TV digital: a sociedade quer mais debate.


A iniciativa, tardia, é verdade, da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados de realizar, há duas semanas, uma audiência pública para discutir a TV digital e a preocupação dos deputados de que a decisão sobre o padrão a ser adotado pelo país venha a ser tomada mesmo em fevereiro, teoricamente durante o recesso parlamentar, mostra que o debate acabou ficando restrito à academia e aos radiodifusores. Mesmo a indústria eletroeletrônica, com assento no Comitê Consultivo do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), acabou se sentindo excluída da evolução das discussões.

O que despertou os parlamentares para a premência de tomarem conhecimento do que estava sendo feito no SBTVD, e de participarem da discussão, foram as constantes declarações do ministro Hélio Costa a favor do padrão japonês — posição da qual se afastou nos últimos tempos, passando a defender a plataforma em desenvolvimento pelos consórcios de universidades e institutos de pesquisa reunidos no SBTVD. Ela partiu dos desenvolvimentos já realizados pelos três padrões (europeu, japonês e norte-americano), incorporando as suas vantagens e buscando superar suas eventuais limitações no que se refere à transmissão do sinal, recepção, interatividade, canais de retorno, midleware, set-top box (caixa de conversão digital-analógica). O objetivo é uma plataforma robusta, ou seja, que garanta a qualidade de recepção do sinal mesmo em condições adversas (como antena interna, por exemplo), a convivência de diferentes níveis de definição do sinal de áudio e vídeo num único canal (da baixa definição até a alta definição) e a portabilidade/mobilidade.

Mas mesmo que a opção venha a ser pelo conjunto de hadwares e softwares do SBTVD que, garantem os pesquisadores envolvidos, é, na sua maioria, passível de ser acoplado com os sistemas existentes, há opções importantes a serem feitas. E elas não são só tecnológicas – envolvem o modelo de negócios, o plano de transição e, em última instância, o interesse nacional.

Há pontos consensuais no modelo de negócios, envolvendo o atendimento das diferentes demandas do telespectador brasileiro. Todos querem uma solução que permita a compatibilidade com os demais sistemas, para viabilizar a escala e a produção de televisores e set-top boxes a custo acessível. E querem uma plataforma flexível, que possa, ao mesmo tempo, atender ao telespectador de renda alta — aquele que pode pagar, agora, uma ou duas dezenas de milhares de reais que custa um televisor que com imagens em alta definição–, e a massa de telespectadores das classes C, D e E que, quando muito, vão poder comprar um set-top box de baixo custo (centenas de reais), a ser acoplado em seu televisor analógico.

Modulação, ponto sensível.

Mas há outros pontos, como o sistema de modulação, que são motivo de grandes polêmicas. Os sistemas de modulação do padrão japonês e do europeu, o OFDM (do inglês Ortoghonal Frequency Division Multiplexing) e o COFDM (Coded Ortoghonal Frequency Division Multiplexing), que integram os desenvolvimentos do SBTVD, fazem a transmissão da imagem para a recepção tanto fixa quanto móvel no mesmo canal, com algumas diferenças entre si. Os radiodifusores, e mesmo pesquisadores como Marcelo Zuffo, do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da Escola Politécnica da USP, afirmam que o padrão japonês é superior em termos de qualidade. Ele é o preferido por emissoras como a Rede Globo e o SBT, por garantir um modelo de negócios no qual o radiodifusor não é obrigado a compartilhar espectro com ninguém — ele realiza a transmissão em um canal só, que será administrado pelo próprio radiodifusor.

Mas, mesmo entre os radiodifusores, há dúvidas sobre a adoção do modelo japonês. Basicamente em função de seu custo, já que cada difusor terá que ter um sistema próprio de transmissão para a recepção portátil. E o custo da transmissão para recepção móvel e portátil, pelo fato de as experiências serem restritas a duas cidades do Japão, ainda não está bem dimensionado segundo alguns. Enquanto Carlos Brito, assessor da diretoria de tecnologia da Rede Globo, afirma que ele não vai além de 10% do investimento no sistema de transmissão, há quem diga que a ordem de grandeza é muito maior. “As demonstrações revelam muita queda do sinal e vários pontos de sombra, o que exigiria uma rede muito mais complexa e cara”, pondera um dos envolvidos no trabalho do SBTVD.

Melhorar o sistema de modulação, para exigir uma rede mais leve, com menos antenas para repetir o sinal, foi a tarefa da qual se ocuparam grupos de pesquisa como o do Mackenzie e do Instituto Nacional de Telecomunicações – Inatel. Como os resultados práticos só foram entregues no dia 10 de dezembro, para serem consolidados pelo CPqD no relatório que será entregue ao Ministério das Comunicações e ao presidente da República, ainda não se sabe se os ganhos teóricos foram totalmente reproduzidos em campo.

Mobilidade compartilhada

O caminho mais viável para um país com pouco dinheiro como o Brasil, na visão de vários pesquisadores e estudiosos e mesmo de radiodifusores ligados às tevês públicas, seria adotar um modelo de negócios que separasse a transmissão fixa da portátil. Pelo fato de a recepção portátil ser muito diferente da fixa, exigindo uma rede mais densa, de gerenciamento muito mais complexo. Esse é o caminho trilhado pelos europeus, embora tenha solução tecnológica para a transmissão para a recepção fixa e móvel ser feita no mesmo canal, e, também, pelos norte-americanos.

A separação da rede de transmissão fixa da portátil permitiria o compartilhamento, entre radiodifusores ou entre esses e as empresas de telecom, de uma rede para transmissão móvel. Reduziria custos, o que é muito importante para as emissoras menores entrarem na era digital podendo competir na oferta da mobilidade, e também economizaria espectro, já que cada radiodifusor não precisaria se preocupar em ocupar uma parte do canal de 6 Mhz com suas transmissões para receptores portáteis. A freqüência utlizada poderia ser dedicada ao core business da radiodifusão: a transmissão de conteúdo.

Como se vê, essa não é uma questão menor. Mas a solução compartilhada só é viável dentro de um arcabouço regulatório que dê garantias aos radiodifusores — que temem, com razão, vir a ter que se subordinar às operadoras de telecom, empresas com muito mais peso e fôlego econômico.

Também não é uma questão menor a compatibilidade. Por isso, os sistemas têm que ser abertos e interoperáveis. Caso contrário, o telespectador brasileiro não poderá usufruir dos ganhos de escala. O exemplo da entrada da tecnologia celular GSM no país mostra que embarcar em um padrão com grande base instalada permite oferecer produtos a preços baixos, que cabem no bolso da maioria dos brasileiros.

A complexidade das questões envolvidas, e a importância da TV digital para o desenvolvimento do sistemas de comunicações brasileiro, para o fortalecimento da indústria instalada no país e para o desenvolvimento de uma indústria de software (middleware e aplicativos) para entretenimento, mostram que, nesse caso, correr contra o tempo pode ser um desserviço à Nação. Não existe nem calendário esportivo – a Copa do Mundo de 2006 –, nem político – as eleições presidenciais –, que justifiquem uma decisão pouco discutida e não consensada. A digitalização da tevê não interessa só aos radiodifusores que reclamam, com razão, de estarem confinados no mundo analógico. Interessa a todos os brasileiros.

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