TV paga no Brasil sofreu com os “cord cutters” em 2018, diz Amdocs


OTTs já estão em 39% dos lares, contra penetração de 26% da TV paga, calcula a Amdocs. Migração de clientes deve continuar, enquanto diferença de preços entre os pacotes de TV e a assinatura dos serviços de streaming for alta. Netflix domina o mercado de SVoD.

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A base de TV paga brasileira encolheu em 2018. O fenômeno tem forte relação com a crise econômica, que levou usuários de planos mais baratos a deixarem de lado os serviços, e obrigou as operadoras a retirar de seus cadastros aqueles clientes tradicionais do modelo pré-pago e subir a nota de corte dos inadimplentes.

As empresas, porém, frequentemente afirmam que não houve influência de um fenômeno conhecido por “cord cutting”, em que os assinantes preferem trocar a TV a cabo ou por satélite tradicional por aplicativos de conteúdo (SVoD ou OTTs).

Mas levantamento recente feito pela empresa Amdocs, que fornece soluções para operadoras de TV, mostra o contrário. Houve, sim, em 2018 no Brasil muita gente que trocou o plano de TV paga pelo SVoD.

A Amdocs reuniu dados do segmento em 14 países, inclusive aqueles onde os cord cutters sabidamente têm influenciado o mercado. Enquanto mundo afora cresce a quantidade de assinantes de TV, na América do Norte, onde a troca por OTTs é mais intensa, houve retração e desligamento. Na América Latina, houve mais desligamentos que novos acessos. E no Brasil, onde a penetração da TV paga é considerada pequena (apenas 26% das casas), houve uma retração de 3,9% na base. Para Jesus Luzardo, head de marketing da Amdocs para a América Latina e Caribe, apenas a crise não explica o cenário.

“Houve impacto dos cord cutters no mercado brasileiro. O que se vê, pela penetração da TV por assinatura, é que aqui há um enorme potencial, mas houve retração”, diz. Ele reconhece que a economia foi responsável por fazer o mercado patinar, mas diz que diante da instabilidade financeira, o brasileiro trocou a TV paga pelo SVoD, num movimento típico de cord cutter. A troca se deu para economizar, mas também em busca do conteúdo desejado.

A pesquisa da Amdocs indica que enquanto o mercado de TV por assinatura deve ficar estável até 2022 na região, para os OTTs, será de crescimento exponencial, num indicativo que eles conseguirão atrair clientes que nunca sequer assinaram contrato com uma operadora de televisão. Para se ter uma ideia, o SVoD vai crescer de pouco mais de 20 milhões de usuários na América Latina em 2018, para 35 milhões em 2022.

“No Brasil, para cada contrato perdido por uma operadora de TV em 2017, os SVoD conquistaram três novos”, diz Luzardo.

Netflix, o rei do pedaço

Um aplicativo em especial domina o setor. A Netflix é líder absoluta, e está presente em 24% das residências com alguma assinatura SVoD. A penetração só cresce, e tende a continuar assim, na medida em que o preço é muito mais baixo que o dos pacotes de TV. Pelos cálculos da Amdocs, em 8% das casas com uma assinatura do Netflix os usuários consideram o serviço a principal forma de entretenimento televisivo.

Mas o brasileiro já começa a ter mais de um SVoD. Aqui, há média de 1,3 serviços OTT em uso por residência, e em 39% das casas há algum acesso a serviço do tipo – sim, há mais lares com Netflix e congêneres do que com TV por assinatura.

E o fênomeno do cord cutter é mais ameaçador na medida em que o cliente consegue assinar várias OTTs gastando menos que com um plano de TV paga. Segundo a Amdocs, a ameaça econômica é real, e as operadoras estão com preços muito altos para competir com os serviços de streaming. Com o mesmo valor, um cliente de TV por assinatura consegue assinar até 4,6 plataformas de streaming no Brasil. Somos o país onde esta relação é a mais alta, dentre os 14 países citados no levantamento.

A Itália é o segundo país com mais alta relação do ARPU da TV paga / ARPU dos OTTs. Ali este índice é de 3,2, e nos EUA (o terceiro do ranking), é 2,5. Conforme Luzardo, se as operadoras quiserem manter o mercado de mídia, precisam reduzir isso a menos de 2,3. E se quiserem até roubar clientes das OTTs, precisa chegar numa relação inferior a 1,5.

Brasileiro gasta muito

A pesquisa da Amdocs revela também que no Brasil, quem tem TV paga, paga também por algum OTT. Cerca de 61% dos assinantes de TV tem uma assinatura de SVoD em uso. Aqui, a média de gasto dos usuários de serviços de TV (seja por cabo, seja por streaming) fica em média nos R$ 250.

A Amdocs ouviu 2,5 mil usuários de TV e streaming no mundo, inclusive no Brasil, no final de 2018, para traçar detalhes do comportamento. E descobriu que, no que depender do brasileiro, há disposição de pagar até R$ 151 a mais do que se gasta atualmente para obter o pacote ideal de TV, com todo o conteúdo desejado. Somos o povo disposto a gastar mais para ter mais conteúdo. Também somos o povo que mais aceita a opção de pagar para ter acesso imediato a um show ou primeira transmissão de algum conteúdo, em um modelo sob demanda (pay-per-show).

A pesquisa também identificou que a TV paga já está em desvantagem na preferência dos clientes quanto o assunto é programação, excluindo-se conteúdos ao vivo. Para 50% dos ouvidos no Brasil, os OTTs trouxeram os programas de TV favoritos no último ano. A TV paga tradicional tem os shows favoritos para 41% dos respondentes.  E 9% se contentaram com a TV aberta.

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