Ari Lopes: O que está acontecendo com o setor de telecomunicações do México?


Ari Lopes: O que está acontecendo com o setor de telecomunicações do México?
Crédito: Arquivo Pessoal / Divulgação

Por Ari Lopes*

Nos últimos meses, o mercado mexicano de telecomunicações foi sacudido por uma série de notícias que colocam questões importantes quanto ao futuro do setor no país. Desde a declaração de recuperação judicial da Altán Redes, ao insucesso do último leilão de frequências e a busca da Telmex em oferecer TV Paga, o setor de telecomunicações do México está dando sinais de que algo não está indo bem.

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A começar pela Altán Redes, o projeto nasceu dentro da estratégia do então recém criado regulador, IFT, em promover a competição no mercado móvel, ainda hoje dominado pela Telcel. A ideia foi concentrar 90MHz de espectro na frequência de 700MHz junto com direitos de passagem e uso de fibra de diversas entidades e empresas estatais para criar um novo operador, exclusivamente de atacado, que permitiria a criação de múltiplas MVNOs a baixo custo. O projeto quase não saiu do papel, com apenas 1 proposta sendo validada (graças ao apoio de empresas como Nokia e Huawei), mas ano passado, após atingir apenas 4.6 milhões usuários, a Altán Redes solicitou uma repactuação de dívidas com seus credores e iniciou negociações com o regulador para rever suas obrigações de cobertura. A baixa demanda junto com altos custos relacionados a essas obrigações, inclusive de áreas sem viabildade econômica, levaram a Altan para essa situação, destino esse muito similar, aliás, de outros projetos de infraestrutura de redes patrocinados por governos de outros países, como a Red Dorsal no Peru.

Outra situação que chamou a atenção ano passado foi o fracasso do IFT-10, o leilão de espectro que trouxe blocos em 800MHz, 1.9GHz, AWS e 2.5GHz, e atraiu propostas apenas de Telcel e AT&T, que adquiriram apenas 5 blocos regionais dos 41 disponíveis. Este resultado se deveu a alguns fatores, o principal é o estado de incerteza entre alguns dos principais operadoras, a AT&T, por exemplo, após os anos iniciais onde adquiriu empresas e investiu em uma moderna rede 4G, AT&T Mexico precisa lidar com baixos ganhos (reportou seu primeiro lucro trimestral no quarto trimestre de 2021) e uma empresa matriz altamente endividada que já vendeu seu outro ativo na região, DirecTV. O outro importante competidor, Telefónica, dificilmente iria adquirir licenças novas após devolver espectro para o regulador e passar a usar espectro da AT&T, além disso, a falta de novos entrantes deixou aparente a falta de atratividade do mercado mexicano, muito em função dos altos custos de manter espectro, uma vez que os detentores de espectro devem pagar uma taxa anual ao governo, taxa essa que o Senado local aumentou recentemente e foi o principal motivador para Telefónica devolver suas licenças. É, portanto, um cenário pouco animador no que concerne a perspectiva de injetar dinamismo no mercado móvel mexicano via leilão de espectro, algo que, por exemplo, o Brasil foi capaz promover em seu último leilão ano passado.

O ano de 2022 começou com a notícia de outra tentativa fracassada, por enquanto, da América Móvil conseguir aprovação regulatória para lançar um serviço de TV Paga no México, a empresa até mesmo anunciou que investiria US$387m adicionais nesse novo serviço como forma de aumentar suas chances junto ao IFT, que está reavaliando o caso. A empresa está nessa curiosa posição, é o maior provedor de TV Paga na América Latina mas, por restrição regulatória, não está autorizada a ter o serviço em seu país de origem, uma das muitas restrições impostas pelo IFT em função da empresa ter sido declarada agente preponderante nos mercados de telefonia fixa e móvel. Apesar do serviço de TV Paga estar em declínio em vários países em função da popularização dos streamings, para a Telmex há pouco a temer já que este seria um serviço novo e ajudaria a agregar valor à sua oferta de banda larga, principalmente para o seu negócio de alto crescimento em FTTH.

Como se vê, as questões que se impõem no mercado mexicano não são simples, os primeiros frutos da reforma regulatória de 2014 parecem não terem dado os resultados esperados. A questão de fundo é uma falha em se reduzir a concentração do mercado, e o que fazer a partir de agora. Atualmente a realidade do mercado mexicano parece desincentivar todos os players pois a) o custo regulatório alto torna o ambiente hostil para atuais e potenciais investidores; b) operadoras desafiantes perdendo o fôlego e c) operadora incumbent não podendo aumentar investimentos em função das restrições regulatórias a que está submetida. O resultado decepcionante do IFT-10 e a situação delicada da Altán são consequências disso.

A revisão dessas barreiras é urgente, em 2022 um novo leilão deve ser organizado para oferecer frequências para 5G, mas se o governo não endereçar os problemas mencionados acima, dificilmente este leilão terá um resultado diferente da IFT-10.  Essas amarras estão impactando o setor e a forma como o México responder a essas indagações irá definir a qualidade e a velocidade de expansão da conectividade no país.

*Ari Lopes é gerente sênior para Américas e especialista em estratégia de operadoras da Omdia

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