Botto: Open RAN e o compartilhamento da infraestrutura gera um novo modelo de Telecom


Botto: Open RAN e o compartilhamento da infraestrutura gera um novo modelo de Telecom. Crédito: Divulgação
Renato Botto. Crédito: Divulgação

Renato Botto *

O termo “neutralidade da rede” é frequentemente utilizado como um rótulo genérico nas discussões de políticas públicas e regulatórias. A neutralidade da rede, no entanto, é muito abrangente e pode significar coisas diferentes dependendo do ponto de vista. As discussões sobre a rede de caráter neutro, muitas vezes abordam preocupações sobre liberdade de expressão, concorrência de serviços e escolha do usuário, impacto na inovação, práticas não discriminatórias de gerenciamento de tráfego, preços e modelos de negócios globais.

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A discussão de regulatórios e concorrência tem estado presente ao longo da história das telecomunicações e provocado ondas de inovação. Além disso, os mercados tiveram períodos de aberturas devido à grande competição, pela digitalização de conteúdo, com o uso massivo da Internet e pela adoção da banda larga de alta velocidade. E foi também muito acelerado no momento da pandemia desde 2020. As grandes operadoras de telecomunicações têm mantido um papel central neste processo, mas novos players do mercado têm se movido rapidamente, com diferentes modelos de atuação.

A concorrência saudável no mercado é um componente frequente das discussões sobre neutralidade da rede. Em mercados onde os usuários têm opções limitadas de serviços de Internet, esses usuários são potencialmente mais vulneráveis a ter seu acesso ao conteúdo disponível restrito ou a experimentar um desempenho de rede pior. A concorrência no mercado de ISPs é útil na forma como oferece aos consumidores uma escolha e incentiva a inovação entre as CSPs. Além disso, garantir um mercado competitivo para a provisão de acesso à Internet suporta a escolha geral do usuário em serviços e experiências online.

Por outro lado, as redes atuais dependem fortemente do acesso com fibra ótica, uma modalidade que também está em pleno crescimento no Brasil e na região da América Latina. No entanto, são caras, devido ao alto custo de implantação e manutenção. Nota-se um certo protecionismo dos fornecedores e uma complexidade das arquiteturas que impactam este custo. Outro elemento que contribui é quando há um mercado de ARPU baixo, áreas rurais ou economia em desenvolvimento.

É curioso que há uma adoção precoce de Open RAN em regiões com estas características, pois as operadoras ganham a capacidade de escolher entre vários fornecedores de rede, gastando menos e de forma mais simples.

Hoje, qualquer redução no custo do equipamento de fibra e na implantação ajuda bastante as operadoras, pela explosão do uso de dados e maiores custos para manter a rede.

Já no domínio da rede móvel, percebe-se que as redes antigas não irão se desligar tão rápido, e que aqui na região da América Latina, todas as gerações de redes – 2/3/4/5G irão conviver nos próximos anos.

Um detalhe interessante, é que um dos pioneiros de casos para Open RAN foi o agronegócio, tendo em vista os desafios do setor. Isto é, quando o modelo oferecido atendeu um requisito de baixo custo, houve por consequência um retorno financeiro para as cidades. No entanto, a migração de redes legadas para redes 5G (e até 4G) será um desafio fundamental nessas regiões, com o processo de inovação e regulatórios ainda caminhando. Uma implementação de 5G pode ser muito cara porque exigirá a execução de redes não IP legadas antigas e as novas de maneira concomitante.

Neste sentido, muitas soluções de Open RAN que suportam 2G, 3G, 4G e 5G permitirão conectividade econômica no Brasil e América Latina, simplificando a instalação, fornecendo flexibilidade tecnológica e sustentabilidade.

Existem muitas formas tradicionais de compartilhamento de infraestrutura das operadoras como, por exemplo, segmentação da rede fixa ou roaming móvel. Recentemente, o pool de infra de fibra apareceu como uma nova forma entre muitos mercados de telecom.

Embora o compartilhamento de rede seja uma prática comum em muitos mercados de telecomunicações, as modalidades de compartilhamento de rede são heterogêneas, não existe um modelo único para todos os casos.

O compartilhamento infraestrutura de rede não deveria ser adotado como um exercício isolado de otimização e deve ser vinculado à estratégia corporativa. O modelo deve ser pensado em suas várias camadas, equilibrando os objetivos estratégicos, financeiros, operacionais e regulatórios.

Há casos em que o compartilhamento foi visto como uma necessidade para facilitar a evolução da tecnologia, no meio de um baixo retorno para atendimento extensivo de cobertura e novos entrantes em certos territórios.

O compartilhamento da infra de rede precisa de uma visão de longo prazo que pode levar um par de anos para estabelecer um acordo e mais outro ciclo para implementar tudo e ter a rede compartilhada “em produção”. Ao longo desse processo, a parceria construída deve focar no impacto do compartilhamento e na própria estratégia corporativa.

Uma abordagem estruturada é necessária em todos os momentos para manter esse vínculo e dar as telcos a garantia que a fundação do modelo foi bem construída e que as decisões não foram tomadas sem alinhamento. Uma vez a estratégia sendo bem-feita, as operadoras poderão compartilhar o parque de equipamentos existentes e dividir o custo de aquisição, e assim garantir a cobertura ideal. Pode afetar tanto os elementos de uma rede fixa, como a “última milha” em fibra óptica, ou de uma rede móvel, como antenas de retransmissão.

Compartilhando equipamentos, as CSPs irão evitar redundâncias na sua infraestrutura. Ele difere de um modelo tradicional (como roaming) pela forma da instalação: no compartilhamento, as operadoras hospedadas pagam pela instalação da infra e uma joint venture pode ser criada para acomodar as estruturas compartilhadas.

A América Latina é uma região com áreas difíceis de serem cobertas, grande concentração de população e infraestrutura em áreas metropolitanas. Nas ações de leilão, os governos esperam que operadoras cubram a maioria das áreas geográficas e, não apenas, focando na população. Isso representa um desafio para as Telcos regionais de cobrir países inteiros, pois o custo de instalação e manutenção de RANs tradicionais é sempre alto. E com a necessidade de suportar 5G em breve, não é surpresa que o Open RAN tem ganho muita adesão em toda a região.

Hoje, há uma convergência que está acontecendo e as agências reguladoras têm um desafio para se adaptar ao novo ambiente de serviços convergentes porque a relação um-a-um com uma entidade reguladora não é mais clara, e um novo setor pode ser criado onde uma entidade reguladora não é identificada.

Neste momento para a região, não é difícil identificar oportunidades de implantação de Open RAN com hosts neutros. As metas de 5G de “alcance, latência e velocidade” fazem revisar o modelo tradicional das telcos, exigindo uma enorme quantidade de infraestrutura física e os movimentos de rede neutra se confundem com compartilhamento de rede de fibra ótica neste contexto.  Esse mercado que vive em ebulição não é diferente na região da América Latina, e vários movimentos estão se dando em grandes operadoras da região:

  • A Telefónica Movistar Chile vendeu 60% de sua unidade de infraestrutura de fibra óptica para o fundo KKR, por cerca de US$ 600 mi (Fev/21)
  • Fundos do BTG e a Globenet arremataram controle da Infraco (infraestrutura de fibra ótica) da Oi (Jul/21)
  • Telefonica Brasil concluiu a venda da Fibrasil. O fundo canadense CDPQ terá 50% do capital (Jul/21).
  • Telefónica Movistar Colômbia e a KKR anunciaram um acordo para formar uma nova empresa que será responsável pela implementação do projeto para a implantação de FTTH em nível nacional (Jul/21)
  • A Liberty Latin America adquiriu por US$ 538 mi as operações da Telefonica Movistar na Costa Rica (Ago/21)

*Renato Botto é Consultor de Presales da Open Labs SA

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