“A voz acabou”, afirma Carlos Blanco, diretor da Telefónica


As operadoras de telecomunicações precisam se reiventar, pois a voz acabou e um novo mundo de acesso à internet está sendo construído, defende Carlos López Blanco, diretor geral de Assuntos Públicos e Regulação e membro do Comitê Executivo da Telefónica.

Ele  integra também o Comitê Executivo da Telefónica
Ele integra também o Comitê Executivo da Telefónica

As operadoras de telecomunicações precisam se reiventar, pois a voz acabou e um novo mundo de acesso à internet está sendo construído, defende Carlos López Blanco, diretor geral de Assuntos Públicos e Regulação e membro do Comitê Executivo da Telefónica.

Se ele não sabe ainda qual é o novo papel dos operadores, tem certeza de que as redes são a fortaleza dessas corporações. Acredita que o movimento de concentração do setor é primordial para manter a concorrência e defende que a competição com as empresas da internet deve se dar nas mesmas bases, quando se tratar de serviços iguais. Observa ainda que, se a maioria dos internautas já  migrou do Hemisfério Norte para o Sul, os governos devem traçar políticas que estimulem o surgimento de empresas fortes nesses países.

Defende com vigor a implementação de regras equânimes – seja do consumidor seja de defesa da concorrência – para serviços iguais – como o de mensagem. E alfineta: “ O Google é muito pródigo em anunciar construção de redes, mas não em nelas investir”. Leia a entrevista:

Tele.Síntese – O grupo Telefónica tem se manifestado com frequência sobre a necessidade de sustentabilidade das operadoras de telecom. Por que esta preocupação?

Carlos López Blanco – Creio que nós estamos em meio de uma grande transformação. O setor de telecom já não existe como o conhecemos e isto implica mudança para todos. Temos que entender este mundo novo e quais são os problemas para operadores, reguladores e governo.

Tele.Síntese- Já sabe qual é o novo papel dos operadores de telecomunicações?

Blanco – Não. Se soubéssemos com clareza, já estaríamos com outro diálogo. Mas sabemos que  a fortaleza dos operadores continua a ser as redes. Neste novo mundo, as redes são indispensáveis, pois os serviços que circulam sobre elas movem a demanda e dinamizam o mercado. Temos que entender também que a voz acabou e, portanto, o que fazemos é outra coisa. Hoje não estamos mais oferecendo serviço de voz, mas acesso à internet. E o operador tem que dar acesso à internet cada vez em melhores condições. Isto significa que temos que seguir mantendo o nível de qualidade das redes, que temos que seguir aumentando as velocidades das redes, e oferecer plataformas que permitam aos clientes ter um acesso cômodo, rápido a novos serviços e novos produtos. Este é o novo papel dos operadores de telecom que precisamos entender.

Tele.Síntese – Mas a prestação dos serviços não é papel dos OTTs?

Blanco – Estamos falando de plataforma de acessos e não de serviços finais. Temos que nos converter em grande distribuidores de serviços de internet. Queremos ser grande veículo de contato entre os clientes e os serviços de internet. Com serviços próprios e serviços de terceiros.

Tele.Síntese – E por que advoga a consolidação como uma das saídas para este novo modelo?

Blanco – Este setor também mudou para ser global. E isto traz exigências para todos: para operadoras, reguladores e governos. Precisamos entender que o marco de referência mudou radicalmente. Junto com os operadores de base nacional e base local há empresas que competem com estrutura global. Para se construir redes com capacidades maiores para oferecer plataformas de serviços de acesso a internet, é necessário que os operadores tenham o tamanho necessário para isto. Esta questão está bem entendida nos Estados Unidos, na China e não é bem compreendido na Europa. Os operadores precisam de capacidade para competir no mundo global e precisam de escala e tamanho

Tele.Síntese – Mas a consolidação diminui a competição

Blanco – Na Europa, estamos entendendo que menor número de operadores não significa menor competição. São duas discussões distintas: qual dever o tamanho e capacidade dos operadores para investir e oferecer melhores serviços;  e qual deve ser a competição. Não acreditamos que o número de operadores determine a condição da competição. Pensamos que operadores fortes, capazes de competir em rede e competir em infraestrutura é o melhor para os usuários, pois há mais inovação, mais desenvolvimento de serviços e mais qualidade de serviços.

Tele.Síntese – Mas na América Latina há uma percepção de que o número de competidores afeta o preço e a qualidade do serviço. E o serviço de telecom no Brasil em particular ainda recebe muitas críticas do órgão regulador e dos usuários.

Blanco – Menor número de  operadores  não tem porque ser confundido com menor qualidade de serviço. Ao contrário, competidores que não podem investir em fibra óptica, em frequência, ao final tem como consequência menor qualidade de serviços para os usuários. Entendemos que operadores com mais capacidade de investimentos geram maior qualidade dos serviços. E aí é onde deve estar a responsabilidade dos reguladores para garantir a concorrência e a qualidade do serviço. A qualidade do serviço é uma responsabilidade dos governos.

Tele.Síntese – Por quê?

Blanco – Porque são os governos que precisam determinar a qualidade dos serviços que a sociedade quer. Mas a dinâmica desta qualidade, deve ser deixada pela concorrência. Não é por acaso que nos mercados mais maduros, a qualidade se consegue na concorrência e não pela regulação muito estrita. Nos Estados Unidos, a qualidade é muito boa e não há norma regulando esta questão. Na Europa também não.

Tele.Síntese – Qual o papel dos reguladores, então, para este novo mundo?

Blanco – Muito importante. Eles precisam entender que é necessário atualizar a regulação e torná-la mais flexível, mais ágil. Que possibilite aos operadores investir cada vez mais para se adaptarem as novas exigências do mercado. Os reguladores precisam entender também que, neste novo mercado, há novos competidores. Não podem permitir que empresas que estejam competindo com o mesmo serviço estejam submetidas a regras diferentes. Não achamos que seja uma boa ideia estabelecer regras específicas para a internet. Mas defendemos que a legislação de proteção dos consumidores deve ser aplicar também na internet. A lei da concorrência também deve ser aplicada a todos.

Tele.Síntese – O mundo da internet traz a inovação. Levar o mundo de telecom para a internet, não é arriscado?

Blanco-Creio que a fortaleza das empresas de telecom está na rede, em oferecer serviços a partir dela. Não de competir diretamente com novos serviços de internet.

Tele.Síntese – Mas quando imagina regras simétricas para mundos diferentes..

Blanco – Não são mundos diferentes. As vezes são, as vezes não. Empresas de internet também prestam serviços de telecomunicações. Não estamos pedindo que se regulem nem que se limitem. Pelo contrário. Mas quando esses serviços de telecomunicações – que não estão regulados – sejam prestados, que pelo menos as normas gerais de proteção dos consumidores e direito da concorrência se apliquem. Quando um serviço de comunicação por app ficar desligado por 24 horas, que pelo menos os usuários tenham um telefone para reclamar. Isto não é pedir muito. E hoje, não tem. E uma dessas empresas foi vendida por US$ 20 bilhões. Queremos que empresas que, no mundo digital, tenham participação 80% do mercado dos sistemas operacionais, também respondam às  autoridades de concorrência.

Tele.Síntese – Estas reivindicações não deveriam partir dos consumidores? Eles não parecem estar levantando esta bandeira

Blanco– Mas os consumidores estão se manifestando. Na Europa,  cada vez mais os problemas da privacidade estão se tornando importantes. As pessoas estão começando a entender que as empresas não pagam seus impostos como as demais. Começam a entender que há empresas que prestam serviços aparentemente gratuitos, mas que são vendidas por valores astronômicos. Se atingem cifras astronômicas é porque os serviços não são gratuitos. Cada vez mais os usuários terão mais consciência. E nós, operadores, temos a responsabilidade de abrir o debate.

Tele.Síntese – Qual regulador deve tratar dessas questões?

Blanco – Não estamos pedindo novas regulações. Se há legislação de defesa do  consumidor e da concorrência,  é preciso ser usada. A Comissão Europeia abriu várias investigações sobre sistemas operacionais no celular e publicidade na internet. Não queremos que se invente nada, já está tudo criado. Há legislação de defesa do consumidor, há legislação da defesa da concorrência. E é isto que as autoridades devem fazer.

Tele.Síntese – Qual deve ser o novo papel dos  governos?

Blanco – Os governos precisam entender que neste novo mundo há uma extraordinária concentração de poder. No mundo da internet houve duas mudanças nos últimos anos: ela está deixando de ser fixa para se móvel e está deixando o hemisfério Norte e se mudando para o Hemisfério Sul em número de internautas.  Há 10 anos, 80% dos usuários estavam no Norte, hoje, estão no Sul do planeta. Mas empresas que dominam a internet, todas estão em um único país. Os governos precisam praticar políticas do ponto de vista industrial e do desenvolvimento da economia digital para que também esses países consigam criar empresas fortes no mundo da internet.

Tele.Síntese – Não é contraditório você alertar para a concentração da internet, enquanto as telecomunicações também caminham para esta concentração?

Blanco – Não é contraditório. Os níveis de concentração são muito distintos. Estamos falando de empresas globais a nível mundial. Estamos falando de empresas que tem  operações em todos os países do mundo e que pagam muito poucos impostos em qualquer um deles e tem muitos poucos empregados. E as telecomunicações, estamos falando empresas que tem operações locais. As duas empresas mais diversificadas do setor de telecom não alcançam 25 países e com cotas de mercado de no máximo 35% a 40%. Não estamos dizendo que o mundo da internet não deve haver grandes jogadores globais, eles devem existir. O problema é que eles estão competindo com regras distintas. E é isto que nos preocupa. Um exemplo desta diferença: o regulador da Espanha impôs às operadoras de telecom uma multa conjunta de mais de 200 milhões de euros por restrição de concorrência no mercado de SMS. Quando esta decisão saiu, a participação de mercado de todas as empresas de telecom no serviços de mensagem era de 8%.

Tele.Síntese – O Google anunciou no Brasil a construção conjunta de cabo submarino com outras operadoras de telecom. Em um movimento inverso.

Blanco – O Google é muito mais pródigo em anunciar construção de rede do que realmente em investir em rede. O Google não vai investir nunca em infraestrutura para competir com as telcos, porque é um negócio difícil e não permite competir em escalda global. Veja os resultados do Google de investimentos em redes, eles são insignificante.

 

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