WhatsApp: com backup no Google Drive, mensagens perdem a criptografia


O WhatsApp vai apagar o histórico de mensagens trocadas há mais um ano pelos usuários em celulares Android a partir de hoje, 12. Para preservar as conversas, a empresa recomenda que se faça um backup manual de tudo. O motivo da limpeza geral não foi revelado. Mas foi feita uma parceria para armazenamento automático do backup das mensagens no Google Drive, o serviço de nuvem do Google.

Também a partir de hoje, o Google Drive não vai contar o espaço ocupado pelas mensagens do WhatsApp armazenadas em seus servidores, independentemente do tamanho do arquivo do backup, mesmo que contenha fotos, vídeos ou áudios. O WhatsApp ressalta que o acordo vai facilitar o resgate do histórico de mensagens quando o usuário trocar de celular.

Mas há um porém. O mensageiro, conhecido pela segurança na troca de mensagens criptografadas de ponta a ponta, diz que não será possível aplicar a mesma segurança ao arquivo do backup. Ou seja, o documento exportado para a nuvem do Google não terá o mesmo nível de confidencialidade, embora tenham as garantias de segurança e resistência a invasões e roubo de dados presentes nos termos de serviço do Google.

Clareza

Para a Electronic Frontier Foundation (EFF), o fato contradiz o discurso do WhatsApp de garantir a confidencialidade das comunicações dos usuários. Além disso, falta destaque a essa importante mudança. “Devia ficar mais claro para os usuários que o novo backup vem por padrão e que o conteúdo não é criptografado. Deviam deixar mais claro que a segurança que sempre foram anunciadas com diferencial ficam agora comprometidas”, diz Veridiana Alimonti, analista de políticas para a América Latina da EFF.

A advogada chama a atenção para outro possível efeito colateral da parceria. Como haverá um histórico de mensagens sem criptografia em outro canto da internet, “as autoridades terão como alternativa acionar o Google”. Sim, o Google pode acabar responsável por abrir os arquivos dos usuários do WhatsApp e responder legalmente caso se recuse.

Vale lembrar que o WhatsApp já saiu do ar no Brasil em diferentes ocasiões, após decisões judiciais que mandavam a empresa a entregar o conteúdo de comunicações feitas entre investigados criminalmente no Brasil. A empresa sempre resistiu e alegava ser impossível colaborar dessa maneira por conta da criptografia ponta a ponta, em que a mensagem só é lida pelo emissor e receptor.

Sem criptografia

A possibilidade de backup no Google Drive não é nova. Mas agora ganha impulso com o aviso de que o histórico mais velho será apagado. O WhatsApp ressalta que o backup em outros serviços além do Google Drive também não têm criptografia e diz que os usuários são avisados sobre a limitação.

“Como sempre deixamos claro, se um usuário fizer backup de mensagens para serviços como o Google Drive ou o Apple iCloud, elas não estarão protegidas pela criptografia de ponta-a-ponta do WhatsApp. Mostramos esse aviso para as pessoas dentro do WhatsApp, na tela onde podem optar por fazer backup de suas mensagens para outro serviço”, afirma, em nota. A empresa não comenta, no entanto, as questões jurídicas resultantes da mudança. Procurado, o Google não respondeu.

Para Rafael Zanatta, líder do programa de direitos digitais do Idec, a migração do backup o celular para a nuvem terá mesmo o efeito de permitir aos agentes públicos acionar o Google pela troca de mensagens via WhatsApp. “O que é curioso, pois Alphabet, dona do Google, de certa forma é concorrente do Facebook, dono do WhatssApp”, observa.

Ele ressalta que ações similares já começam a aparecer nos Estados Unidos, e que deve ser questão de tempo para o movimento da Justiça brasileira se dar no mesmo sentido. E alerta que a migração também abre brechas de segurança, facilitando a espionagem por terceiros.

“Existem produtos dedicados a obter os arquivos de backup na nuvem, como um feito pela empresa russa Elcomsoft. As pessoas precisam pensar bem se querem o backup, tomar uma decisão bem informada a respeito, especialmente neste momento, em que o mercado de espionagem digital está aquecido”, ressalta. O Idec cogita elaborar uma cartilha para informar o impacto da migração para os consumidores e elucidar dúvidas.

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