A realidade não mudou, mas telcos estão mais otimistas em relação às OTTs


Barcelona – O Mobile World Congress (MWC), que termina amanhã (quinta), em Barcelona, veio bem diferente na edição deste ano. Não apenas porque a estrela da feira – que estava bem maior, com muito mais gente, e um “quê”de euforia no ar – foi nada mais nada menos que o presidente do Facebook, que arrastou multidões de executivos para vê-lo. A presença de Mark Zuckerberg na arena das telcos, e sua filiação ao GSMA, foi mais do que um gesto simbólico. Foi a confirmação de que o mundo de telecom passou a ver o serviço Over-the-Top (OTT) como um aliado, e não mais como a maior ameaça.

Como toda novidade, esta vem carregada de incertezas. Afinal, no mesmo dia em que Zuckerberg se apresentava nesta arena, o CEO do WhatsApp, Jan Koum, também presente, avisou que a partir do segundo semestre deste ano passará a oferecer os serviços de voz, além do serviço de mensagem. Mais um naco das receitas das operadoras de celular mudará para outros agentes do mundo da internet.

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Mas, no mundo real, aparentemente, nada mudou para os promotores da maior feira de celular do mundo. Continua a perda de receitas das operadoras de telecomunicações para as empresas do mundo OTT; a pressão de custos; o aumento incomensurável da demanda por comunicação de dados; a constante desvalorização das ações das telcos. Em outra ponta, a máquina de fazer dinheiro das grandes OTTS globais continua rodando, sem que precisem realizar continuamente grandes investimentos e com reduzidos custos de encargos trabalhistas. O WhatsApp, que foi vendido pela fabulosa quantia de US$ 19 bilhões, tem quantos empregados? Comenta-se que não mais do que cem. O valor de venda dessa empresa é mais do que seis vezes superior ao valor de mercado da Oi (no final de 2013 cotada a R$ 6,4 bilhões, conforme o site Teleco), que tem mais de 10 mil trabalhadores diretos.

Investimento trilionário
Ao mesmo tempo, a demanda por investimentos nos tubos de telecom aumenta. De acordo com a previsão de Fredrik Baksaas, presidente da GSMA e da operadora sueca Telenor, as operadoras de celular precisarão investir US$ 1,7 trilhão até 2020 para conseguir atender à demanda por banda larga e para continuar a ampliar o número de conexões. Para ele, essa enorme quantia de recursos irá demandar um forte compromisso das operadoras, dos usuários e de toda a sociedade. O executivo salientou que, se há hoje 6,9 bilhões de conexões em todo o mundo, elas representam apenas 3,4 bilhões de usuários únicos.

Aliás, o “pequeno” número de usuários de internet – apenas um terço da população global – foi o motivo apresentado por Zuckerberg para a criação de seu projeto Internet.Org. Sem deixar de provocar as telcos, o presidente do Facebook afirmou, no evento, que considera um tempo muito longo a estimativa do setor de levar a internet para todas as pessoas até o ano de 2020. Para acelerar essa inclusão, ele sugere que as celulares usem as suas próprias redes de 2G e 3G, que efetivamente atingem 80% da população mundial e, em parceria com o Facebook (é claro), ofereçam, gratuitamente, alguns serviços de comunicação de dados de emergência (a exemplo do que ele está fazendo com seus serviços de e-mail ou de mensagem curta).

Com esta alternativa, acredita o executivo, as pessoas passam a vivenciar a experiência da internet e a querer gastar com a contratação de mais banda e mais conteúdo – um processo que, segundo ele, seria bom para os dois lados. 
As operadoras não saíram de lá muito convencidas de que esta será mesmo uma parceria do tipo “ganha-ganha”, mas, pelo menos, muitos avaliam que há alguma chance de a proposta dar certo.

Se o problema ainda não foi resolvido, por que, então, o MWC teve este ano uma faceta diferente, mais animada, mais light, mais OTT? O primeiro retrato da nova “cara” de telecom se deu nos painéis do Congresso. Nenhum dos principais keynotes speakers reclamou das OTTS, do desbalanceamento regulatório que haveria entre os “pesados encargos” suportados pelas telcos e a “leveza” regulatória dos over-the-top, temas recorrentes nas edições passadas. Os recados do empresariado aos reguladores se concentrou no tema dos preços das frequências e no enfrentamento da Europa. O tiroteio maior se deu contra os reguladores europeus. O CEO da Deutsche Telekom, 
Timotheus Hottges, bateu duro: “Temos na Europa um ambiente regulatório que não é sustentável”. O empresário se alia ao coro da Telefónica e de outros principais grupos europeus, ao reforçar que há pulverização demais no mercado, com mais de 200 operadoras europeias, contra apenas quatro nos Estados Unidos ou quatro na China. O executivo reclamou ainda da legislação muito restritiva no continente. Em seu país, por exemplo, as operadoras são proibidas de analisar big data. ‘Todos os nossos dados privados estão migrando para fora do país”, reclama.

A defesa da mudança regulatória para permitir a fusão de empresas não está mais amparada no discurso da reação às OTTS. Conforme explicou Eduardo Navarro, da Telefónica de Espanha, ao Tele.Síntese Análise, as fusões são necessárias porque “os investimentos são vultosos e fundamentais”. Para ele, o otimismo do evento deste ano pode ser explicado pelo fato de as operadoras celulares terem conseguido extrapolar o potencial do setor para outros segmentos econômicos. “Agora, estamos vendo, de fato, o celular no carro, na casa, na vida das pessoas”, afirmou 
o executivo. O presidente do grupo Telefônica no Brasil, Antonio Carlos Valente, assinala que, quando uma tecnologia já está consolidada, como é o caso da LTE, a tendência é surgir serviços mais diversificados, como os apresentados neste evento. “A tendência é a monetização dos serviços”, completou.

Para o vice-presidente de Assuntos Regulatórios da TIM, Mario Girasole, se ainda não há uma demonstração concreta de que há um novo equilíbrio entre as OTTs e as operadoras de telecom, pelo menos se busca um “equilíbrio nas diferenças”. “Agora começa a haver uma agenda comum com perspectiva de diálogo. Antes havia apenas o desabafo de um dos lados”, avalia o executivo. Ele salienta que, entre as diferenças latentes dos dois lados, está o fato de que os serviços globais de internet escolhem a jurisdição que melhor lhes convém para trabalhar, enquanto as telcos são eminentemente locais. “O Facebook compra o Whats App, mas não compra uma rede de telecom, porque sabe que vai ter sempre alguém para puxar o tubo, pois a intervenção da rede é sempre local”, afirmou.

Diversidade de novos produtos
A feira ficou muito mais diversificada – carros conectados aos montes; escovas elétricas com chip surgiram com força, pulseiras para controle de pressão e coração de todas as cores parecem dar sobreviva ao watch fones. O presidente da Alcatel-Lucent, Michel Combs, chegou a brincar: “Estou me sentindo em Las Vegas”, referindo-se à maior feira de consumo eletrônica do mundo.

E muitas, muitas aplicações para todos os gostos. Nas mãos, os terminais smartphones dando seu show. A Samsung levou (e matou de fome) mais de mil jornalistas que esperaram mais de três horas para ver o lançamento de seu último smartphone. A chinesa Huawei concentrou a coletiva de imprensa nos novos terminais celulares que está lançando. A russa Yota fez forte campanha de marketing para mostrar seus aparelhos. E a BlackBerry também esteve presente para, mais uma vez, fazer um mea culpa público.

Por trás desses bonitinhos devices, inúmeras novas soluções de redes. Todas para aumentar a capacidade da 3G ou viabilizar a 4G, sem deixar de mirar na 5G. Uma nova sopa de letrinhas se consolida. O mundo móvel é, antes de tudo, cloud. E já, já será big data. Estão sendo criadas inúmeras soluções de redes virtuais (NFV, ou network function virtualization, aposta de Ericsson, NEC e Alcatel-Lucent); ou de LTE broadcast (aposta da Qualcomm, que anunciou oito trials em todo o mundo). E muitas, muitas soluções para ampliar os serviços conectados. Parece que as telcos encontraram o novo nirvana.

*A jornalista viajou a convite da Alcate-Lucent
 

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