“A ausência do operador nacional neutro 5G vai obrigar o redesenho do mercado”, afirma CEO da Brisanet


José Roberto Nogueira, CEO da Brisanet, esteve presente, em Brasília, em todas as audiências do leilão do 5G, para o qual sua empresa teve um desempenho de surpreendente destaque. Ele, há muitos meses, dizia que ia participar do leilão e que não abria mão da licença para a região Nordeste. A surpresa veio com o tamanho do ágio que ofereceu por este espectro-  incríveis 13.741%; com a aquisição do espectro do 5G da Região Centro-Oeste, quando apontou para a sua nova área de interesse, além de ainda comprar uma fatia da faixa de 2,3 GHz também sobre o Nordeste.

As razões e explicações para o grande ágio foram dadas pelo executivo logo no primeiro dia de leilão (afinal as ações da empresa caíram com o susto) e também reforçadas neste entrevista. E na conversa aqui reproduzida, o interessante também é conhecer a avaliação de  Nogueira sobre as consequências do resultado do leilão e o futuro do mercado

Para ele, a ausência de um operador neutro na telefonia celular, como se especulava antes do leilão, vai tornar a vida dos ISPs muito mais difícil. Em sua avaliação, “quem tem só fibra vai estar com desafio muito maior para permanecer no mercado”. Isso porque, defende, em quatro ou cinco anos, 5G e fibra óptica serão indissociáveis para a entrega dos serviços que a população irá consumir.

Aqui, os principais trechos da entrevista:

Tele.Síntese Qual é a avaliação da Brisanet sobre o resultado do leilão do 5G?

Roberto Nogueira – A Brisanet não podia correr o risco de ficar fora do leilão na região onde atua. A empresa, que tem a interiorização como plano de negócios, não só em cidades pequenas mas também áreas rurais,  enxergou que era possível ser bem agressiva nos valores de entrada em função da expansão dessas localidades. Fizemos a conta e colocamos logo na entrada o valor desta expansão.

Tele.SínteseQual era o receio da empresa para oferecer tudo logo no ágio?

Roberto Nogueira – O cenário a dois  meses do leilão estava mais duvidoso, indicava grandes competidores,  e a empresa não poderia deixar uma área como o Nordeste vulnerável a uma concorrente comprar o bloco de 3,5 GHz. Acreditamos que o futuro do setor de telecom, sem 3,5 GHz, fica comprometido.

Tele.SíntesePor que ficaria?

Nogueira – Dentro de  quatro a cinco anos, vão existir centenas de serviços que trafegarão em cima de infraestrutura de fibra e de 5G. As duas infra são complementares. Entendemos que possuir essas duas infraestruturas é extremamente relevante para perpetuar o negócio.

Tele.SínteseHavia uma expectativa de que a quarta licença nacional de 3,5 GHz iria ser adquirida por um novo operador ou empresa de rede, que não apareceu. Como avalia esta ausência?

Nogueira – Os ISPS estavam certos de que haveria um operadora nacional com a frequência de  3,5 GHz.  O fato de não surgir este operador muda muito o cenário. Se o quarto bloco tivesse sido alterado para uma nova configuração, como defendiam alguns agentes, muitos ISPS que estavam certos para o leilão talvez desistissem.

Tele.Síntese- Mas apareceram muito poucos ISPs no leilão. Vocês, Copel mais Sercomtel e Unifique, se é que podem ser considerados ISPs…

Nogueira – O grupo da Agriteck, é novo, mas experiente no mercado, e a configuração São Paulo e Norte, com novo grupo. Acredito que os dois farão operações  parecidas com rede neutra.

Tele.SínteseFoi  uma interessante surpresa a faixa de  700  MHz ter sido vendida sozinha, não? Você  vai usar rede neutra no projeto da Brisanet?

Nogueira – Temos intenção, sim, de fazer parceria com quem comprou o 700. Vamos fazer uso do 700 principalmente no Centro-Oeste. Mas, para mim, a maior surpresa mesmo foi não ter surgido o operador de rede neutra na frequência principal do 5G. Com o  700 MHz, será um operador de rede neutra complementar. Achava que iria ter um operador de rede neutra completa. O mercado de ISP estava aguardando  um operador de rede neutra completo em 3,5 GHz

Tele.SínteseE, em sua avaliação, o que muda sem esse operador neutro de telefonia móvel nacional?

Nogueira– Pensando no cenário dentro de 3 a 4 anos, será muito difícil  uma empresa fazer um atendimento completo sem o 3,5 GHz. A entrega dos produtos contará com a fibra e o 5G. Quem tem só fibra vai estar com desafio muito maior para permanecer no mercado. Será um desafio muito grande prestar serviço sem o 5G, a mobilidade vai  ser cada vez mais exigida. As duas tecnologias serão as mais exigidas.

Quem comprou frequência vai fazer um redesenho do plano de negócio. E quem não comprou vai ter que fazer um redesenho, considerando que em quatro anos as duas tecnologias precisam estar juntas para entregar os serviços que as pessoas querem consumir.

Tele.SínteseVocê acha  que o movimento de M&A dos ISPs se acelera a partir de agora?

Nogueira – Na nossa visão, existe um número excessivo de pequenos provedores na mesma cidade. Por exemplo, nas cidades de quatro a cinco mil residências existem entre  cinco a seis pequenos ISPs. Em cidades deste tamanho cabem no máximo três operadores.  O processo de consolidação  vai colaborar com esta redução. E os consolidadores vão seguir por mais um tempo, até chegar a vez da venda para um operador estratégico

Tele.Síntese Em quanto tempo você acredita que este fenômeno ocorre?

Nogueira – Em dois anos teremos um desenho mais sólido destas consolidações. Neste período,  quem comprou as frequências já estará com seus modelos de 5G acelerados, e quem não tem as frequências, talvez um dos caminhos seja vender sua operação para um sócio ou operador estratégico.

Tele.SínteseComentou-se que, devido ao tamanho do ágio que ofereceu, cerca de R$ 400 milhões iriam para o Tesouro. Como ficou mesmo o resultado final de sua empresa?

Nogueira – Entre os lotes arrematados pela Brisanet, vão sobrar R$ 167 milhões a serem aportados para o Tesouro. O restante é puro investimento. Do lote do Nordeste, de R$ 1, 250 bilhão – R$ 1, 236 bi é para investimento em áreas já mapeadas pela Brisanet para futura expansão. O  impacto foi apenas no valor a mais de garantia.

Tele.SínteseQuanto a mais da garantia?

Nogueira – R$ 40 milhões a mais. O impacto é menor em função  das áreas já mapeadas. Em função das áreas já estarem dentro do plano de crescimento da Brisanet.  O Nordeste tem mais de 15 mil localidades a serem exploradas com o  5G.

Tele.SínteseE como explica que a maioria das empresas deu o lance mínimo e só a Brisanet antecipou o valor dos investimentos?

Nogueira– O Nordeste é  a região que teve o menos investimento em telecom nas últimas décadas e o número de localidades representa a metade do Brasil.  O Nordeste vai ser a região do planeta com maior capilaridade de banda larga de uma empresa só.

Tele.Síntese – Quando a Brisanet deixará de ser tratada como ISP, com regras assimétricas, frente às grandes teles?

Nogueira –  A base da Anatel para definir Prestador de Pequeno Porte (PPP) é de 5% do mercado nacional. Assim, o limite também sobe à medida em que aumentam o número de linhas de banda larga. Quando o Brasil tiver 50 milhões de assinantes de banda larga fixa, o limite dos PPPs será, por exemplo, de 2,5 milhões de assinantes. A nossa torcida é que a base de banda larga vá crescendo e a da Brisanet também. Em 2027 a quantidade de residência brasileira com internet chegará a 85%.

Tele.Síntese A operadora vai usar a faixa de 2,3 GHz como apoio ao projeto de 3,5 GHz?

Nogueira– Vamos conseguir uma penetração melhor indoor associada ao 2,3 GHz. Com esta frequência,  reduziremos  os sites pela metade.

Tele.Síntese A sua intenção é também levar fibra para o Centro-Oeste?

Nogueira– O projeto central da Brisanet é FTTH e móvel. No Centro -Oeste começaremos  a implementar a fibra no início de 23. O 5G segue o caminho da fibra no Centro -Oeste. E vamos buscar muita parceria. No Nordeste a empresa já tem modelo de parceria no qual a Brisanet constrói a rede e os pequenos provedores operam nas pequenas cidades

Tele.SinteseNo Centro-Oeste vão manter a mesma estratégia?

Nogueira – Similar. Um pouquinho diferente. O principal foco é buscar os provedores de internet que têm intenção de se perpetuar no negócio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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