Photo: Robson Regato
O presidente da Telefônica Brasil, Eduardo Navarro, diz que a empresa vai realizar o Capex previsto de R$ 8 bilhões para este ano, mesmo se o TAC não for aprovado. Só que a implantação de FTTH no interior de São Paulo – das 19 previstas no ano, 11 são de recursos do TAC – poderá ser postergada nas cidades onde o lançamento de fibra ainda está em fase de projetos. Esses recursos seriam transferidos para a infraestrutura de capitais com maior demanda e maior retorno do investimento.

Nesta entrevista ao Tele.Síntese, Navarro fala dos planos da operadora para IoT, nuvem, Big Data, qualidade e digitalização. E avisa que a Vivo, a marca comercial dos serviços, não abre mão de ser líder em internet móvel. “Esse é o nosso DNA”, diz.

Para ele, o PLC 79/2015, que prevê a transformação da telefonia fixa de concessão em autorização e investimento do saldo da concessão em redes de alta velocidade, não está morto. “Sei que algo virá”, acredita ele, avaliando que o PL entrou na agenda negativa da sociedade, associado a projetos impopulares como as reformas trabalhista e da Previdência. Também reconhece que faltou transparência e clareza nas informações sobre o que vai ser investido, onde vai ser investido, como vai ser investido. O que só vai ser superado com discussão. “Quando a sociedade perceber que é uma agenda do futuro, ninguém vai se colocar contra.”

Tele.Síntese Parecer da equipe técnica do TCU, ainda não aprovado, faz pesadas críticas ao Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado pela Anatel com a Telefônica, e pede a reformulação de seus termos. Como o atraso na aprovação do TAC vai impactar os investimentos da Telefônica neste ano?
Eduardo Navarro – Ds 19 cidades previstas, neste ano, para implantação de redes ópticas até a casa do cliente (FTTH), 11 estavam dentro dos recursos do TAC. Dessas 11, tem uma quantidade que estamos mensurando agora, mas deve ser um pouco mais da metade, que já está em fase adiantada de obras que não podem ser paradas. A primeira delas é Avaré (SP) que vai ser lançada nas próximas semanas. As demais estão ainda em fase do projeto, de locações. Há grande probabilidade de que eu pare essas cidades. Mas não quero usar isso como fator de pressão.

Como gestor da companhia, e até perante os acionistas, tenho que seguir esse caminho se avaliarmos que o TAC não vai sair. O que provavelmente vai acontecer é que essas cidades serão colocadas “em espera”, e os recursos que seriam aplicados em suas redes serão transferidos para cidades onde a companhia tem maior interesse comercial. Provavelmente vou investir mais em Brasília, em Curitiba, em Belo Horizonte.

Não tenho intenção de reduzir o Capex total da companhia para o ano, de R$ 8 bilhões. Eu vejo atratividade no mercado brasileiro e não vejo razão para reduzir esses R$ 8 bilhões. Mas ainda tenho confiança de que podemos chegar a um bom termo, por meio da Anatel, com o TCU. Sou tão otimista em relação à essência do TAC, de que é bom para a sociedade, que levar banda larga gera um clima de dinamização nas cidades, para as famílias, para as pequenas e médias empresas, que acredito em um acordo nos próximos meses.

Tele.Síntese – Os recursos do TAC previstos para 2017 envolviam também rede celular, não é?
Navarro – Para este ano, a maior parte era para FTTH. Para rede celular era uma porção pequena.

Tele.Síntese – A Câmara dos Deputados está debatendo o PL,  já aprovado pelo Senado, que proíbe os planos limitados de dados. Quais serão as consequências no mercado de uma eventual aprovação dessa restrição? O deputado Celso Russomano (PP/SP) propôs ontem, como alternativa, um Contrato Coletivo de Consumo. Como vê esta iniciativa?
Navarro – Acho que quanto mais liberdade no mercado, melhor. Se a companhia fosse capaz de oferecer a seus clientes distintos planos, plano com franquia, plano sem franquia, e fosse o cliente a determinar qual plano é melhor para ele é sempre melhor. O cliente ter mais opções é melhor para ele.

Essa abertura sugerida pelo deputado Russomano pode ser um caminho interessante para que consumidores e empresas possam sentar e avaliar. Pode ser que para um consumidor com baixo consumo de internet prefira ter um plano limitado e mais barato. E outro que tenha um consumo maior, não. Essa liberdade do consumidor é importante. A proibição radical pela Lei acaba restringindo essa liberdade do consumidor e talvez possa a vir impactar a capacidade de investimento das empresas.

Acho sempre que o diálogo é a melhor saída, que o acordo é a melhor saída. Mas em qualquer cenário, nós vamos obedecer a regulamentação vigente, a Lei vigente.

Tele.Síntese – Os resultados do primeiro trimestre apontam um crescimento de 20% nos terminais M2M, apesar do cenário econômico. Isso significa que novos projetos de Internet das Coisas começam a ser implementados?
Navarro – Muito desse crescimento ainda está vinculado às máquinas POS. A quantidade de projetos estruturantes de IoT ainda é pequena. O crescimento da comunicação máquina a máquina ainda está muito limitado ao POS e começa a haver agora algum crescimento no segmento de gestão de frotas. Não vejo uma presença expressiva de projetos de transformação industrial, de digitalização de cidades – isso ainda está por vir.

Tele.Síntese – Você já disse que se as operadoras não se prepararem, podem perder a nova onda da IoT. Que medidas a Telefônica está adotando para ter presença no segmento?
Navarro – A gestão dos SIM cards de máquina a máquina é completamente diferente da gestão do SIM card tradicional. O cliente de muitos SIM cards tem que ter a possibilidade de fazer o aprovisionamento, dar alta, dar baixa, controlar o consumo. Há plataformas que fazem isso. A mais conhecida é a Jasper, adquirida recentemente pelo Cisco.

Já há alguns anos, o grupo Telefônica decidiu investir em sua própria plataforma. Foi um investimento elevado de milhões de euros para criar uma plataforma horizontal, que permite ao cliente fazer a gestão inteligente dos SIM cards. Existem poucas empresas de telecomunicações no mundo que desenvolveram a própria plataforma.

A segunda capacitação necessária para atuar em IoT é fazer a gestão inteligente dos dados coletados. No fundo, IoT está muto associado a Big Data. Nesta área, compramos um companhia na Espanha, uma empresa pequena mas que é uma grande butique de Big Data. Estamos fazendo um grande programa de capacitação, de treinamento. No Brasil, já temos uma quantidade expressiva de cientistas de dados treinados. Acredito que não há outra empresa no Brasil, talvez nem na América Latina, que tenha a capacidade de gestão de dados que a Telefônica está desenvolvendo.

O terceiro passo é escolher algumas verticais em que a empresa queira atuar como player relevante. Muitos dos concursos que vão acontecer vão ser globais. Temos as montadoras fazendo seleção de provedor de IoT em nível global,temos empresas de gestão de contâiners… Os dois setores que a Telefônica escolheu como principais são a gestão de frotas e a gestão energética, pois a gestão da energia vai ser cada vez mais importante no futuro.

O provedor, além do conhecimento horizontal de gestão que vale para todos os segmentos, tem que conhecer muito bem o segmento escolhido. Tem que contratar especialistas nesses mercados. A Telefônica está investindo nisso. Temos a vantagem de que esse conhecimento se gera em nível corporativo e pode ser transferido para vários países. No caso da energia, estamos aprendendo muito com o que está sendo feito na Espanha, fazendo a gestão energética de grandes bancos, e com o caso do Reino Unido. Ele foi o primeiro do mundo a automatizar os medidores de energia e gás de todas as casas. Ele foi dividido em três áreas e a Telefônica ganhou dois lotes e faz a gestão inteligente do consumo de energia. Vamos trazer isso para o Brasil, da mesma forma que haverá coisas que vamos desenvolver aqui e exportar para outros mercados.

Tele.Síntese – Qual é a sua expectativa em relação ao mercado de IoT no Brasil no médio prazo?
Navarro – Vai impactar muito no tráfego. Embora a quantidade de bytes que você manda seja pequena quando comparada a de um vídeo, por exemplo, você tem que levar com essa informação uma quantidade de serviços de valor agregado. Quando mando uma informação de energia, gasto uma parte muito  pequena da rede, mas o valor agregado que tenho para pegar esse dado, dar tratamento a ele, fazer gestão é muito maior do que a informação em si.

No mundo das empresas, identificamos três áreas que vão ser as principais áreas de crescimento da companhia no futuro: cloud, cibersegurança e IoT. No Brasil estamos começando, mas na Espanha o faturamento de cloud já deve estar na ordem de 500 milhões de euros por ano. Aqui, fizemos recentemente a redefinição da estratégia de cloud, estamos contratando muitos profissionais nessa área.

Tele.Síntese – Você acabou de destacar os investimentos em Big Data. A companhia já está desenhando serviços de telecom com base nessas informações?
Navarro – Quando vamos lançar um produto ou uma oferta, em geral a gente considera o Big Data. Na própria construção de rede já estamos usando as informações do Big Data para determinar onde colocar mais um site novo.

No caso das ofertas, a associação com Big Data permite que se lance ofertas cada vez mais granulares. Não tenho que necessariamente lançar uma oferta em nível nacional, com campanha na Rede Globo. Posso lançar uma campanha que está direcionada às pessoas que vivem numa determinada cidade, em uma determinada hora do dia, seja em função do aproveitamento da rede seja em função do hábito de consumo daquele cliente. Pelas informações do Big Data eu sei qual a necessidade de cada cliente, podemos fazer promoções individualizadas associadas às necessidades específicas de um grupo de clientes.

Tele.Síntese – A empresa já está usando o Big Data externamente, ou seja, para vender informações aos clientes? Como tratam a privacidade dos dados?
Navarro – Estamos começando na área de varejo. É uso do Big Data para oferecer informações agregadas a um determinado cliente, informações que possam ter valor para o seu negócio. Não é mais vender um serviço tradicional de telecom, é vender informação.

Destaco que são sempre informações agregadas. Jamais vamos vender uma informação individualizada de um cliente. Temos a premissa fundamental de que a informação de cada cliente pertence a cada cliente. Para dar um exemplo: podemos fornecer informações de como as pessoas se movimentam de uma cidade para outra, qual é o tipo de pessoa que transita em frente a um determinado ponto comercial, qual é a quantidade, que tipo de transporte as pessoas usam para se deslocar na cidade etc.

Fora do Brasil temos um acordo muito grande com o DNER do Reino Unido, onde estamos mais avançados. É um negócio que pode vir a ser expressivo.

Tele.Síntese – A empresa vem avançando na digitalização dos processos. Quais os próximos passos?
Navarro – A grande transformação nossa que o cliente tem que perceber é quando mudarmos a forma de nos relacionar com ele para canais mais digitais. Já avançamos, mas a penetração desse serviço ainda é bastante baixa. É menos de 10% na base pré-paga e entre 20% e 30% no pós-pago.

Estamos sempre revendo para simplificar os apps. No dimensionamento do app tem que pensar em uma série de coisas, que são barreira para o usuário consumir: que não consuma muita memória pois muitos clientes têm aparelhos com memória limitada, que o vocabulário seja fácil, que o download não consuma dados do cliente, que o lay out seja simples. Mas temos que avançar nisso porque vai ser melhor para o cliente, e uma fonte enorme de economia de custos. Hoje gastamos R$ 500 milhões/ano com os Correios com a remessa de contas e quase R$ 1 bilhão com chamadas recebidas no call center.

Tele.Síntese – Quanto a empresa está investindo em digitalização?
Navarro – É difícil dar um número, porque o grande elemento para avançar na digitalização é transformar todo o sistema de informação. Muitas das deficiência que o cliente percebe no nosso atendimento são decorrentes não de má vontade, de não querer fazer, mas de deficiências nos sistema de TI, são legados que viemos comprando, juntando. Estamos fazendo um investimento muito grande para trocar todo o sistema de informação. O Capex que estamos gastando em TI é da ordem de R$ 1 bilhão por ano. Não é só para digitalização, é para um conjunto de coisas, mas é o que vai nos permitir fazer a digitalização ponta a ponta.

Tele.Síntese – A percepção dos usuários em relação à qualidade dos serviços ainda é um ponto de muita atenção para as empresas de telecom. Quando a Telefônica vai ficar bem na fita?
Navarro – Nós reconhecemos que não é o que deveria ser, que há deficiências. Mas é preciso relativizar o número de reclamações quando comparados a outros segmentos. Temos um volume muito grande de clientes de serviços que estão em permanente evolução, diferente de quem vende energia elétrica, que é a mesma de 30 anos. Ou de quem vende coca-cola.

No nosso setor, os serviços que os clientes estão consumindo e na quantidade que estão consumindo não tem similar três anos atrás. Trata-se de um produto que todas as pessoas consomem e que o nível de aprendizado, de inovação é muito alto.

A solução disso, para mim, passa pela digitalização. Hoje, ainda existe uma quantidade muito grande de intervenções manuais, lançamentos manuais de informações, no atendimento, que aumenta os erros. Com a automação, caem os erros.

A segunda saída é melhorar a cobertura, a qualidade da rede. Nós sempre fomos líderes em cobertura e não vamos abdicar desse DNA de ser líder em internet celular que decorre de uma combinação de fatores: cobertura, sites fibrados, da quantidade e tipo de frequência. Estamos avançando muito rapidamente na questão da mudança do cobre para a fibra em alta velocidade, tanto no core da rede, que atende tanto à rede fixa quando à móvel, como na casa do cliente. Já temos um milhão de clientes com fibra na porta e esse número vai crescer muito. E avançando no 4G.

O segredo é investir em rede e investir em TI.

Tele.Síntese – Dos investimentos em rede programados para o amo, quanto é móvel e quanto é fixa?
Navarro – Não é fácil separar em função da convergência das redes. Tudo que você faz em fibra serve para rede de transporte, serve para a móvel, a conexão dos sites, e para a fixa. Uma parte relevante do investimento vai para a rede core. Eu diria que um terço vai para o core, um terço para a móvel e um terço para a fixa. No total, 80% do Capex vai para infraestrutura.

Tele.Síntese – Com a situação política que vive o país, você ainda acredita na aprovação, este ano, do PLC 79/2015, que transforma a concessão de telefonia fixa em autorização?
Navarro – Ainda tenho expectativa de que algo vai vir. Não sei se como o PL está agora, se vai ser transformado. Mas algo tem que vir porque não tem sentido para a sociedade ter uma espinha regulatória focada na telefonia fixa. Não sei com que velocidade vai vir, não sei se mudando o projeto, talvez sendo mais explícito com relação às regulamentações posteriores. Acho que vai ter que ficar mais transparente para a sociedade do que estamos falando. Qual a desoneração, onde vai ser aplicada. Acho que falta algo de transparência que seria dada pela regulamentação. Não é um problema do PL, é um problema do conjunto que não ficou claro para a sociedade. O debate vai esclarecer e definir o que fica na regulamentação (diretrizes de investimento), se serão diretrizes do ministério ou se estarão no próprio PL.
O PL foi tratado como uma agenda negativa, talvez porque foi associado a um conjunto de agendas, que são necessárias, mas não são populares como a reforma da Previdência e a reforma trabalhista. E para mim o PL tem que ser visto como uma agenda absolutamente positiva, pois vai trocar investimento em telefone público e telefonia fixa para investir em coisas do futuro. Quando conseguirmos posicionar o PL como agenda do futuro, ele avança sem resistência de ninguém.

Tele.Síntese – Mas nesse cenário político …
Navarro – Eu não diria nesse cenário político, enquanto estiver sobre a mesa a reforma trabalhista e a reforma da Previdência, não sobra atenção para discutir esse assunto.