A reindustrialização das telecomunicações no Brasil


A reindustrialização das telecomunicações por Miguel Teixeira de Carvalho - Credito: Divulgação
Miguel Teixeira de Carvalho – Credito: Divulgação

Miguel Teixeira de Carvalho*

A reindustrialização das telecomunicações no Brasil é um tema relevante. O momento traz novas oportunidades para o Brasil e representa um estímulo para reflexões, sendo inevitável relembrar sucessos e evitar fracassos como os do passado. CPQD, CEPEL, CENPES, Embrapa, Incor, Aramar, Embraer são exemplos de sucesso, ao terem atingido plenamente seus objetivos. Não importa quais tenham sido. O que interessa é terem demonstrado claramente que capacidade existe, mas caminha de mãos dadas com vontade política.

Quando e onde houve vontade política o Brasil conseguiu chegar.

Em eletrônica digital, a tecnologia raiz está na lógica, codificada em hardware, circuitos integrados e software enquanto a tecnologia habilitadora está nos processos de fabricação dos circuitos integrados.  Tanto tecnologias raiz quanto tecnologias habilitadoras são amplamente dominadas nos Estados Unidos que além disto contam com importantes aliados tecnológicos na Coreia do Sul e Taiwan. O domínio destas tecnologias exige investimentos absurdos ao alcance de muito poucos, mas certamente não é este o problema do Mundo Ocidental.

Porque a Samsung está investindo 17 bilhões de dólares em uma fábrica de chips nos Estados Unidos quando poderia fazê-lo na própria Coreia do Sul onde incentivos fiscais são o que menos falta? Possivelmente existam questões de natureza geopolítica, mas muito além disto está a questão do sinergismo. A excelência somente pode ser alcançada pelo convívio com outras excelências, no caso da microeletrônica em química, física, óptica, metalurgia, robótica, muitas outras. Indispensável desenvolver “relationships“ tecnológicas e mercadológicas, e não somente “chips”.

Na década 80 passada, empresas da Coreia do Sul e de Taiwan compravam pequenas empresas no Vale do Silício criando um fluxo de tecnologia transpacífico e ganhando acesso ao mercado americano que lhes proporcionava recursos para crescer. Enquanto isto no Brasil, duas ou três dezenas de empresas, fortemente protegidas, lutavam heroicamente tentando reinventar a roda, cada uma a seu modo. Naquela época, na Comdex Fall/Las Vegas, a maior feira de informática do mundo, era possível encontrar nos stands periféricos produtos secundários coreanos e taiwaneses, subconjuntos de equipamentos maiores, modens, monitores, fontes, unidades de discos.  Quanto às Empresas brasileiras nenhuma se apresentava. Todas elas colheram o que plantaram e hoje são o que escolheram.

No caso de telecomunicações, o que importa é a tecnologia do produto final, que modernamente consiste em desenvolver equipamentos de forma horizontal, utilizando quando possível componentes de fabricação própria e quando não fornecidos pelos respectivos fabricantes originais no regime conhecido como O&M, notadamente no caso de chips. Este conceito também se aplica ao software de integração do sistema, idealmente obtido por desenvolvimento próprio, mas que pode conter módulos específicos licenciados junto a terceiros. No Mundo Ocidental não existe dificuldade tecnológica alguma para praticar engenharia neste nível, não somente na indústria eletrônica, também na automobilística, aeronáutica, naval e em outras. Este é o nível e também o limite do Brasil.

Um erro histórico que se repete ao longo dos anos consiste em fomentar e proteger empresas que licenciam no exterior tecnologias em phase-out como as de informática fizeram e se voltam exclusivamente para o mercado interno onde estão fortemente protegidas quando não subsidiadas. Exemplos positivos como o da Embraer e negativos como o das empresas de informática comprovam que o sucesso exige produtos no estado da arte do respectivo nicho de mercado, condições competitivas, busca incessante pelo mercado internacional.

No passado o mercado de equipamentos de telecomunicações era monopsônico, fixado na Telebras. Nele até cabiam algumas especificações nacionais, hoje não mais. Agora as principais Operadoras são internacionais e aderentes a padrões e protocolos definidos mundialmente. Nem todas tem necessariamente os mesmos interesses, mas o que irão comprar no Brasil certamente deverá estar de acordo com o que usarem em outros lugares.

O desafio da reindustrialização que se coloca no momento, parece ser o de articular tradicionais fornecedores de equipamentos ainda remanescentes no Brasil e motivá-los para uma nova empreitada, cabendo um novo olhar para o papel que um CPQD revitalizado poderá desempenhar.

*Miguel Teixeira de Carvalho – Diretor Industrial da Coencisa Comunicações / Brasília; Secretário Industrial da Secretaria Especial de Informática – SEI / Brasília; Diretor Geral do Centro Tecnológico Informática – CTI / Campinas

 

 

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