A televisão digital, creiam senhores, é tecnologia de ponta.


{mosimage}Poderemos ter em nosso continente um modelo de TV Digital único no mundo. E, para  o assessor especial da Ministra Chefa da Casa Civil, André Barbosa, esse modelo será o melhor tecnologicamente, convergente, interoperável, economicamente robusto e, acima de tudo, plural e democrático. 

 A atual crise econômica global traz para a sociedade mundial a visão de que novas oportunidades se descortinam para países que, por um motivo ou outro, têm perspectivas menos sombrias de enfrentamento. Entre estes estão, de acordo com a opinião de especialistas, os ditos "emergentes" liderados pelos BRICs (1).Isto implica que projetos "turn key (2)" não estejam mais prioritariamente na alçada de mira de investidores que agora pensam em projetos customizados para estas nações.

 Assim está sendo possível inovar e praticar ações específicas, voltadas para as questões dimensionadas do ponto de vista regional que antes eram taxadas como inviáveis economicamente ou mesmo tecnologicamente. No início da primeira década do século XXI pudemos assistir à formação de estratégias industriais e comerciais voltadas para as telecomunicações, assoberbados todos nós pela avassaladora oferta dos produtos em banda larga via rede mundial.

Estes produtos são voltados para modelos de negócio de com valor agregado. Deste modo assistimos à exclusão desta grande fatia da população mundial vivendo entre os trópicos e, majoritariamente, no hemisfério sul no contato com a oferta de TICs (3). Curioso é que nestas regiões do planeta, onde vivem 2/3 da população mundial, – cerca de 4 bilhões e meio de almas-  a oferta de redes de telefonia fixa, telefonia celular, "hot spots" e "backbones"(4)
 é, geralmente, parca.

PUBLICIDADE

 Em contrapartida, a oferta de redes de transmissão radiodifundida, voltada para programações abertas e gratuitas, é expressiva e, por mais das vezes, consolida-se na única fonte de informação, entretenimento, educação e cultura para estes gigantescos contingentes populacionais. Última das redes a se digitalizar, a radiodifusão vive um impasse no considerado primeiro mundo. As tecnologias a utilizar o protocolo IP estão provendo as populações da Europa Ocidental, dos Estados Unidos, Japão e Austrália, de todas as benesses oferecidas pelas redes sociais e pela Internet.

 Entre nós, emergentes e em desenvolvimento, a comunicação radiodifundida torna-se elemento vital de desenvolvimento e inclusão, mas, também, excelente oportunidade de negócio quando migra para o sistema digital. As possibilidades são inúmeras se atentarmos para as inovações voltadas para as soluções que foram desenvolvidas de modo abrangente entre estas, o conjunto de sistemas de decodificação de tabelas,  o middleware, que
 permite que os vários idiomas digitais possam conviver com os produtos audiovisuais.

 O Brasil, em 2003, tendo tomado a decisão em nível governamental de  induzir a participação colaborativa de radiodifusores, indústria de receptores, transmissores, dos produtores de software e da academia na decisão sobre o sistema a ser adotado pelo país concernente à TV Digital, abriu para si a oportunidade de ter o controle sobre o uso das inovações produzidas neste esforço coletivo.

 Deste modo, a TV Digital consolidando-se em 2006 com a escolha do sistema de modulação japonês ISDB-T com inovações brasileiras, através do decreto presidencial  nº 5.820, atendeu as demandas ditadas pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva no decreto de criação do SBTVD  – Sistema Brasileiro de Televisão Digital – nº 4901 de 2003, destacando-se aí seu uso voltado para o desenvolvimento de tecnologias digitais, para sua absorção por um
 indústria tecnológica autóctone e por projetos de inclusão digital.

 Deste modo, é fundamentalmente importante a visão que estamos diante de oportunidades não vislumbradas pelos atores tecnológicos dos paises desenvolvidos, por meio de soluções dirigidas para o nossa parte do mundo e que hoje demonstram ser não apenas economicamente viáveis como podendo se tornar excelentes alternativas de expansão do conhecimento.

 A Televisão Digital é, em especial, uma proposta que poderá compreender a ponte da convergência entre tecnologias e cenários econômicos díspares, na medida em que poderá utilizar seu fabuloso potencial interativo não apenas sob o ponto de vista da integração dos analfabetos digitais como, também, opção de usabilidade para serviços públicos e produtos modulares de entretenimento, informação,  cultura  e informação com grande potencial de
 retorno para i nvestimentos de toda a sorte.

 As redes de transporte de informação, conduzidas pelo setor das telecomunicações passa, neste cenário, a ter que conviver com outras redes de grande alcance, das de radiodifusão, antes consideradas obsoletas diante do novo e abrangente serviço da Rede WEB . A digitalização trouxe para o mundo "broadcaster" a possibilidade se ombrear as ofertas modulares de superposição de dados, imagens e sons da Internet, oferecendo a
 participação interativa do telespectador, agora elevado à condição de agente emissor da comunicação e digital nova, que por ser gratuita e aberta  transcende a sua qualificada função de matriz da produção audiovisual para tornar-se vetor de progresso e participação dentro do mundo da sociedade das redes de conhecimento.

 Novas idéias estão presentes em nosso horizonte futuro. O desenvolvimento do valor agregado, se conquistado com a utilização da multiprogramação tanto em ambientes das linhas fixas como no dos celulares, através do multi-seg (5).  Também podemos ficar sonhando com a possibilidade cada vez mais real do desenvolvimento de tecnologias que permitam a oferta de canal de retorno pela própria banda de 6Mhz de transmissão dentro da faixa de UHF. Assim
 teríamos a total independência entre as redes de telecomunicações e radiodifusão digitais com ganho para toda a cadeia produtiva e, principalmente para a população.

 Vivemos um momento em que as idéias projetadas pelo Comitê  Interministerial  de Desenvolvimento do SBTVD, coordenado pela Ministra Chefe da Casa Civil da Presidência da República, Dilma Rousseff, vão se materializando e transformando em realidade não apenas para os brasileiros, mas também para os sul-americanos.

 Os esforços conduzidos pelo Ministro das Comunicações, Senador Hélio Costa,  com apoio imprescindível do Ministério das Relações Exteriores, tem levado  estas idéias revolucionárias para o conhecimento da sociedade de nossos países vizinhos, modificando  o modo pelo qual as escolhas do sistema de TV  Digital  vinham se dando, como, mais precisamente, inoculando no seio de sua compreensão sobre esta decisão,  as possibilidades enormes que
 apresenta .

 Estamos na iminência de termos, em nosso continente, um modelo de TV Digital único no mundo. O melhor tecnologicamente, convergente, interoperável, economicamente robusto e, acima de tudo, plural e democrático.

 Que o ISDB-T com inovações brasileiras possa contar com os desenvolvimentos e contribuições quiçá chilenas, argentinas, venezuelanas, equatorianas, paraguaias, bolivianas, peruanas, cubanas, salvadorenhas…

 Pois, creiam senhores, a TV não vai sucumbir diante das inovações tecnológicas. Ela, de fato é uma tecnologia de ponta.
 _________________________________

 1 BRICs – Denominação utilizada pelo mundo econômico referente as iniciais
 de países como Brasil, Rússia, Índia e China.

 2 Turn Key – `Projetos industriais prontos instalados de acordo com
 similares lançados com êxito anteriormente em outros mercados.

 3 TICs – Tecnologias da informação e comunicação

 4 Hot spots: é o nome dado ao local onde a tecnologia Wi-Fi está
 disponível. São encontrados geralmente em locais públicos como cafés,
 restaurantes, hotéis e aeroportos onde é possível conectar-se à Internet
 utilizando qualquer computador portátil que esteja preparado para se
 comunicar em uma rede sem fio do tipo Wi-Fi.;
Backbones: Os operadores de  telecomunicações mantêm sistemas internos de elevadíssimo desempenho para comutar os diferentes tipos e fluxos de dados (voz, imagem, texto, etc).
 Na  Internet, numa rede de escala planetária, podem-se encontrar, hierarquicamente divididos, vários backbones: os de ligação intercontinental, que derivam nos backbones internacionais, que por sua vez  derivam nos backbones nacionais. Neste nível encontram-se, tipicamente,
 várias empresas que exploram o acesso à telecomunicação – são, portanto, consideradas a periferia do backbone nacional.

 5 Multi-Seg – Derivação do sistema japonês one-seg de modulação que permite a transmissão simultânea para plataformas móveis e portáteis do sinal transmitido para os ambientes fixos que permite a multiplicação desta transmissão.

___________________________________________

 * André Barbosa Filho é doutor em ciências da comunicação pela ECA/USP.
 Assessor Especial da Ministra Chefe da Casa Civil da Presidência da
 República. Atua como conselheiro do Fórum do Sistema Brasileiro de
 Televisão Digital Terrestre (Fórum SBTVD) e como conselheiro do CGI
 (Comitê  Gestor da Internet), Membro do E-Lac CEPAL/UNESCO – representante
 brasileiro – GT de Conteúdos Digitais e Pesquisador Associado do
 LapCom/UnB.

Anterior STJ mantém condenação da Embratel por repasse de PIS e Cofins na conta telefônica
Próximos Ciro Diehl assume presidência da Oracle