4G: uma nova Guerra Mundial.


{mosimage}Para o consultor em telecomunicações José Luis Frauendorf, a disputa que se trava entre os mercados de 3G/LTE e WiMAX pode resultar em prejuízo para o usuário. Neste artigo, ele compara o WiMAX e o LTE a sistemas operacionais. "O LTE, no caso, seria o Windows, cuja licença de uso é altíssima, e por isso mesmo muito pirateada. Já o WiMAX seria algo semelhante ao Linux, ou seja um software free", diz, acrescentando que as duas plataformas  rodam no mesmo hardware — o que as diferencia é apenas o software.

Recentemente tive que viajar para o exterior e instalei no meu netbook um software que o transformou num ramal do PABX virtual da minha empresa. Pude, durante toda a viagem, sempre que conectado a uma rede de banda larga, fazer ligações para todos os ramais, efetuar ligações “externas” como se estivesse sentado no meu escritório, tarifando as ligações locais, os DDDs e os DDIs diretamente para a empresa, embora estivesse a milhares de quilometros de distância. Isso nos dá uma idéia dos problemas que os prestadores de serviço de telefonia convencional enfrentarão em breve. Graças a um outro software pude assistir aos programas da TV brasileira. Sempre conectado à banda larga e por meio de um dispositivo que ligado a uma “caixa” de TV a cabo no meu apartamento em São Paulo, pude mudar os canais, aumentar e diminuir o volume, mesmo estando em um outro continente. É uma questão de tempo e obviamente de hábito, mas muitos  serviços que existem hoje desaparecerão e serão substituídos pela “banda larga”. Batalhas são travadas em nome dessa guerra.

É, apenas, um novo capítulo da revolução tecnológica que teve início na década de 80, há quase 30 anos, portanto. Com a criação do microprocessador foi possível o nascimento dos PCs. O processamento de dados, até então privilégio de poucos a um custo muito alto, dependia de enormes computadores da época, os “mainframes”, caríssimos e complexos. Em menos de dez anos a indústria dos computadores pessoais cresceu e a dos mainframes desapareceu. A tecnologia não perdoa.
 
Com a popularização, os PCs acabaram sendo conectados uns aos outros através de redes, para facilitar a troca de arquivos e a comunicação entre eles. A Internet foi adotada como padrão.
 
O aumento da velocidade dos microprocessadores permitiu que muita coisa acontecesse, especialmente na área da digitalização e processamento de sinais, em especial os sinais de áudio (entre eles a voz) e o vídeo. Sinais digitais são muito mais fáceis de serem transmitidos e processados do que os sinais analógicos. Rapidamente, na década de 90, a nascente indústria da telefonia celular se beneficiou disso e os sistemas analógicos que utilizavam aparelhos pesados, grandes, com baterias que duravam no máximo quatro horas, foram substituídos pelos digitais, pequenos, com baterias que duram dias e, o que é melhor, incorporaram uma série de vantagens impensáveis até então. O sucesso foi enorme e o aparelho celular acabou se tornando, além de telefone, agenda, máquina fotográfica, aparelho reprodutor de som e vídeo.
 
A telefonia celular foi, além de uma revolução tecnológica, uma revolução social. Graças a isso os investimentos para essa rentável indústria nunca faltaram. No final do século a indústria deu um passo para aumentar a capacidade dos seus sistemas visando a transmissão de dados, além da telefonia convencional. Leilões milionários foram realizados na Europa para as novas faixas do espectro que permitiriam a introdução dos novos serviços. Agências reguladoras angariaram, para seus respectivos governos, bilhões de euros, colocando em risco a viabilidade dos projetos. Mas eles não se tornaram inviáveis apenas por esse motivo, mas por outro muito mais grave. A tecnologia chamada de “3G” não saiu da forma que se esperava, já que seu desempenho ficou muito aquém do desejado. A ganância de algumas empresas, detentoras das patentes desse sistema, ao cobrarem royalties altíssimos em cada aparelho produzido, agravou, ainda mais a situação. Foi necessário quase uma década para a tecnologia decolar, mas a nave, ainda pesada, não consegue alçar voos muito altos. Concebida sobre os pilares de um sistema de transmissão de voz, não consegue transmitir dados como esperado.
 
Enquanto isso, algumas empresas independentes e mais criativas, não estabelecidas no Velho Continente, tomaram rumo diferente. Iniciaram o desenvolvimento de novos sistemas a partir do zero, mas adotando a premissa de que se destinavam à transmissão de dados e não voz, o que fez toda a diferença. Esses novos sistemas nasceram “IP”, ou seja, dentro dos padrões de transmissão de dados. Além disso, adotaram uma nova tecnologia de transmissão de sinais, o OFDM, já bastante conhecida, mas que era inviável economicamente, até então, pois demandava uma velocidade e capacidade de processamento de sinais muito elevada. Com a evolução dos microprocessadores as dificuldades foram superadas.
 
Houve, ao mesmo tempo, uma mudança mais ou menos óbvia com relação a alocação de frequências. A divisão do espectro em canais de 1,25 MHz, ideais para a transmissão de voz, passou para 5 MHz visando a transmissão de dados. Com isso, as tecnologias tradicionais, perfeitas para canais pequenos, demonstraram-se inviáveis para canais mais largos. A voz necessita de pouca “banda” para sua transmissão, além da característica de ter seu tráfego simétrico, pois os interlocutores, em princípio, geram um mesmo volume de informações durante uma chamada. O tráfego de dados não! Geralmente, um usuário recebe mais informação do que envia, o que torna o volume da troca de dados totalmente assimétrica. Mas a maior diferença está na banda utilizada para a transmissão da informação. Enquanto  o tráfego de voz é da ordem de 64 kbps (64.000 bits por segundo) o de dados em alta velocidade é de, pelo menos, 1 Mbps (1.000.000 bits por segundo), ou seja, quase que desesseis vezes maior. Assim, além de canais mais largos tornam-se necessários sistemas mais eficientes.
 
Existe uma métrica para a avaliação de eficiência da transmissão de uma informação. É a chamada “Eficiência Espectral”, ou seja, o quanto de informação que consegue-se transmitir em 1 Hz do espectro de frequência. O valor máximo demonstrado por Shannon, em seu famoso teorema, é de 5 bits por Hertz, ou seja, 5 informações por 1 Hz. A TV digital, recém implantada no Brasil, transmite cerca de 3 bits por Hertz, enquanto a tecnologia “3G” não chega a 1 bit por Hertz (geralmente é próxima de 0,6 bits/Hz). As novas tecnologias de quarta geração operam com eficiência espectral acima dos 2,5 bits / Hertz, ou seja, quatro vezes mais eficientes que as atuais redes “3G”.
 
Em 2001 algumas empresas, dentre elas a AT&T, decidiram trabalhar juntas para gerarem a especificação do novo sistema voltado a transmissão de dados, IP portanto, e apoiados na modulação OFDM. Batizaram-no como WiMAX. Pouco tempo depois as empresas do porte da Intel e Samsung aderiram ao grupo. Em 2006 entrava em operação na Coréia o primeiro sistema comercial e em 2008 nos EUA.
 
Ao mesmo tempo, muitos países, dentre eles o Brasil, persistiram na implantação das redes “3G”, por forte influência dos fabricantes dessa tecnologia. Conforme o WiMAX foi se tornando realidade a batalha teve início, as ameaças cresceram. Uma nova tecnologia ocasionaria a queda da hegemonia dos tradicionais fabricantes e operadores, ameaçando suas existências. A entrada em operação de novas redes, economicamente mais viáveis e eficientes, ameaçava os investimentos feitos no “3G”, além de permitir o surgimento de novas operadoras que concorreriam pelo maior mercado futuro das telecomunicações, a banda larga sem fio. Era preciso frear seu desenvolvimento e o peso dos tradicionais fabricantes e operadoras se fez sentir. Todas as armas foram usadas. Foi necessário agir e a única forma encontrada foi a criação de uma outra tecnologia que acabou sendo concebida a imagem e semelhança da que a ameaçava. Nascia o LTE, uma tecnologia gestada não por uma evolução natural mas como reação a sua irmã gêmea que ameaçava usurpar seu trono. Reguladores, sob pressão, passaram a defender a reserva de mercado futuro para essa tecnologia que ainda se encontra na fase de desenvolvimento e, se quer foi testada. Assim, obstáculos foram criados para impedir a proliferação de qualquer ameaça.
 
O mais interessante é que, a exemplo dos PCs, o que diferencia o WiMAX do LTE é algo semelhante ao sistema operacional. O LTE, no caso, seria o Windows, cuja licença de uso é altíssima, e por isso mesmo muito pirateada. Já o WiMAX seria algo semelhante ao Linux, ou seja um software “free”. Segundo alguns fabricantes, ambas as plataformas LTE e WiMAX “rodam” no mesmo hardware e o que os diferencia é apenas o software. Quem sofre em última análise é o usuário que vai ter que pagar mais caro para ter o mesmo serviço. Quem deveria protegê-lo?
 
A exemplo do que ocorreu 30 anos atrás com a indústria de mainframes, os tradicionais fabricantes de equipamentos de telecomunicações começam a desaparecer. Inicialmente foi a Lucent, absorvida pela Alcatel, em seguida a Siemens que se uniu a Nokia e recentemente a Nortel. Outras, como é o caso da Ericsson, seguem o caminho trilhado pela IBM no passado e buscam na prestação de serviços a sua sobrevivência. Em pouco tempo o cenário será outro, pois o que dá sustentação à essa indústria é a fabricação de terminais e não mais a produção da infraestrutura. Quem sai vitorioso dessas batalhas são as empresas como Nokia, LG e Samsung. A Motorola tenta se manter ao lado dessas últimas enquanto que as outras podem ter seus dias contados caso não se espelhem na IBM.
 
A batalha agora é por território e nesse caso o domínio do espectro é o que conta. Direitos adquiridos, justiça aos que se dedicaram ao interesse da sociedade tornam-se irrelavantes neste momento. A batalha tem que ser ganha a qualquer custo e todas as armas estão sendo usadas mundialmente, não só no Brasil. Só não vê quem não quer. O porte dos participantes dessa guerra travada na penumbra só fica evidente quando vem à luz algumas notícias. No momento surgem rumores que uma das gigantes mundiais das telecomunicações, a Deutsche Telecom, pretenderia adquirir as duas empresas americanas mais empenhadas na implantação (já!) das redes de quarta geração, a Sprint e a sua parceira Clearwire. A Deutsche Telecom não esconde sua intenção de adotar o LTE como padrão de suas redes, ao invés do WiMAX como é o plano original que está sendo seguido pelas duas.
 
Interessante é que toda ação gera uma reação. Com a perspectiva de perderem a chance de ter suas próprias redes as empresas que investiram na Clearwire, dentre elas a Intel, Google, Comcast e Time Warner apressaram os aportes de investimento para prosseguir o plano original que capengava por falta de recursos. Boa manobra dos seus dirigentes.
 
Essa guerra ainda terá outras batalhas, mas muitos detalhes jamais serão conhecidos. Como em qualquer guerra quem mais sofre são os soldados que tombaram no campo de batalha em pról de lutas desleais e desprovidas de méritos!

José Luis Frauendorf é consultor em Telecomunicações

PUBLICIDADE
Anterior Andaluzia leva banda larga móvel de um mega a todo seu território
Próximos IBM fecha 2009 com lucro