TV digital: as próximas disputas


10/03/2006 –  A definição do padrão da TV digital, que não deve ser tomada amanhã mas  ainda neste mês, segundo tem dito a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não vai acabar com o embate entre os vários players envolvidos. Porque, embora a escolha do padrão possa favorecer o modelo de negócios defendido pelos radiodifusores …

10/03/2006 –  A definição do padrão da TV digital, que não deve ser tomada amanhã mas  ainda neste mês, segundo tem dito a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não vai acabar com o embate entre os vários players envolvidos. Porque, embora a escolha do padrão possa favorecer o modelo de negócios defendido pelos radiodifusores e criticado pelas operadoras de telecom e por entidades de defesa da democratização das comunicações, no caso do europeu DVB (embora os representantes da SET não concordem) e do japonês ISDN as possibilidades de modelos de negócios são múltiplas. Especialmente no japonês, que é o mais flexível como reconhecem diversos especialistas.

Então, vencida a etapa atual – de negociação das contrapartidas comerciais, tecnológicas e de política industrial –, a disputa entre os players vai enfrentar dois novos rounds: a adequação da política regulatória e o modelo de negócios. Os dois temas deverão ser analisados por câmaras interministeriais a serem criadas pela Casa Civil. No que diz respeito à política regulatória, uma das questões mais relevantes é a política de canalização. A Anatel já elaborou uma proposta mas a decisão, mais uma vez, não é só técnica. É política na medida em que o país vai decidir o número de canais, se mantém o quadro atual de emissoras ou se ele será alterado.

A construção do modelo de negócios passa pela definição se as emissoras vão ou não fazer mobilidade no mesmo canal, se haverá ou não um operador de rede, se o canal terá mono ou multiprogramação, se será monocasting ou triplecasting, ou seja, a emissora transmite, no canal digital, em formato high definition e standard definition e,no canal analógico, em formato analógico. Cada uma dessas questões tem corrente contra e a favor. No caso do triplecasting, por exemplo, Liliana Nakonechnyj, vice-presidente da SET e diretora de telecom da Rede Globo, é contra porque diz que a qualidade do transmissão em high definition fica muito prejudicada. Já Ricardo Benetton, diretor de TV digital do CpqD, defende a adoção do triplecasting como forma de acelerar a penetração da TV digital junto às camadas com menor poder aquitivo, que só vão poder pagar pelo setop box para o standard definition, muito mais barato. Pelo estudo feito pelo CpqD, a penetração nas classes C,D e E passa de 50 para 90%, em 15 anos. E Benetton assegura que, com a compressão MPEG 4, é possível fazer o multicasting com qualidade.

Política industrial

Como sempre se soube, o que vai definir a escolha do padrão são as contrapartidas comerciais (não cobrança de royalties, financiamento às emissoras, investimentos no país) e tecnológicas (participação brasileira no comitê de definição do padrão, incorporação de desenvolvimentos brasileiros como sistema de compressão MPEG 4, middleware e aplicativos), ambas relacionadas à política industrial que o governo quer construir a partir das oportunidades trazidas pela plataforma digital, como a implantação de uma fábrica de semicondutores do Brasil.

No cenário atual, os que mais avançaram na oferta de contrapartidas são os japoneses, que admitiram a hipótese de estudar a implantação da fábrica de semicondutores. Um projeto da ordem de US$ 5 bilhões, a ser bancado pelo investidor estrangeiro e pelo governo brasileiro, por meio do BNDES. A implantação de um fábrica dessas impõe uma série de pré-requisitos, de formação de mão-de-obra à prepação da cadeia produtiva e, por isso, não ocorre antes de três a quatro anos, período em que, acreditam os técnicos do governo, a demanda irá se formando. Mas a dianteira dos japoneses, que têm a facilidade, em relação aos europeus, de negociarem enquanto governo, pode enfrentar um contra-ataque do Consórcio DVB. Na semana que vem, representantes da STMicroeletronics, a empresa de semicondutores que integra o consórcio DVB, se reunem com a Casa Civil. “Não vamos apresentar uma proposta, porque, antes, precisamos entender exatamente o que o governo quer em relação à indústria de semicondutores e em que medida está disposto a incentivar a instalação dessa fábrica”, diz Izaias da Silva, diretor de novos negócios e relações governamentais da STM para a América do Sul.

 

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