Uma nova geopolítica na UIT


A inexpressiva votação do brasileiro Roberto Blois para o mais alto posto da União Internacional de Telecomunicações (UIT) (ele teve apenas 29 votos na primeira rodada e, na segunda, acabou perdendo aliados,  somando apenas 24 votos), de um total de 155 países  votantes, além de motivar a busca das razões para tão pífio desempenho, obriga a uma avaliação do papel que o país tem cumprido – ou deixado de cumprir – em fóruns internacionais do setor.  

As razões para a derrota de Blois, que compartilhava há oito anos a direção da organização com o  grande vitorioso ao posto de secretário-geral  – o africano  Hamadoun Touré – somam um grande número de explicações. Mas uma delas se destaca pelo simbolismo que representa.  Essas eleições ficarão marcadas pela inconteste vitória  da vontade chinesa, embora o país não estivesse pleiteando o cargo mais importante, mas, sim o cargo atualmente ocupado pelo brasileiro, a vice-secretaria.

Pela primeira vez, os países africanos, mesmo aqueles de língua portuguesa, que tradicionalmente aliam-se ao Brasil, votaram unidos pelo outro preferido. E o que  China tem com isso?  Tudo. O país, inteligentemente, não pleiteou o cargo mais importante, apoiou o indicado de um país do terceiro mundo e angariou os votos dos pequenos países asiáticos para esse nome. Em contrapartida, assegurou, pela primeira vez, o ingresso de seu representante, Houlin Shao,  no board da organização.

Conforme avaliação de empresários brasileiros, a China conseguiu unificar um continente tão dividido não apenas com ações diplomáticas, mas com muito, muito investimento na África. Comenta-se que a China investiu, nos últimos tempos, mais de US$ 5 bilhões de suas reservas em diferentes países africanos. Infra-estrutura, redes, vias de comunicação, ou, em outras palavras, tecnologia chinesa.

 Segundo relatos de autoridades brasileiras, até mesmo a câmara legislativa de Cabo Verde foi construída com recursos chineses. “É uma nova geopolítica. A China não é mais a ameaça futura. Ela  veio para ficar”, constata um empresário nacional que há anos participa desse fórum de deliberação.         

Se a China trabalhou bem pelos seus interesses, por que o Brasil não conseguiu angariar o apoio de outros blocos econômicos? Obviamente, recursos para tal empreitada  o Brasil não teria, mas talvez, alguns erros do passado repercutiram agora, analisam alguns interlocutores.

Embora se fale a boca pequena – mas sem que se possa comprovar, porque, afinal a votação é secreta – corre no setor que o candidato brasileiro perdeu os votos, pelo menos na segunda rodada, de países cisplatinos. E razões talvez não faltassem. Afinal, nesse mundo globalizado os interesses locais não são, nunca, esquecidos. Será que não foi a hora de a delegação uruguaia dar o troco à posição brasileira do passado, quando lançou candidato próprio para a Organização Mundial do Comércio (OMC) e, mesmo depois de derrotado, se recusou a apoiar o candidatíssimo uruguaio?

Como assinala um ex-ministro que participou duas vezes dessas votações, muitos são os caminhos para se angariar apoios nesses fóruns internacionais mas, certamente, um dos mais eficientes é a troca de apoios. Saber o que negociar e o que oferecer é uma arte que depende, obviamente, das prioridades governamentais.

É importante que o setor volte a ser visto, pelo governo,  como uma área estratégica. De nada adianta, depois da derrota, o país comemorar ter sido o mais votado para continuar ocupando uma das 46 vagas do conselho da UIT, se não passar a ter voz ativa nesse fórum.

A Anatel é a responsável, por lei, por representar o país. Isso significa que agência não poderá deixar de participar das reuniões, dos grupos de trabalho, das conferências porque não tem verba sequer para pagar a passagem de seus técnicos, como muitas vezes ocorreu nesses últimos anos.

E ter voz ativa não se restringe apenas a estar presente. É preciso ter propostas. É preciso formular saídas, é preciso ter a capacidade de se antecipar aos inúmeros desafios que as mudanças tecnológicas impõem aos governos, aos Estados, à sociedade, à cidadania. Enfim, é preciso ser um interlocutor à altura de nossas expectativas.   

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