Uma telemedicina do tamanho do bolso do Brasil


{mosimage}Quando se fala em telemedicina, parece se tratar de uma técnica que implica sofisticadíssimos equipamentos. Até implica. Mas não, necessariamente, no país, explica em entrevista ao Tele.Síntese, o coordenador da disciplina na Medicina da USP, Chao Lung Wen. Conexão discada também serve. E, destaca, mais importante do que tecnologia é gente. E educação.

Antes de ser médico, Chao Lung Wen era um aficcionado por informática. E foi de informática que ele deu aulas para ajudar a pagar a universidade. Hoje, não é pelo fato de a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) dispor das mais sofisticadas tecnologias e sistemas para suportar a telemedicina que Chao, coordenador-geral da disciplina na FMUSP, defende esse como o melhor modelo para o país. Assim, por exemplo, para uma telemedicina de baixo custo, a simples conexão discada é suficiente.

Em entrevista ao portal Tele.Síntese, o médico e professor explica por que: “Desenvolvemos um sistema chamado ambulatório virtual na internet, que foi feito especialmente para a realidade da linha discada.” Mas além desse modelo, acrescenta, a equipe de quinze pessoas (três delas médicos) que desenvolve soluções na escola, também produziu modelos para banda larga e para sistemas de alta complexidade. “Quando começamos a desenvolver o sistema de baixo custo, já estávamos prevendo que 70% das localidades brasileiras precisam de baixo custo, e não de alta tecnologia”, arremata ele.

Chao diz mais: se a tecnologia é importante, gente é imprescindível. Essa foi a origem do Projeto Jovem Doutor, idéia que nasceu na FMUSP: estudantes de áreas médicas passam noções de prevenção de doenças para alunos do ensino médio de áreas carentes, e eles, por sua vez, vão retransmitir essas noções para os colegas e para a família. É nesse processo, acredita ele, que essas comunidades podem começar a mudar seus hábitos, o que deve contribuir para diminuir a incidência de doenças, reduzindo os custos com a saúde no país. O principal instrumento desses cursos é o Homem Virtual, modelos do corpo humano criados em computação gráfica e distribuídos em CD-ROM. O Jovem Doutor é, segundo Chao, uma forma mais barata de colocar em prática os conceitos da telemedicina, que só há cerca de dois anos começou a receber a atenção do poder público.

Tele.Síntese – Quando a telemedicina começou, no Brasil, e quais as suas aplicações?
Chao Lung Weng – Na Faculdade de Medicina da USP, a telemedicina começou em 1997. Mas, com equipamento de videoconferência, só a partir de 2002, porque, antes, era muito caro. Por isso, nós desenvolvemos a telemedicina de baixo custo, usando a internet.

Tele.Síntese – A iniciativa contou com algum tipo de apoio ou aporte de recursos?
Chao – Só no fim de 2004 para 2005, foi que passamos a ter uma participação governamental. Mas, desde então, foi criada a comissão permanente em telemedicina, no Ministério da Saúde; há um trabalho com a Secretaria de Educação à Distância, do MEC; o Ministério de Ciência e Tecnologia liberou R$ 5 milhões  para desenvolver e expandir a telemedicina. Temos, ainda, a Rede Nacional de Educação e Pesquisa, da RNP, que também dispõe de mais R$ 5 milhões.

Tele.Síntese – Em que estágio estamos, afinal?
Chao – Nem tudo está, efetivamente, implementado. Mas o importante é que o Brasil tem modelos muitos bons que, inclusive, podem ser compartilhados com outros países. Modelos que são adequados às disponibilidades do país, porque, se quisermos usar recursos de alta complexidade para universalizar os cuidados com a saúde da população, não há dinheiro que chegue.

Tele.Síntese – Então, qual a melhor estratégia?
Chao – Educação. Educação para mudança de comportamento. Isso é o que acho que resolve o problema, de fato. E a telemedicina possibilita que se atenda às pessoas na fase precoce e não na fase tardia. Pode ser usada, por exemplo, para ouvir uma segunda opinião médica, a distância, mas também como meio para motivar a população a mudar os seus hábitos, para que tenha uma vida mais saudável.

Tele.Síntese – Mas como isso pode chegar à população?
Chao – Uma de nossas idéias é o Projeto Jovem Doutor. Os meus alunos de Medicina, Odontologia, Enfermagem, etc., que aprendem noções de prevenção de doenças, vão até as escolas de ensino médio e repassam essas noções para um grupo de alunos que, por sua vez, fazem palestras para seus colegas de escola. É dessa forma que, com o tempo, esses jovens vão conseguir mudar os hábitos de sua comunidade.

Tele.Síntese – O Jovem Doutor está no país inteiro?
Chao – Ainda não. Estamos começando a desenvolver o projeto. Estou pedindo apoio do Ministério da Educação e do Ministério da Saúde porque nós não podemos escolher um tema aleatoriamente. É importante escolher temas relevantes para a atenção primária do Ministério da Saúde e, também, é importante o acordo com o MEC, para que os alunos do ensino médio recebam um certificado como colaboradores do Jovem Doutor.

Tele.Síntese – Há alunos de outros cursos no projeto?
Chao – Os de Medicina, sozinhos, não são suficientes. É preciso que o aluno vá conhecer a realidade. Isso é um exercício de cidadania. Mas é preciso que vá junto com um aluno de Arquitetura, por exemplo, ou de Engenharia, para que possam oferecer a essas populações as informações sobre como elas podem melhorar a sua vida. Um exemplo: muitas pessoas asmáticas moram nas favelas e, nos barracos, há muitas áreas com mofo, por causa da umidade. Se você pegar um pouco de cal com água e pintar a área mofada, você já reduziria mais ou menos em 70% a reincidência de uma crise de asma.

Tele.Síntese – Quando esse projeto começou a funcionar?
Chao – O Jovem Doutor está no começo. Para ajudar na sua implementação, temos pronto, hoje, o programa Homem Virtual, que consiste em modelos criados por computação gráfica, em terceira dimensão e com movimentos. Representa o ser humano de forma completa – estruturas macro e microscópicas, interna e externamente, de ambos os sexos e variadas faixas etárias. O Homem Virtual é produzido por módulos, de acordo com o tema abordado, seus objetivos e público-alvo. Cada módulo é distribuído em CD-ROM. Esse material permite ao aluno de Medicina ilustrar sua aula para os jovens do ensino médio.

Tele.Síntese – E depois?
Chao – Depois que o aluno de ensino médio aprendeu, o estudante de Medicina dá o programa de presente para a escola, e o aluno de ensino médio vai passar a usá-lo nas suas palestras para a comunidade. Com isso, ele consegue manter a qualidade e a precisão da informação. Homem Virtual é um projeto da Faculdade de Medicina da USP e foi criado, em 2003, para facilitar a comunicação médico-paciente. Mas, além disso, o Homem Virtual pode ser utilizado no próprio ensino nas áreas médicas, no treinamento de agentes comunitários de saúde e até para campanhas de esclarecimento para a população em geral.

Tele.Síntese – Para usar o Programa Homem Virtual, que equipamentos as escolas precisam ter?
Chao – Só computador.

Tele.Síntese – Não é necessário estar conectado à internet?
Chao – Para isso, não, porque é um CD-ROM, que roda num computador local. A ligação com a internet só será necessária quando os alunos precisarem interagir a distância.

Tele.Síntese – O Jovem Doutor começou em 2006?
Chao – Sim, porque nós temos um projeto chamado Telemedicina dos Doutores Mirins, apoiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, coordenado pela Faculdade de Medicina da USP e com a participação de mais oito instituições. Na Medicina, começamos a pensar em como usar a tecnologia para melhorar a qualidade da vida da população. E chegamos à conclusão de que poderíamos seguir por dois caminhos: o primeiro seria por meio de um estágio rural multiprofissional, uma espécie de Projeto Rondon, em que os alunos visitariam  comunidades rurais, levando micros. Eles poderiam aproveitar para promover a inclusão digital da comunidade, ao mesmo tempo em que fariam um trabalho de medicina preventiva.

Tele.Síntese – Qual a segunda opção?
Chao – O Projeto Jovem Doutor. Na Faculdade de Medicina, estamos nos estruturando para isso. O que pretendemos com o projeto? Fazer o país reconhecer que ele perde muito dinheiro pelo fato de não saber valorizar o seus estudantes: um estudante de ensino médio e um aluno de ensino superior são, na verdade, pessoas suficientemente preparadas para exercer algumas funções, com responsabilidade.

Tele.Síntese – Mas dá um certo trabalho aculturar as pessoas, não?
Chao – Exatamente. É preciso criar uma coisa chamada sustentabilidade. E a sustentabilidade tem que ser trabalhada por meios que possam demonstrar o reconhecimento pelo trabalho do aluno. Por exemplo, os nomes desses alunos podem ser inscritos nos livros do MEC e do Ministério da Saúde, em que são reconhecidas as 14 profissões que fazem parte da área da saúde. Não adianta inventar coisas mirabolantes e ir pedir dinheiro ao governo, que nem sempre tem. O que precisamos do governo é um apoio institucional, para publicar um livro desse tipo. Aí, podemos chegar para a iniciativa privada, e pedir doações de bolsas, de R$ 100,00, R$ 150,00. Seria um prêmio para incentivar nossos jovens.

Tele.Síntese – Além da Medicina da USP, em quantos outros está implantada a telemedicina? E a abordagem é a mesma?
Chao – A abordagem não é a mesma. Nós ainda estamos difundido nosso modo de trabalhar. Hoje, podemos dizer que há, pelo menos, dez centros trabalhando com telemedicina. Mas a maioria utiliza o processo para cirurgias a distância e para segunda opinião. Esperamos que, com o Ministério da Saúde nos apoiando nesse projeto da atenção básica, até o final do ano que vem todos os estados tenham pelo menos duas universidades com grupos trabalhando em telemedicina.

Tele.Síntese – Para montar esses grupos, o que é preciso? Equipamento, material didático?
Chao – O mais importante é gente. Gente comprometida. Material didático nós podemos fornecer. Para começar um trabalho desse tipo, eu preciso de uma sala, um espaço físico e de dois ou três professores responsáveis, que vão interagir conosco. O equipamento vamos conseguir, porque, dentro desse projeto do Ministério da Saúde, já há uma previsão de recurso mínimo para montar um laboratório.

Tele.Síntese – Como vai montando? Começa por onde?
Chao – O que eles precisam me fornecer é cabeamento, ou rede, ou linha telefônica, para que se possa fazer a discagem. Se tiverem dois ou três micros, está ótimo. Quando é preciso, no caso da Santa Casa, por exemplo, eu empresto o equipamento de videoconferência. Depois que a estrutura mínima é ligada, eles começam a fazer as atividades, e essas atividades começam a sensibilizar outros médicos. É por isso que, sem os médicos responsáveis, não se consegue sensibilizar toda a comunidade e, se não sensibilizamos a comunidade, a telemedicina não vai nascer.

Tele.Síntese – A conexão discada é suficiente?
Chao – Para a telemedicina de baixo custo, é. Porque nós desenvolvemos um sistema chamado ambulatório virtual na internet, que foi feito especialmente para a realidade da linha discada. Mas temos modelos para linha discada, para banda larga e para sistemas de alta complexidade. Quando começamos a desenvolver o sistema de baixo custo, já estávamos prevendo que 70% das localidades brasileiras precisam de baixo custo e não de alta tecnologia.

Tele.Síntese – A telemedicina, então, não é sinônimo de sofisticação tecnológica?
Chao – É por levar em conta a situação da população e do país, que eu não defendo que todo mundo tenha videoconferência. Nós precisamos racionalizar a saúde, começando com a telemedicina pela internet, por linha discada, indo para a banda larga, para, depois, pedir videoconferência. Além disso, às vezes, a taxa de uso de um equipamento desses não é grande. Para comprá-lo, gasta-se muito dinheiro, e logo ficará obsoleto. Há outras escolas que focam muito em equipamentos, focam muito em buscar a segunda opinião de especialistas, o que eu não gosto muito.

Tele.Síntese – Por que?
Chao – Corre-se o risco de médicos ou outros profissionais da saúde das áreas distantes se acomodarem, e ficarem sempre pedindo a segunda opinião. O Brasil precisa formar gente, e não criar um laço de dependência através da telemedicina.

Tele.Síntese – E quando muda o governo?
Chao – A impressão que eu tenho que isso é meio irreversível, que tanto este governo quanto o próximo vão enxergar que isso reduz custos, porque a idéia é aliar a inclusão digital à prevenção, e usar a agilidade dos processos educacionais para reduzir o custo da saúde. Acho que é um processo que vai andar, e o Brasil tem a chance de desenvolver um projeto tão bom quanto o da urna eletrônica. E, depois, vamos procurar parcerias. O importante é que quase todas as ferramentas nós já temos. Não é uma utopia.

Tele.Síntese – Quem tem? A USP?
Chao – A USP tem, mas estamos cedendo para outras universidades. Por exemplo, no caso da cidade digital de Parintins (AM), enquanto a Intel doava os equipamentos, eu estava transferindo as soluções tecnológicas para a Universidade de Manaus. Estamos fazendo o mesmo para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS), e vamos para o Rio de Janeiro. A USP tem suas tecnologias, mas pode ser que outras universidades tenham as suas.

Tele.Síntese – Quantos pessoas trabalham com telemedicina na USP?
Chao – Quinze pessoas, das quais apenas três são médicos. Mas com essa equipe é possível atender a todo o complexo do Hospital das Clínicas em sua área de 150 mil metros quadrados que estão conectados por telemedicina. Para realizar eventos via videoconferência, distribuímos os 14 equipamentos que temos entre os diversos prédios, incluindo o Hospital Universitário e o Centro de Saúde do Butantã.

Tele.Síntese – Que rede vocês têm?
Chao – Montamos uma rede própria, que chamamos de rede EPesq (educação e pesquisa). Neste momento, o HC é o único complexo hospitalar que tem uma rede própria, só para telemedicina. Tudo em fibra óptica.

Tele.Síntese – Rádios comunitárias ou telecentros podem fazer parte dessa rede, para divulgação de informações de saúde?
Chao – Podem. Temos que motivar os gestores de telecentros e rádios comunitárias a participar. É aí que entra a nossa idéia das parcerias. Também é preciso que os meios de comunicação divulguem informações que vão sensibilizar os gestores, mostrando que são atitudes simples, que não lhes custarão nada. É só abrir a porta. No caso das rádios comunitárias, poderíamos dar a elas pequenos programas, de um minuto ou pouco mais, com uma série de informações para serem divulgadas em intervalos de programação. Esse é um trabalho de resistência e continuidade. A minha expectativa é que será preciso pelo menos um ano de sensibilização, e que, em 2008, esse projeto esteja a pleno vapor.

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