Regulamentação da neutralidade deve ter M2M, defende Cisco


Havendo consulta pública, empresa vai propor separação do tráfego gerado por humanos daquele gerado por máquinas. Segundo executivo, mercado de internet de todas as coisas deve movimentar US$ 4,9 trilhões, no mundo, apenas em contratações governamentais até 2024.

Giuseppe Marrara - diretor rel gov cisco
Giuseppe Marrara é diretor de relações governamentais da Cisco no Brasil (foto: divulgação)

Giuseppe Marrara, diretor de Relações Governamentais da Cisco, é o braço da empresa em Brasília. Acompanhou de perto a disputa sobre deixar exceções da neutralidade para regulamentação posterior, ou não. No final, diz que a sociedade venceu e consegui um bom texto. Mas ressalta que é preciso uma regulamentação que leve em conta as características técnicas das redes, em que Anatel e CGI.br sejam consultados e sem que haja interesses políticos.

Havendo consulta pública, a empresa vai enviar sua proposta, que prevê separação do direito de tráfego gerado por humanos daquele gerado por máquinas (M2M) – um debate praticamente inexistente em 2010, quando o Marco começou a ser elaborado. O interesse da empresa na área é evidente. A Cisco quer participar do mercado de internet das coisas atendendo governos com soluções em smart grid, sensores e medidores conectados. Um mercado que deve movimentar US$ 4,9 trilhões, no mundo, apenas em contratações governamentais, nos próximos dez anos, avalia o executivo. Confira:

Tele.Síntese – Como a Cisco quer alavancar oportunidades no setor público?
Giuseppe Marrara – A gente fez um estudo sobre o potencial de internet de todas as coisas, no mundo, e vimos que o potencial desse mercado para os próximos dez anos é de US$ 14,4 trilhões, no planeta. O setor público representa US$ 4,9 trilhões disso. Nas iniciativas sociais, quem mais tem o dever de alavancar produtividade e novos serviços é o governo.

PUBLICIDADE

No Brasil está começando agora o deployment de smart grids e smart meters. Existe a intenção do governo em alavancar 60 milhões de medidores de energia inteligentes até 2016, dentro do smart grid. Isso vai reduzir o desperdício de energia, uma vez que geração está cada vez mais difícil. Temos hoje seis parceiros em smart grid e smart meters desenvolvendo soluções com tecnologia do Brasil para fazer o deployment dessa grande rede de internet das coisas já nos próximos dois anos.

Nosso país tem um consumo de energia estável ao longo dia, e pico às 18h. O smart grid pode redistribuir essa curva, reduzindo o pico. O jeito de reequilibrar o uso de energia é através de medidores inteligentes.

E como vocês analisam a ação da Anatel nessa história?
Marrara – 
A Aneel está definindo como isso vai acontecer. O Brasil vai ter que decidir se vai adotar um protocolo, um modelo, aberto, que é o que defendemos; ou se vai usar um modelo fechado, proprietário, que existe também, mas hoje é adotado por poucos países. Os Estados Unidos foram para isso, por exemplo, mas a gente não acha a melhor solução. Preferimos o uso de tecnologias IP. O modelo IP facilita a inovação, a entrada de novos players, diversifica a possibilidade de vendors e, mais importante, permite a integração do sistema da cidade com o do estado, com o da região. A Anatel está apoiando a Aneel para tomar essa decisão sobre qual protocolo adotar.

Vivemos um momento em que a economia está crescendo pouco, mas temos pleno emprego. Telecom cresce num ritmo muito acima da economia para dar conta da quantidade assustadora de dados que vamos subindo no sistema. Então, só há duas formas de o país crescer: primeiro, acrescentando mais gente na economia, o que o baixo índice de desemprego mostra não ser mais possível; segundo, aumentando a produtividade. O aumento de produtividade se dá com educação, treinamento, tecnologia, automação e processo.

Daqui a até 2018 o tráfego de redes fixas vai crescer oitos vezes no Brasil, o tráfego de redes móveis vai crescer 11 vezes. O de máquina a máquina, IoT, vais crescer 20 vezes. Em muito pouco tempo, cinco ou seis anos, o tráfego M2M vai superar o humano. As redes devem estar preparadas para isso, inclusive do ponto de vista regulatório. Como essa massa de dados será usada? Como será a neutralidade? O que pode ou não ser feito do ponto de vista ético? Nós vamos atribuir direitos humanos às máquinas, no debate sobre a neutralidade?

Havendo consulta pública para a regulamentação das exceções do Marco Civil, que propostas a Cisco dará?
Marrara – 
Pretendemos mandar uma proposta. Quando o Marco Civil começou a ser feito quatro anos atrás, a internet de todas as coisas não era uma realidade. Desde que a internet foi criada, os tráfegos são tratados de formas diferentes para endereçar o interesse de todos. Entendo que existem serviços que devem ser priorizados, como telemedicina. No mundo ideal, teríamos banda para qualquer tráfego. No real, hoje e durante os próximos anos, o tráfego está crescendo em ritmo muito maior do que as redes conseguem suportar, no mundo inteiro.

O Netflix acusa as operadoras de fazerem corpo mole quanto aos investimentos necessários para manter a internet neutra nos EUA. Chegou a dizer que os equipamentos para aumentar a capacidade de transporte precisam apenas de mais um par de portas…
Marrara – 
É, eu acho que não é tão simples como eles defendem. Acho que o acordo do Netflix com os provedores de serviços é interessante, desde que o dinheiro desse acordo seja utilizado para investimento na rede, para garantir que existirá infraestrutura para assegurar aquele tráfego. Se a gente começar a olhar as redes dos telecentros, por exemplo, em um certo momento do ano temos um monte de garotos fazendo a inscrição no Enem, e outros querendo acessar a final do campeonato de MMA. Acho válido que o dono daquela rede, no caso o MEC e Minicom, queiram privilegiar o tráfego para as inscrições no Enem, porque talvez seja de interesse público. Se entrarmos na telemedicina, será que vamos querer isto disputando espaço com outro tipo de tráfego? Por exemplo, e-mail, se chegar agora ou daqui a alguns segundos, praticamente não há prejuízo. Agora, numa sessão de telemedicina, um atraso de um segundo pode derrubar a sessão. É um problema que a sociedade precisa discutir. As máquinas precisam entrar nessa equação, e precisamos saber o que será direito humano e o que será direito das máquinas. É importante reconhecer que as máquinas serão maioria.

O Marco Civil da Internet foi muito bem sucedido no momento que garantiu que qualquer pessoa deve ter direito de acesso a qualquer informação de qualquer lugar. É um direito básico, assegurou uma série de direitos para a população, que a gente apoia. Mas os detalhes para a implementação, segurança e gerenciamento da rede, como a regulação dos serviços de emergência será feito, exige uma discussão sobre viabilidade técnica. Um debate para o qual a Anatel está plenamente preparada, tem todas as ferramentas para tomar as decisões corretas em relação a isso. O CGI.br, também, está bem preparado para isso. É importante que se reconheça que essa decisão tenha um caráter técnico, que não se use o debate de maneira política ou recorrendo-se ao clamor popular.

A empresa patrocina as Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016. Como está a implementação?
Marrara – A Cisco é parceira há muito tempo das Olimpíadas. Somos patrocinadores oficiais na categoria servidores e redes na Rio 2016. É uma experiência interessante porque no Rio nosso laboratório desenvolve soluções justamente para grandes eventos. Ao mesmo tempo, será um momento muito interessante. Em Londres, por exemplo, o iPad tinha sido lançado havia só dois anos. Tivemos 18 mil uploads na cerimônia de abertura. Todo mundo tinha um terceiro olho. Quatro anos atrás, o tráfego era muitas vezes menor. E ainda assim, foram quantidades massivas de dados fluindo naquele momento. Para a Rio 2016, a expectativa é muito maior. Vai ser o evento mais conectado da história da humanidade. Vai ser muito maior que a Copa. A Cisco será responsável por produtos e serviços para montagem de todas as redes de comunicação, back of the house, do evento. Redes ethernet, lan, backbone IP dedicado na cidade do Rio de Janeiro. Isso será entregue para o Rio 2016 [empresa que organiza o evento]. Não posso falar números, mas o investimento foi muito grande. Estamos nos preparando para o tráfego de dados de wearables e de coisas que nem existem.

Anterior BRMalls terá internet de alta velocidade para o público em sete centros comerciais
Próximos Ministério Público pede suspensão de venda de linhas móveis no Maranhão