Cisco aposta na internet “of everything”


Mesmo com o adiamento de projetos, em razão do cenário econômico mundial, a Cisco tem conquistado novos clientes e aumentando sua participação no mercado. De acordo com o presidente da subsidiária brasileira, Rodrigo Dienstmann, o segmento formado pelas operadoras ainda é importante mas já não representa mais 50% das receitas da companhia, que tem ampliado os negócios na área de governo e no setor financeiro. A multinacional também aposta no mercado das pequenas e médias empresas e se prepara para uma expansão da produção local. Mas seu target princial é a internet “of everything”.

 

Tele.Síntese –  Vamos começar falando um pouco de mercado. Como você está vendo o ano?
Rodrigo Dienstmann – Foi um ano atípico. Vamos falar do ano calendário (o ano fiscal da Cisco encerra-se em julho). O ano de 2012 foi bom, apesar do pouco crescimento; 2013 a gente não vê uma redução de investimento ou de cancelamento de projetos. A Cisco está muito ligada à produtividade das empresas e, às vezes, na crise, elas têm que ter ainda mais foco em produtividade – mas estamos vendo adiamento de projetos, uma espera um pouco maior que a normal, sejam operadoras, que são grandes clientes, seja o setor privado e até o governo, que teve um efeito pontual, um atraso na aprovação do orçamento da União. No entanto, tem o que a gente chama de ventos de cauda: primeiro, se adiou, vai fazer um dia; segundo, o Brasil ainda tem uma penetração de tecnologia muito baixa e uma consequente produtividade geral – seja empresarial, seja governamental, ainda baixa – então, é um incentivo aumentar a produtividade, ainda mais em tempos de pleno emprego. Os projetos governamentais, de infraestrutura, os jogos, a regulamentação do incentivo à tecnologia. A Anatel, por exemplo, com o incentivo à qualidade da banda larga, os incentivos do programa Redes PNBL, são ventos de cauda. Existe um reconhecimento por parte do governo do papel das TICs e ele (governo) não precisa mais ser convencido de que as TICs são tão estratégicas quanto a infraestrutura de portos, aeroportos, estradas e ferrovias. Hoje, qualquer interlocutor dentro dos governos, nas diferentes instâncias, tem consciência disso. É outro vento de cauda. Então, vemos ingredientes sólidos para o crescimento. O que não conseguimos ainda é estabelecer quando eles acontecem. Existe ainda uma incerteza em alguns segmentos de mercado do que vai acontecer economicamente, há ainda um clima de incerteza sobre quando o modelo de fomento ao consumo vai dar lugar ao fomento ao investimento.

Tele.Síntese – A Cisco, independente do cenário atual, tem registrado crescimento no país bem acima do PIB. Quais as previsões para o próximo resultado, que será divulgado em agosto?
Dienstmann – Este ano, apesar do cenário, a gente acredita que ganhou participação de mercado. Há evidências disso, mostrando crescimento acima do mercado. Os investimentos no centro de inovação (empreendimento da Cisco no Rio de Janeiro, voltado para soluções tecnológicas em áreas prioritárias como saúde, educação, segurança e desenvolvimento urbano, que deve ser inaugurado em agosto) e na fabricação local não têm outro motivo a não ser também aumentar a nossa participação no mercado.

PUBLICIDADE

Tele.Síntese – A Cisco anunciou, no ano passado, investimentos de US$ 500 milhões, em quatro anos, no Brasil, para a instalação de seu centro de inovação, criação de um fundo de venture capital e para a produção no país. Quais os resultados da fabricação local?
Dienstmann – Isso ainda está muito incipiente, porque temos só dois produtos sendo fabricados localmente (dois modelos de roteador). O grosso da fabricação local entra no ar daqui até o final do ano. Vamos incluir a linha de switches, com três modelos iniciais, e a parte de access point e uma terceira linha ainda sob sigilo, uma linha futura que amplia roteadores, switch e outros produtos. Os resultados iniciais são muito bons. Já temos backlog na fábrica.

Tele.Síntese – Com essa questão da vigilância, através do governo dos Estados Unidos, o governo brasileiro e outros governos, pensam em estabelecer algumas regras para os equipamentos internados no Brasil em relação a questão do backdoor. A Cisco, como uma grande fabricante norte-americana, deve ter seus compromissos com o governo norte-americano. Como você vê essa questão, pode ter algum impacto? Como a corporação está vendo isso?
Dienstmann – A corporação está sendo bem clara em esclarecer que nós não temos backdoors, nenhum envolvimento, qualquer participação no que está se falando de prism (programa de vigilância) ou qualquer outro desses programas, a Cisco não colabora, não está envolvida. Segundo, quanto a uma opinião se o Brasil deveria ou não fazer, não temos, vamos sempre seguir a legislação. Mas, a gente não acredita que qualquer um desses programas esteja sendo facilitado por fragilidades ou características dos equipamentos. Isso está sendo feito em outro âmbito, é obvio que em cima da tecnologia de comunicações mas não é por causa da tecnologia ou devido as características, o que chamam de backdoor.

Tele.Síntese – Você acha que não está sendo em função de uma característica interna do equipamento, mas sim dos softwares colocados sobre a rede?
Dienstmann – Eu não domino esses mecanismos de segurança, eles não são divulgados, mas eles não estão ligados a tecnologia, é um outro mecanismo. Vou dar um exemplo: quando se faz vigilância de chamadas telefônicas, não é porque um determinado fabricante de central telefônica dá um backdoor, e sim porque os dados, que são coletados de qualquer modo para se fazer o faturamento, portanto, estão disponíveis, assim como os logs de quem navegou, que IP usou, então, é mais a captura dos dados já existentes.

Tele.Síntese – Vocês estão no chamado quiet period, portanto, não pode falar em números, mas poderia fazer um balanço de como está a Cisco no Brasil, comentando a representação das verticais na composição da receita. O segmento de operadoras ainda é a principal fonte de receita?
Dienstmann – O segmento operadoras ainda é a principal fonte mas não representa mais 50% das receitas. Temos uma penetração muito forte no setor financeiro, o setor de indústria, que chamamos de multissetor. O governo tem crescido em taxas bastante superiores ao país, refletindo um crescente investimento, muita demanda por soluções de segurança pública, transporte.

Tele.Síntese – O corporativo é de onde vem a maior parte do faturamento?
Dienstmann – Se incluir o setor público no corporativo, sim. Se tirar, ainda é operadora, em segundo lugar as empresas, em terceiro, o setor público.

Tele.Síntese – Temos visto muita solução da Cisco para pequenas e médias empresas. Antes vocês trabalhavam mais com grandes corporações. Por que essa estratégia?
Dienstmann – Porque é uma oportunidade. No Brasil a PME não conhece a Cisco como um jogador desse mercado, o que não é verdade. Nos outros países temos reconhecida penetração nesse segmento. Colabora para esse fator o fato de as pequenas e médias terem investido menos em tecnologia. Se pego um banco brasileiro, ele investe tanto ou até mais que um banco estrangeiro, mas a pequena empresa brasileira investe menos, então, não temos penetração nesse mercado. Como temos produtos e a fabricação local nos torna mais competitivos, e como a gente vê cada vez mais a aplicação da tecnologia para aumentar a produtividade de base dessas empresas, estamos fazendo esforços de crescer nesse mercado.

Tele.Síntese – Quando você fala do crescimento maior na área de governo, englobando todas as instâncias, tem alguma característica desse crescimento? Tem alguma vertical dentro do setor público que está demandando mais?
Dienstmann – As verticais que estão chamando bastante atenção são as de saúde e educação. Há muito investimento de governo para levar serviços sobre a tecnologia, desde o serviço básico ao cidadão, em órgãos como o Detran, até levar banda larga. Tem alguns projetos no forno de governos para uma rede, para levar banda larga para as escolas. Segurança pública também se destaca mas as mais visíveis são saúde e educação. No caso da segurança tem o projeto dos caminhões móveis, com várias RFPs de governos na rua, na área de transportes muitas PPPs, seja para transportes metropolitanos, seja intermunicipal.

Tele.Síntese – Esse projeto dos caminhões móveis é o do Ministério da Justiça, que dotou 27 veículos com sistemas computatorizados para gerenciar segurança pública nas cidades-sede do mundial de futebol, Olimpíadas e outros megaeventos? 
Dienstmann – Sim. O projeto congrega tecnologias, vigilância, inteligência, comunicação, data center, processamento. Dentro do caminhão tem tecnologia embarcada, num modelo único no mundo. A concepção veio do conceito lançado pela Cisco na época do Furacão Catarina, que foi retrabalhada para o Brasil, através de parceiros, como a IBM (softwares), Rontan (empresa especializada em caminhão), com a integração da Medidata.

Tele.Síntese – Mas agora vocês estão levando a ideia, trabalhando projetos semelhantes com os Estados?
Dienstmann – Sim, os caminhões estão gerando um interesse muito grande de empresas, uma mineradora, uma empresa de petróleo, elas precisam desses caminhões para gerenciar suas fábricas, emergências, as empresas de utilities, como energia. Tem também interesse de municípios que não receberam e querem comprar para ter seu centro de comando e controle, enfim, está gerando uma série de demandas.

Tele.Síntese – Como você vê o M2M no Brasil. É uma tendência para o curto prazo?
Dienstmann – Essa questão está inserida na inovação e, na nossa visão, a internet de todas as coisas, vai “desenterrar” um tesouro que está por traz de ineficiências do mercado, das empresas, na logística. O M2M é um dos capítulos do Internet of Things – que é diferente do Internet Everything, que pega coisas, pessoas, processos e usa dados, gera análises e processos. Um exemplo de Internet Everything, não tem a ver com a Cisco mas ilustra bem, é o Easy, aquele aplicativo do trânsito. São coisas (smartphones), pessoas (motoristas), processos (o deslocamento) e dados (quem chega mais rápido, otimização de rotas, gasolina mais barata, etc.). E Easy é uma visão do Internet Everything, que será cada vez mais presente no dia a dia. Pode ser usado num processo de aprendizado, de logística, de previsão de catástrofe, de medição de energia, de colheira, na irrigação de uma plantação, entre outros exemplos.

Tele.Síntese – O M2M vem antes do internet de tudo?
Dienstmann – Sim, é uma perna que chega antes. A questão é que o M2M começa com as operadoras móveis, com a rede celular, e vai se transformando gradativamente e vai para qualquer rede wireless; chega um ponto que começa a ficar independente das operadoras, porque na visão de longo prazo essas redes serão independentes da infraestrutura de telecomunicações, serão grandes redes mesh, vão se construir redes paralelas, principalmente no mercado móvel.

Tele.Síntese – O volume de recursos do Regime Especial de Tributação Exclusiva (REPNBL) é bem acima do que se esperava. Já atingiu o valor total de R$ 13,156 bilhões e, como o prazo para a apresentação de projetos foi estendido de 30 de junho deste ano para 30 de junho de 2014, o volume de investimentos deve crescer e poderá até superar as expectativas do governo de uma renúncia fiscal de R$ 6 bilhões, até 2016.
Dienstmann – É uma boa notícia para nós. Com o regime, o governo reconheceu que a banda larga, nesse caso não é só banda larga, está ligado a data center, aplicativos, modernização das redes, é super estratégico para nós. O crescimento nos Estados Unidos no início da década de 2000, num percentual forte, foi ligado ao aumento de produtividade advindo de tecnologia da informação. O Brasil está em pleno emprego, mas isso não significa estar produtivo. Ainda tem muita gente fazendo seu trabalho com tecnologias desatualizadas.

Anterior Link de internet da Telebras deve cair a R$ 50 em 2014
Próximos Banco espanhol cria joint-venture para entrar em pagamentos eletrônicos no Brasil