Tele.Síntese análise 322


Bernardo admite reduzir impostos do celular, mas quer mais conteúdo nacional. A forte pressão da importação de celulares da faixa low end, um fenômeno relativamente recente no mercado, e a reivindicação dos fabricantes instalados no país de desoneração dos impostos, a exemplo do que ocorre com os computadores e notebooks que não pagam PIS/Cofins, sensibilizaram …

Bernardo admite reduzir impostos do celular, mas quer mais conteúdo nacional.

A forte pressão da importação de celulares da faixa low end, um fenômeno relativamente recente no mercado, e a reivindicação dos fabricantes instalados no país de desoneração dos impostos, a exemplo do que ocorre com os computadores e notebooks que não pagam PIS/Cofins, sensibilizaram o governo a adotar providências.
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, admitiu ao Tele.Síntese Análise que já aceita analisar a isenção do PIS/Cofins também para os smartphones, mas, em contrapartida, quer maior engajamento dos fabricantes e das próprias operadoras na agregação de valor no país. “Não dá para aceitar que as empresas estão importando até celular baratinho, de última linha”, reclamou ele.
Bernardo afirmou que já procurou o ministro do Desenvolvimento Industrial, Fernando Pimentel, para discutir alternativas de ampliação do conteúdo nacional e de agregação de valor local na fabricação dos aparelhos, e, se possível, fazer com que o país detenha até mesmo a tecnologia desses terminais.
Ele pretende também se reunir com os empresários para tratar do assunto.
Para os fabricantes de aparelhos celulares instalados no país entre os que mais produzem localmente estão Samsung, Nokia e Motorola, a desoneração é importante para tornar mais competitivo o produto montado no país.
“Montamos aqui a maior parte dos modelos. Importamos apenas os lançamentos recentes”, diz um executivo.
No entanto, estão enfrentado a concorrência dos aparelhos importados da China na faixa de U$ 25 a US$ 30, que respondem por mais da metade dos celulares dual chip comercializados no mercado.
“Não há como competir, uma vez que só o carregador montado no país sai por volta de US$ 10”, relata outro executivo.
A preocupação da indústria é com as exigências que serão feitas pelo governo para conceder a isenção do PIS/Cofins.
“Queremos agregar valor, mas as exigências têm de permitir uma margem de flexibilidade para não ficarmos presos a um ou dois fornecedores locais, que aumentam seus preços quando isso ocorre”, diz outro executivo.
Pelos dados da Abinee, as importações de celulares em 2011 deverão somar US$ 1 bilhão, 76% a mais do que em 2010, com um volume de 15 milhões de unidades importadas, com destaque para os celulares baratos que devem representar 20% da base, segundo estimativas da entidade.
Para subsidiar o governo a combater, nos fóruns internacionais, o dumping no preço dos celulares, motivado principalmente pelos fabricantes chineses, o grupo de terminais da Abinee está preparando um levantamento dos preços dos aparelhos celulares em vários mercados.
“Já levantamos os dados do Brasil. Agora, estamos buscando informações em outros países dos celulares da faixa low end”, conta um integrante do grupo.
De seu lado, o governo diz que está disposto a brigar em fóruns de comércio internacional, mas, segundo técnicos do Ministério do Desenvolvimento, aguarda informações que estão sendo coletadas pela indústria.

Preferência à tecnologia nacional
Para fortalecer a inovação no país e a geração de tecnologia, o ministro Bernardo entende que a Anatel deve estabelecer preferências para a tecnologia nacional em seus editais de venda de frequências, mas prefere não entrar em detalhes sobre como essa preferência poderia ser exercida.
A agência ainda não decidiu, mas, segundo fontes, poderá rever para menos o percentual de 30% para tecnologia nacional previsto no edital de venda da 3,5 GHz e que seria reproduzido no leilão da faixa de 2,5 GHz.
A preferência à tecnologia nacional também estará presente no Regime Diferenciado do PNBL, que vai desonerar a cadeia de equipamentos para as redes de banda larga e também os serviços para instalação de redes.
Entre as contrapartidas das empresas que tiverem seus projetos enquadrados nesse regime está a obrigatoriedade de compra de 50% dos equipamentos de tecnologia nacional e fabricados no país.
A expectativa da assessoria do Ministério do Desenvolvimento é de que a MP seja editada ainda nesse final de ano, ou seja, 2012 já começaria com esse forte estímulo à construção de infraestrutura de banda larga.
A possibilidade de o governo vir a alterar o conceito de produto de tecnologia nacional, estabelecido na portaria 950/2006 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação,
para de alguma forma incorporar produtos de multinacionais que têm parte de seu desenvolvimento feita no país não prejudica as indústrias brasileiras de capital nacional.
“Se uma empresa estrangeira faz parte de seu desenvolvimento aqui, isso tem de ser levado em consideração”, avalia Hélio Graciosa, presidente da Fundação CPqD, maior centro de desenvolvimento de tecnologia em telecomunicações do país, e que participa do controle acionário de empresas nacionais como Trópico, Padtec e WxBR.
Uma eventual modificação da portaria 950/2006 não teria, na avaliação de Graciosa, nenhum impacto nas empresas brasileiras de capital nacional.
Não facilitaria parcerias com centros de tecnologia do exterior? Em sua avaliação não, porque o apoio ao desenvolvimento de tecnologia no país tem por objetivo desenvolver o capital intelectu-
al no país e não no exterior.
“Para saber se um produto, software ou solução foi desenvolvido no país, o que temos de ver é onde está o capital intelectual, se no Brasil ou fora, com a matriz ou outra empresa”, pondera Graciosa.
No caso da Padtec, que comprou há dois anos a israelense Civcom, Graciosa diz que, a partir de acordo firmado em novembro, a Civcom vai produzir, para o mercado global, um módulo de equipamentos de transmissão óptica de alta velocidade (100 Gbps) com tecnologia desenvolvida
pelo CPqD e pela Padtec.
“Este é o modelo que tem de ser perseguido. Gerar tecnologia no país, atender ao mercado
interno e externo e trazer ganhos para o país.
O capital intelectual tem de estar aqui”, diz ele.

A indústria espera crescer mais em 2012, apesar da crise do euro.

Mesmo com os efeitos da crise internacional, o ano de 2011 não foi ruim para os fornecedores de equipamentos e serviços de telecomunicações, sejam empresas nacionais ou multinacionais. Juntas, as operadoras fixas e móveis investiram nos primeiros nove meses deste ano R$ 12,2 bilhões (em igual período de 2010 foram R$ 9,4 bilhões, portanto, uma alta de 25%). “Tradicionalmente, as operadoras investem mais no último trimestre do ano e esperamos que esse movimento se repita em 2011. Se isso acontecer, vamos chegar aos R$ 18 bilhões”, avalia Aluizio Byrro, chairman da Nokia Siemens.
Ele lembra que no último quarter de 2010 os investimentos das operadoras somaram R$ 6,8 bilhões, totalizando R$ 16,2 bi no ano.
A avaliação de Byrro é de que 2012 não será um ano ruim.
“Acredito que vai ter um crescimento, no mínimo, de um dígito em relação a este ano, o que significa algo entre 5% e 10%”, assinala. Para muitas empresas, especialmente as nacionais, essa previsão é conservadora.
“O mercado de banda larga continua em expansão e estamos trabalhando com a perspectiva de um crescimento maior em 2012”, acrescenta Jacques Benain, presidente da Trópico, que espera superar o faturamento de R$ 100 milhões previsto para este ano.
O otimismo da Trópico se repete nas demais empresas nacionais que fornecem equipamentos para redes de banda larga ou que se dedicam às atividades de projeto e instalação de redes, que apostam em um 2012 especial, graças à expectativa de aprovação do pacote de incentivos do governo para as redes de banda larga  o Regime Diferenciado do PNBL.
“Nossa expectativa é de que, se a MP for editada logo, os reflexos já comecem a ser sentidos no segundo trimestre de 2012”, diz otimista Ivo Vargas, diretor da Parks.
A fabricante nacional de soluções de acesso para redes de fibra, cabo coaxial ou rádio aumentou seu faturamento este ano em 40%, atingindo receita de R$ 40 milhões. Para o ano que vem, projeta crescimento entre 35% e 40%, mantendo o ritmo de crescimento.
De acordo com Vargas, seu bom desempenho neste ano se deu principalmente em soluções de acesso para redes ópticas (modem óptico) para clientes onde se destacam provedores de acesso à internet e municípios que estão se digitalizando.
Para a Alcatel-Lucent, 2011 também foi um ano bom e as expectativas para 2012 são ainda melhores, com o leilão das faixas de frequência de 2,5 GHz.
O diretor de Soluções da empresa, Juan Pablo Lopez, acredita que mesmo com a crise internacional o Brasil é prioridade e está com uma economia forte.
O executivo aposta principalmente no IPTV, com o serviço não apenas via cabo mas também em redes de fibra e de cobre, que vão demandar investimentos, assim como as redes LTE.
Mais cauteloso em relação aos efeitos da crise, o presidente da Furukawa, Foad Shaikhzadeh, espera um crescimento pequeno em 2012.
“Como tem grandes operadoras com capital europeu, o problema da zona do euro afeta tanto
no controle de investimento como na remessa de caixa”, analisa.
Mesmo assim, afirma, o setor de cabos e fibras ópticas deve crescer entre 5% e 10%, porque a demanda por banda larga continua.

Fatores que vão puxar a expansão

Um dos fatores importantes para a expansão do mercado de telecomunicações em 2012,
segundo o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, é o reajuste do salário-mínimo
de 12% em janeiro do próximo ano, que deverá ter um impacto muito positivo nas empresas de telecomunicações.
“A economia brasileira vai continuar crescendo no ano que vem. Com esse incremento de renda, a classe C vai estar ávida por internet”, prevê.
Este ano, assinala, a internet móvel cresceu 102% e a tendência é de que o consumo
aumente ainda mais no próximo ano.
“As operadoras precisam ampliar os pacotes de serviços para esse público”, afirmou, em entrevista ao Tele.Síntese Análise.
Ao lado da expansão da renda das classes C e D, a indústria assinala outros fatores que deverão gerar investimentos.
Em primeiro lugar, a expansão da banda larga, que vai ser estimulada com as medidas de desoneração da cadeia produtiva das novas redes, e, em segundo, os leilões
das faixas de frequência da 2,5 GHz e de 400 MHz. Este deverão impactar mais no Capex de 2013.
“Não acredito que o leilão do 2,5 GHz para a entrada do LTE terá grande repercussão em cima dos números do ano que vem. Será mais forte em 2013”, diz Byrro.
A mesma opinião tem o presidente da Furukawa.
Impulsionada pelo avanço da banda larga no Brasil, a fabricante comemora o desempenho em 2011, com uma série de negócios junto ao mercado corporativo, operadoras de telecomunicações e governo.
O crescimento da subsidiária brasileira será de 15%, com faturamento total superior a R$ 500
milhões. Aliás, a expansão do mercado de banda larga e de conectividade, registrada neste ano, deve se manter ou até acelerar em 2012.
Com foco no segmento IP para os mercados de operadoras, corporativo e de grandes empresas
e órgãos de governo, a integradora PromonLogicalis registrou, no primeiro semestre de seu ano fiscal de 2012 (março a agosto de 2011), um crescimento de 74% nas vendas para o mercado brasileiro (ela atua também em outros países do continente).
No exercício anterior faturou US$ 280 milhões no Brasil e US$ 400 milhões no mercado latino-americano.
Byrro aposta mais nos investimentos para desafogar as redes: “Todas as redes estão com problemas de tráfego, de qualidade e de cobertura. Então, as empresas vão continuar com suas expansões, com ampliação nos seus backbones, que não estão suportando mais essa carga toda e terão de ser preparados também para suportar o que virá em dois a três anos, com Copa do Mundo e outras demandas”.
Foad acrescenta que, nas cidades maiores, as redes tendem a mostrar alguns gargalos e que a entrada oficial do iTunes no Brasil vai aumentar ainda mais a demanda por banda.
Por outro lado, diz, “o PNBL vai decolar e, na medida em que a Telebras instala sua rede nas cidades, pequenos operadoras (ISPs) vão ocupando espaço e investindo para trocar rádios por fibra”.
Tanto Byrro como Foad acreditam que a entrada das telcos no mercado de TV paga vai criar uma nova perspectiva de negócio com as operadoras. “Ainda não dá para avaliar o impacto, mas certamente vai gerar investimentos”, comenta Foad, que vai investir, em 2012, R$ 35 milhões para ampliar a produção da Furukawa, que começa a produzir cabos OPGW e cabos elétricos.

Mercado internacional
Na contramão das multinacionais, o CPqD espera que parte do seu crescimento em 2012, estimado em 20%, venha de suas atividades no exterior.
“Estamos otimistas, um otimismo com a cautela que o acompanhamento da crise
europeia exige”, afirma Hélio Graciosa, presidente da fundação.
De acordo com ele, os segmentos em que o CPqD deve crescer no ano que vem estão no mercado internacional, que hoje representa 5% de suas receitas, e na área de governo, onde seu carro chefe é o sistema de gestão de educação que fornece para estados e municípios.
O CPqD vai fechar 2011 com receitas de R$ 260 milhões, contra R$ 230 milhões obtidos em 2010.

Anterior British Telecom cria unidade de consultoria
Próximos SAP nomeia diretor de educação para AL e quer triplicar receita no Brasil