato, diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo e de relações internacionais da Abinee. Então, o que se vê, além das importações de componentes, é, também, um salto de 40% nas compras externas de utilidades domésticas em 2005, para US$ 786 milhões. Tratam-se, sobretudo de eletroportáteis, e o aumento das importações só teria uma explicação, segundo Barbato: o câmbio, que torna mais atraente uma cafeteira importada do que uma made in Brazil.

Feliz 2006?

Com todas as pedras do caminho, a indústria eletroeletrônica mantém o  otimismo. E acha que o ano que vem pode ser bom. Desde que os juros recuem, que o câmbio deixe de ser artificial e que o governo federal volte a investir. (Em 2005, o nível de investimentos governamentais foi dos mais baixos dos últimos tempos.) Resolvidos todos estes ses, os empresários industriais acreditam que o cenário internacional continuará favorável. Como, de quebra, 2006 é ano eleitoral, é possível que o volume de desembolsos aumente. Assim, o PIB poderia evoluir 4%, raciocinam.

E não esquecem de dizer, como Antonio Correa de Lacerda, diretor da Abinee, que é perfeitamente possível flexibilizar a política monetária, sem comprometer o resultado fiscal. Neste ano, informa, apesar do rígido controle de investimento federal, a indústria eletroeletrônica fez a sua parte: os investimentos aumentaram 15%, para R$ 2,8 bilhões e, no ano que vem, devem aumentar outros 15%, para R$ 3,2 bilhões.

Em 2005, a indústria eletrônica faturou R$ 94 bilhões, com crescimento real de 8%. Já o segmento de telecom teve um desempenho, como já estava delineado, muito melhor: registrou crescimento real de 24% e receita de R$ 17 bilhões.

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