ZTE busca terceiros para fabricar seus smartphones no país em 2015


Yulun Kan, vice-presidente de terminais para América Latina, Europa e Oriente Médio, considera mercado brasileiro essencial para crescimento global da companhia chinesa, mas planta da empresa em Hortolândia (SP) permanecerá fechada. Estratégia de reentrada prevê dual SIM e tela grande.

Yulun Kan é vice-presidente de terminais para Europa, Oriente Médio e América Latina da ZTE
Yulun Kan é vice-presidente de terminais para Europa, Oriente Médio e América Latina da ZTE

Não é de hoje que a ZTE planeja voltar ao mercado brasileiro. Atualmente, a fabricante de terminais e equipamentos de rede fornece apenas dongles e roteadores no país, em parceria com as operadoras móveis. Todos os produtos são importados da China, apesar de a empresa ter adquirido uma planta em Hortlândia há alguns anos.

Reveses em sua atuação no país quase uma década atrás fez a empresa quase terminar sua operação aqui. Agora, com o Brasil na terceira colocação entre os miores mercados de smartphones no mundo, a companhia arquiteta sua volta.

Yulun Kan, vice-presidente para Europa, África, Oriente Médio e América Latina da ZTE Mobile Devices, comenta a expectativa para o regresso, previsto para acontecer até o final de 2015. Ele descarta a possibilidade de concorrer com Apple, reconhece a dificuldade de ganhar mercado da Samsung, mas vê oportunidade no já concorrido mercado de baixo custo, dual SIM e phablets com TV.

Qual deve ser a nova estratégia da ZTE no Brasil?
Yulun Kan – Nas minhas regiões, o market share da América Latina está indo muito, muito rápido. Brasil é o principal país, o maior mercado na América Latina. Em nossa estratégia, o país é fundamental. Anos atrás começamos a atuar no Brasil. Trouxemos feature phones, e tivemos muito sucesso, um market share de 5%. Mas depois tivemos problemas com a variação cambial. Perdemos dinheiro no mercado por causa disso. Mas para os próximos anos, o país é importante. O país é consumidor de 50 milhões de celulares por ano. Um mercado enorme.

Perderam com feature phones ou em todas as áreas em que atuaram?
Em todas as áreas.

Vocês querem ser o primeiro smartphone do brasileiro?
No Brasil ainda tem muita gente que usa feature phones. Quando você usa um smartphone você amplia as possibilidades do que pode fazer. É uma grande diferença. Mais e mais pessoas desejam o smartphone. Então há uma chance de atender, sim, esse público que vai migrar do feature phone para os smartphones. Entre quem já usa um smartphone, depois do primeiro, eles saltam para um aparelho melhor, mais rápido, com acabamento premium, com plano de dados mais rápido ou maior. Outro movimento comum é mudar para um smartphone com tela maior. A Apple lançou agora o celular deles com tela grande. Steve Jobs dizia que o iPhone original tinha o tamanho ideal, não havia porque ser maior… agora, uns anos depois… Não há como parar a demanda por tela maior.

O brasileiro é tão ávido pelo smartphone com tela grande quanto o asiático?
Sim. Hoje, quando usamos estes telefones, não pensamos somente na voz. Usamos muito mais para ler ou assistir do que para ouvir. Navegamos na internet, assistimos a videos, tiramos fotos, vemos e compartilhamos com os amigos. E não importa se é o primeiro smartphone da pessoa.

Quem compra o primeiro quer também a tela grande de imediato?
Depende do preço.

A ZTE planeja trazer smartphones Dual SIM?
Sim, essa é uma característica muito particular do mercado brasileiro. Aqui há as quatro principais operadoras, e os clientes de diferentes operadoras não querem pagar a mais para conversar entre si, então preferem ter dois SIM Cards, reduzindo os custos. É um diferencial muito bem-vindo.

E vocês estão desenvolvendo um celular para atender o público brasileiro?
Na verdade, em cada país temos características específicas. A ZTE é uma empresa global, temos times nos Estados Unidos, Canadá (engenheiros que desenvolvem o hardware e design mecânico eram da Blackberry), e também Alemanha (design). Estes times criam plataformas em comum. Mas quando são vendidos no Brasil ou na Europa, recebem adaptações. Na América Latina é preciso ter TV Digital ou analógica, mas na Europa, não.

Vocês vão fabricar por aqui smartphones compatíveis com nosso padrão de TV Digital?
Vamos. Mas antes de fabricar aqui, estamos conversando com parceiros para produzir por nós. Estamos discutindo como voltar. No momento, não temos nenhum produto fabricado aqui. Importamos dongles e roteadores, que chamamos black box. Vivo Box, Claro Box são feitos pela ZTE. São produtos atrelados aos planos das operadoras, e revendidos por elas apenas. Nossos planos são de voltar a vender terminais, smartphones, em 2015. Estamos discutindo com fábricas e operadoras para definir qual o produto ideal e a melhor estratégia de marketing para voltar. Mas quando exatamente isso tudo estará definido, difícil dizer.

Há alguns anos a ZTE planeja voltar, e até já disse outras vezes, em montar uma fábrica aqui. O que mudou para agora preferirem pensar apenas em terceirizar?
Já investimos no Brasil. A gente tem uma planta em Hortolândia (SP), mas está parada e a intenção é, por enquanto, apostar no CMP (contract manufacturer partner). Na verdade, temos um terreno, desocupado e temos uma fábrica, que fica dentro do parque da IBM. É uma planta que não produz smartphones no momento. Achamos melhor terceirizar por acreditar que as fabricantes locais já estabelecidas compreendem muito bem o mercado aqui e porque já estão aptas a receber benefícios fiscais do governo. Sem os benefícios, não é possível competir no mercado local.

Algumas operadoras preparam cobertura de 450 MHz para áreas rurais. Vocês pretendem trazer aparelhos LTE que funcionam nessa frequência?
Vai depender dos clientes, da operadora.

Quais os planos de investimentos no Brasil nos próximos anos?
Nossos planos incluem grandes números. Mas nossa volta depende totalmente dos planos e resultados esperados de nossos negócios de handsets. Se lançarmos aparelhos de baixo custo, precisaremos competir pelo preço. Se quisermos atingir o público high end, teremos que gastar muito dinheiro em comunicação. Então a pergunta está ligada à estratégia que adotaresmo, e que ainda está indefinida e sendo debatida internamente.

Mas qual a expectativa para o Brasil? Como analisar sua volta em termos numéricos?
Posso tentar comparar com o México, um mercado similar. Neste ano, no México, nossa receita vai ser de US$ 100 milhões. Lá, investimos US$ 10 milhões em marketing. Quase 10%. Se você for ao México, verá a maioria das lojas com propaganda dos aparelhos da ZTE. O resultado é que, em julho, o Blade L2, de 5 polegadas, foi o segundo modelo mais vendido no país.

Vocês têm smartphones apenas com 3G e modelos com 4G. Como você avalia o ritmo de adoção do LTE no mundo?
Na China, praticamente todo novo telefone tem LTE. Nos EUA, os celulares mais vendidos são todos com LTE. O LTE está se tornando maior a cada mês. O chipset LTE já custa praticamente o mesmo que o chipset 3G.

A disputa de vocês tem sido pela quarta posição em vendas com Xiaomi. Qual a estratégia para superar as concorrentes?
Nós classificamos nossos concorrentes. Primeiro, tem a Apple, que é muito especial. É muito difícil batê-la. É muito difícil trazer para nós um usuário Apple porque são pessoas muito pouco dispostas a mudar de sistema. Esse é o comportamento do consumidor Apple em todos os países. A Apple construiu um celular que tem uma interface própria, aplicações únicas, e que armazena dados dos usuários na iCloud. Quem tentar transferir os dados de um iPhone para um Android vai ver, não é simples! Nem o bluetooth é compatível. Dois telefones Android conversam entre si com Bluetooth. Mas o iPhone só conversa com outro iPhone. É um sistema fechado do qual é difícil largar. E o aparelho também é muito bom, um pouco caro, mas muito bom. Anos atrás, Samsung e outros fabricantes agressivos decidiram que iam competir lançando aparelhos maiores. Durante esse período, conseguiram atrair alguns dos usuários do iPhone. Mas, agora o iPhone 6 está aí, o que dificulta.

O segundo competidor são os fabricantes coreanos e japoneses: Samsung, LG, Motorola e Sony. Samsung é o mais forte, por que não apenas montam o produto, como controlam a fabricação do chipset, do display. Enquanto a Apple tem um ecossistema com software e aplicações, a Samsung tem um controle vertical industrial. E a publicidade da Samsung é a maior. Em todos os países o que mais se vê são propagandas da Samsung. Mas vemos que haverá problemas, agora. No mercado high end, o cenário será difícil para a Samsung. Em muitos países os aparelhos high end recebem subsídios das operadoras para que os aparelhos sejam mais acessíveis. E em muitos países, as operadoras estão cancelando as políticas de subsídios. Nos Estados Unidos, por exemplo, a AT&T e outras priorizam o subsídio para o iPhone.

Superar a Samsung depende não apenas, infelizmente, do produto. O mercado é formado por consumidores. E é necessário gastar mais com comunicação. Marca é tudo. Primeiro, nós tentamos nos aproximar mais do público jovem. Agora, nossa estratégia tem sido alcançar o público executivo.

Vocês apostavam no Firefox OS, foram um dos primeiros a fabricar aparelhos com o sistema. Têm obtido sucesso?
Tecnologicamente, o Firefox OS tem qualidades, como a compatibilidade com o HTML5. Mas, comparado com o ecossistema da Apple ou Android, é muito fraco. No mercado asiático, o Android tem 65% de penetração, enquanto a Apple tem entre 25% e 30%. Os outros têm apenas 5% ou 3%. O Windows no Brasil, porém, conseguiu chegar a 7%, mas agora não tem mais a Nokia… Então, temos uma situação em que apenas duas plataformas dominam o mercado. Não há competição. Por isso operadoras e fabricantes tentam apoiar alternativas, mas os resultados têm sido fracos. Mesmo assim, neste ano, lançamos um aparelho com Firefox OS na Europa ou na América Latina. No Brasil, ano que vem, quem sabe.

 

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