“Tráfego no IX de São Paulo deve crescer 40% neste ano”, diz Kashiwakura


Momento Editorial – Encontro Provedores Regionais – Campinas – photo Robson Regato

O IX.br se consolidou em 2018 como um dos maiores do planeta. O conjunto de seus pontos de troca de tráfego já é o terceiro maior do mundo em pico, chegando aos 6,11 Tbps, atrás apenas dos PTTs da DE-CIX (Alemanha), que bateu 6,7 Tbps, e AMS-IX (Holanda), com 6,3 Tbps. O trânsito médio já supera o do IX holandês.

Mas nenhum outro IX supera o brasileiro na quantidade de integrantes. Estes passam dos 2,3 mil, graças à participação dos provedores regionais, enquanto os similares europeus têm pouco mais de 800, cada.

Tal característica trouxe transtornos. O sistema ficou sobrecarregado e enfrentou interrupções entre setembro de 2018 e janeiro de 2019. O problema só foi resolvido com a adaptação dos equipamentos por parte dos fornecedores, que desenvolverem funções específicas para o IX brasileiro.

Milton Kashiwakura, diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br, responsável pela gestão do IX.br, diz que a instabilidade são águas passadas. Para 2019, a tendência é continuidade da expansão do volume de troca de dados. Haverá crescimento de 40% no PTT de São Paulo, que é o mais movimentado do Brasil. As unidades regionais (há pontos em outras 30 cidades) também vão aumenta de tamanho. Ainda não a ponto de ultrapassar os pares europeus em pico, ou o Alemão em média. Algo que deve acontecer no próximo ano, ou em 2021.

Abaixo, leia a entrevista que o executivo concedeu ao Tele.Síntese:

Tele.Síntese – O conjunto dos PTTs do IX.br quadruplicou o volume trafegado nos últimos dois anos. Por que cresceu tanto?
Milton Milton Kashiwakura, Diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br –
 O PTT está crescendo mais que os internacionais nas localidades principais. Em participantes, somos o maior do mundo, é inquestionável. Mas por pico de tráfego, aí tem disputa ferrenha entre Amsterdam e Frankfurt. Se você quiser critério de desempate, o tráfego médio em Frankfurt é o maior, depois vem Amsterdã, Londres, e o IX de SP. O IX de SP tem crescido realmente de forma bastante interessante. A taxa está maior que dos outros países.

Por que isso?
Kashiwakura – O Brasil é um país em crescimento. As pesquisas do CETIC mostram que a população considera essencial ter internet, todo mundo quer. Tem os pequenos provedores, os regionais, que estão investindo bastante, então é um mercado em crescimento. Só ano passado, em termos de sistemas autônomos, tivemos 1 mil novos sistemas autônomos. E nesse momento temos 6,5 mil sistemas autônomos no país. O IX tem mais de 2,3 mil participantes únicos em todo o Brasil. O Brasil tem 31 PTTs. Os principais data centers da região, Equinix, Odata, Ascenty, se conectam ao PTT. Só em São Paulo temos 1,7 mil participantes, empresas que estão trocando tráfego.

No final de 2018 o IX.br apresentou instabilidades, o que gerou reclamações…
Kashiwakura – De fato aconteceu ano passado. Tivemos problemas com nossos equipamentos. Já tínhamos endereçado o problema junto ao fabricante, que demorou a desenvolver a solução. Todos os fabricantes deram problema com a gente. Trocamos a estrutura da rede a cada 2 ou 3 anos. Fazemos testes preliminares (PoC) para testar as funcionalidades. Antes de colocar em produção, colocamos no laboratório que simula um mini PTT pra ver se funciona.

Ultimamente, com novos equipamentos, temos ficado em laboratório três meses ou mais para debugar tudo, o fabricante consertar os problemas e colocar em produção. Eles acabam desenvolvendo solução só para a gente. Quando se é um dos maiores do mundo – e com um cenário mais selvagem , já que temos empresas menores participando do IX, e nem todas têm equipe técnica – temos que fazer um monte de proteções para evitar problemas na nossa rede.

Fora isso, também tem um cenário pouco comum que é a quantidade de rompimento de fibra, praticamente três por semana. Temos rotas redundantes, e quando rompe, tem que rotear para outros lugares. Todo dia a dia tem problemas, mas a infra que construímos, de forma de automática, acaba se resolvendo.

É um ambiente bastante hostil, que nos PTTs do exterior acontece com pouca frequência. O problema ano passado, depois de conversarmos bastante com o fabricante, que não posso dizer qual é, foi corrigido. Atualizamos todos os equipamentos em janeiro, então o problema já não ocorre mais. Eles atenderam essa solicitação, que fizemos havia mais de um ano.

Qual foi o problema?
Kashiwakura – Quando você tem um PIX afetado, uma estrutura do IX.br com um duplo rompimento, por exemplo, os participantes desse PIX somem para os demais. Mas os demais continuam a tentar conversar com os que sumiram. Nessa tentativa, o tráfego vai para todo mundo. Isso pode saturar os links de outros PIX. Aí começa uma enxurrada de mensagens tentando enviar esse volume de tráfego para todos os lugares.

Tivemos que fazer alterações na rede e aplicar uma regra nos equipamentos para que os conteúdos das grandes CDNs não fossem encaminhados de forma insistente para todos aqueles que teriam que receber o tráfego, fenômeno que a gente chama de broadcast unknown. Então o que fizemos foi que esse tráfego desconhecido, vindo de CDNs, conseguimos fazer com que viesse em volume baixo. Todos os equipamentos agora conseguem limitar esse tráfego desconhecido graças a uma feature criada só para o Brasil, nos equipamentos conhecidos como switches de camada 3.

Isso resolveu a questão?
Kashiwakura – Está estabilizado e a gente está trabalhando para melhorar mais nossa estrutura em termos de topologia. Antes usávamos os mesmos equipamentos para receber os participantes e fazê-los se comunicar entre si. Hoje a gente está mudando a topologia para que os equipamentos principais sejam diferentes dos que recebem os participantes. Estamos tirando gente da comunicação central. Então o núcleo central não vai ser alterado conforme aumenta a participação.

Houve grande quantidade de migrações do PTT para PIX concorrentes?
Kashiwakura – 
Obviamente que o pessoal ficou meio inquieto, no primeiro momento tentaram fazer alguns movimentos, mas a rede já está estabilizada, então o tráfego começa a voltar de maneira mais intensa. Batemos 6 Tera antes do evento de setembro. Com o evento, reduziu. Agora voltamos a 6 Tera e já batemos 6.3 Tbps, em período de férias.

Só a configuração dos equipamentos causou as instabilidades?
Kashiwakura – Tem os casos particulares, que afetam um ou outro integrante. Muita fibra passa por poste, então se cai o poste, rompe a fibra, cai o sistema de um usuário. Tem caso de vandalismo, de sabotagem da rede, de empresas elétricas que cortam a fibra de quem não paga. A nossa fibra é nossa e toda subterrânea, mas todos os PIXs pagam pela fibra que chegam até nós, e elas podem se romper.

Qual o Capex (investimentos) do IX.br?
Kashiwakura – O IX.br tem um modelo diferente. Usávamos roteadores, que era um modelo de rede muito mais custoso. Desenvolvemos no passado um conceito baseado em switches, que opera a um custo equivalente a 10% do que seria com os inúmeros roteadores que precisaríamos para lidar com o tráfego. Conforme o IX cresce, existe um trabalho para testar novas tecnologias para estabilizar o sistema. No segundo semestre, vamos fazer um PoC e testar a tecnologia EVPN, que vai trazer uma maior facilidade de configuração. E a gente acredita que vai facilitar nossa vida. Mas o valor… Não posso dizer exatamente, o investimento é de algumas dezenas de milhões no IX por ano, este ano será um pouco mais por causa da chegada dessa nova tecnologia.

Qual vai ser o crescimento do tráfego este ano?
Kashiwakura –
O PTT de São Paulo está com 4,5 Tera. Vamos crescer algo como 40% em tráfego, que é mais que os grandes IX internacionais vão crescer. Ainda não vamos passar os principais, mas vamos ficar colados no pico e média.

Não sabemos se o numero de participantes vai mudar. Tem participantes que chegam, outros que saem. Acho que vamos terminar o ano com 100 a 150 participantes novos, a mais. O que está acontecendo muito é que os que já fazem parte estão mudando as portas de 10 G para portas de 100 G, ou acrescentando mais portas de 10 G, então a quantidade de portas tem crescido muito. Sempre por causa de conteúdo em vídeo, inclusive a troca de conteúdo 4K está aumentando e já fizeram efeito no volume de tráfego.

O Capex é suficiente para lidar com o crescimento? O preço cobrado dos participantes pelo uso de portas entra no Capex?
Kashiwakura – A cobrança das portas não é Capex, paga apenas o custo operacional. É simbólico. Como regra, temos reserva de caixa para rodar dois anos sem recurso novo nenhum. O aporte deste ano é maior que ano passado, não é todo ano que o montante é o mesmo. Existe o componente deste ano, que é a mudança da topologia para maior robustez da rede. A gente só espera que a taxa de câmbio não mude, pois isso pode comprometer o investimento.

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