Setop box virá com guia de programação e governo eletrônico


{mosimage}Será com esses aplicativos mínimos que o conversor básico da TV digital, o setop box, terá que chegar ao mercado. Disso o governo não abrirá mão é já avisou aos integrantes da câmara executiva que trabalham nas especificações das inovações tecnológicas. É o que conta André Barbosa, assessor especial da Casa Civil, designado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para participar de todo o processo de implantação da TV digital no Brasil, nesta entrevista ao Tele.Síntese.

Embora atue apenas como ouvinte nos trabalhos da câmara executiva, criada em agosto deste ano para trabalhar nas especificações das inovações tecnológicas brasilerias no sistema de TV digital e também adiantar os trabalhos para quando o fórum do SBTVD for implantado em dezembro, o governo já avisou que não abrirá mão de que o setop box básico, aquele que chegará primeiro ao mercado, venha com, no mínimo, guia de programação (semelhante ao que existe hoje nas TVs pagas via satélite) e alguns aplicativos de governo eletrônico.

André Barbosa, assessor especial da Casa Civil e designado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para participar de todo o processo de implantação da TV digital no Brasil, conta nesta entrevista ao Tele.Síntese que, em um primeiro momento, os radiodifusores não avaliam que lançar um setop box um pouco mais sofisticado, sem ser apenas um equipamento de conversão de sinal, agregue valor ao negócio. "Mas o governo já disse não. Não aceitamos e se fosse assim não precisávamos desenvolver nosso middleware", reforça Barbosa.

O assessor da Casa Civil viaja no final deste mês, na companhia de representantes do padrão japonês ISDB, para fazer um road-show por países da América Latina para divulgar o sistema brasileiro de TV digital. Os japoneses levarão equipamentos compactos para demonstração, mas Barbosa disse que o Brasil fará questão de frisar que o sistema adotado aqui será híbrido e que a intenção é internacionalizá-lo, atraindo especialmente os países latino-americanos para colaborar com as inovações e discussões sobre política industrial. "Nosso discurso funciona quando falamos que iremos construir junto um padrão, essa é a nossa proposta", frisa Barbosa.

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Também até o final deste mês deverá estar concluída qual será demanda de mão-de-obra especializada do Brasil para a implantação da TV digital. Quantos mestres e doutores serão enviados ao Japão e quantos de lá virão para cá. Barbosa adianta que esse será o primeiro e fundamental passo na cooperação entre os dois países. Sem formação de recursos humanos o governo já sabe que terá dificuldades de implantar os centros de desenvolvimento de chips dos quais o país tanto precisa para assegurar seu lugar no mundo da tecnologia moderna.

Tele.Síntese – Como está o trabalho da câmara executiva (criada para definir as especificações da inovação e fazer os preparativos necessários para a implantação do fórum do sistema de TV digital brasileiro, que será implantado em dezembro)?

André Barbosa – O governo é só ouvinte nessa câmara. Os grupos de trabalho estão concluindo a formatação do estatuto do fórum, que será da iniciativa privada. Com estatuto registrado, começam a se captar as adesões. E, em dezembro, haverá a inauguração do fórum que será um órgão de aconselhamento do Comitê Executivo de Desenvolvimento da TV digital, composto pelos nove ministérios. O trabalho da câmara já avançou muito nas nomenclaturas. O middleware, por exemplo, está praticamente escrito junto com o sistema japonês. Em relação ao cronograma da produção industrial, temos que trabalhar para que haja sustentabilidade para a produção de transmissores no Brasil. A câmara também está trabalhando junto com o BNDES na política de financiamento para os radiodifusores.

Tele.Síntese – Não haverá  necessidade de prorrogar o prazo de trabalho da câmara, que tem até dezembro para concluir suas tarefas para que o fórum seja instalado?
André Barbosa Em relação à instalação do fórum não precisará de mais prazo, ela será feita agora, no final do ano.Mas o que nos preocupa é que as pessoas possam ter a idéia, e espero que não tenham, de, para ganhar tempo, e poder implantar a TV digital mais rapidamente e fazer a roda girar da indústria e dos radiodifusores, lançar um setop box muito básico e o governo disse não, já deixamos claro que não.
Tele.Sínste – Mas como terá que vir o setop box inicialmente?
André Barbosa – Com pelo menos guia de programação (a exemplo do que existe atualmente nas TVs pagas via satélite que permitem interatividade) e alguns aplicativos de governo eletrônico, como por exemplo na área da saúde.

Tele.Síntese – Mas há condições técnicas de se inserir os aplicativos agora?

André Barbosa – Sim, esses aplicativos já são desenvolvidos, por exemplo, pela Universidade Federal de Santa Catarina, pelo Inatel, de Minas Gerais, pela PUC-RJ. Eles devem ser disparados e previstos no middleware e no setop box, mesmo que não se lance esses serviços imediatamente é preciso garantir espaço para eles no conversor.

Tele.Síntese – Mas os radiodifusores não querem incorporar essas inovações já?
André Barbosa – Eles, num primeiro momento, não vêm isso como um valor agregado, mas nós não abrimos mão. Não queremos onerar o setop box, porque se colocarmo muitos aplicativos ele fica caro, mas o que não pode é o setop box não ter nada e, o pior, é o consumidor ter que trocá-lo quando um novo aplicativo for lançado.É óbvio que você deverá ter opções nesse caso, conforme o tipo de inovação que vier em cima desse setop box, for colocada internet ou um sistema que permita ao consumidor gravar a programação, por exemplo, será preciso trocar de conversor e pagar mais caro, mas o que queremos garantir é que, mesmo com a chegada de outras inovações sofisticadas o setop box básico continue funcionamento, para que o consumidor sempre possa receber o sinal. O consumidor só precisará trocar o conversor se  ele quiser mais sofisticação. Mas o que já afirmamos é que o governo não quer um setop box básico que apenas converta o sinal, isso não queremos, e se fosse para isso não não precisavámos desenvolver o nosso middleware, podíamos usar o dos japoneses.

Tele.Síntese – Nos mês passado, uma delegação do governo brasileiro foi à reunião da Citel (Comissão Interamericana de Telecomunicações, braço da União Internacional de Telecomunicações na América Latina), na Venezuela para falar sobre TV digital. O que foi dito?
André Barbosa – Aproveitamos a reunião para atualizar o guia de implementação da TV digital, que é uma espécie de depósito sobre as inovações em relação à TV digital. Esse guia foi criado a partir de uma proposta de países latino-americanos, apoiada pelo Brasil, de se criar um instrumento documental que permitisse a qualquer país incluir a descrição de suas inovações e decisões relativas à TV digital. Até então, esse guia só continha informações sobre o ATSC, porque era o único sistema existente na América Latina. O Brasil furou isso e mostrou que havia outro sistema sendo pesquisado. No ano passado, apresentamos parte dos estudos feitos pelos consórcios e pelo CPqD e, este ano, levamos o histórico da TV digital, os marcos legais publicados a partir da decisão de junho, a criação do fórum, o cronograma de implementação e plano de canalização. Na próxima reunião da Citel, que será em abril de 2007, em El Salvador, vamos levar a nomenclatura das inovações, que ficará pronta em dezembro.
Tele.Síntese – Já que falamos em Venezuela, como estão as conversas com os demais países da América Latina sobre uma eventual adesão ao sistema nipo-brasileiro?
André Barbosa – Indo bem, mas não significa que podemos cantar vitória. Estamos no páreo. É óbvio que os outros três padrões — ATSC, DVB e o próprio ISDB — são mais profissionais na divulgação de suas respectivas vantagens. Mas nosso discurso funciona quando falamos que iremos construir junto um padrão, essa é a nossa proposta. Como escolhemos o sistema de modulação mais moderno do mundo, que é o ISDB, e criamos inovações para atender às nossas demandas específicas, os argentinos, uruguaios, venezuelanos, se interessaram. Podemos ajudá-los a desenvolver testes com o nosso sistema e mapear as demandas que eles têm, porque, assim como nós, eles também têm diferenças geográficas, geopolíticas e econômicas. É preciso criar um modelo de referência nesses países e não é o que os três padrões oferecem, eles oferecem um sistema pronto.

Tele.Síntese – Mas concretamente, o que o Brasil pode oferecer?
André Barbosa – Abrir as informações sobre o que já desenvolvemos. Nossa proposta é trabalhar de maneira conjunta e discutir as questões de política industrial, capacitação de recursos humanos, transferência de tecnologia e até de pulverização de investimentos de modo que cada país possa ter o benefício de ter plantas industriais e desenvolver sua própria tecnologia. Dessa forma, podemos gerar na América Latina capacidade para ser um mercado consumidor de TV digital e, como isso, aumentar o emprego e melhorar a qualidade de vida. Mas não é só isso, também é possível transformá-la em um centro exportador de TV digital.

Tele.Síntese –  E os japoneses concordam com essa forma de negociar?
André Barbosa – Sim, inclusive recebi uma informação recente, vinda de Tóquio, de que iremos fechar um projeto conjunto de divulgação do sistema nipo-brasileiro no Chile, Peru, Colômbia e Equador. Devemos viajar no final deste mês.O Brasil já esteve na Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela. Os países queriam demonstrações e pedimos aos japoneses que nos ajudassem enviando equipamentos compactos. Se houver dificuldade de custos nós dividiremos, somos sócios e eles gostaram da idéia. A Embaixada do Japão no Brasil já nos informou que Tóquio está mandando uma proposta de trabalho conjunto, só temos que acertar de que maneira eles irão. Eles têm toda a facilidade da demonstração, no que temos dificuldade, porque estamos desenvolvendo, mas iremos deixar claro nas demonstrações que o nosso sistema será híbrido, com inovações brasileiras. O sistema brasileiro é brasileiro por enquanto, ele se tornará internacional e já estamos pensando seriamente em um novo nome para ele. Ainda não há definições, mas certamente levará a palavra "internacional"na nomenclatura.

Tele.Síntese – E há algum outro país da América Latina perto de tomar uma decisão sobre TV digital?
André Barbosa – Não. O Chile e a Argentina, que há um tempo tinham sinalizado que poderiam escolher o ATSC, engavetaram a decisão e montaram grupos de estudos a partir do movimento do Brasil. Nós temos sido protagonistas nesta história. Não quero dizer que, isso seria pretensão da minha parte, os países têm uma tendência a decidir pelo padrão nipo-brasileiro, mas que nosso sistema e está na pauta de discussão desses países está.
Tele.Sintese – E como você avalia a reunião de trabalho com os japoneses, que estiveram no Brasil também no mês passado?
André Barbosa – Foi boa, mas as coisas são mais lentas do que gostaríamos que fosse. Nossa ansiedade como nação é ter respostas rápidas, mas isso, quando nos defrontamos com a realidade de mercado, não é possível. Por exemplo, áreas como desenvolvimento e capacitação de recursos humanos vêm na frente de investimentos reais em plantas industriais. Temos que cumprir uma série de pré-requisitos que não cumprimos antes e isso junto com a indústria, com as universidades e centros de pesquisa, para criarmos um panorama favorável para que esses investimentos venham. As maiores empresas japonesas vieram na reunião — como a Toshiba –e demonstraram interesse em investir em centros de pesquisas no Brasil. Os japoneses também nos deram toda a nomenclatura do ISDB em inglês.
Tele.Síntese – O que é essa nomenclatura, o que significa?
André Barbosa – Para você colocar as inovações e integrá-las e aprender como se dá o ISDB, as tabelas de códigos-fonte têm que estar disponíveis e só parte delas estava registrada na UIT (União Internacional de Telecomunicações), em inglês. Todo o sistema ISDB estava em japonês e eles nos cederam em inglês. Agora, esses diagramas e nomenclaturas estão sendo estudados pelos representantes da academia brasileira na na câmara executiva do fórum da TV digital com o objetivo de integrar as inovações brasileiras dentro dessa nomenclatura. Esse trabalho será levado aos japoneses em dezembro e eles terão até fevereiro de 2007 para responder. E, entre março e abril, teremos condições de colocar isso no circuito internacional.
Tele.Síntese – E o que ficou acertado com os japoneses em relação à formação da mão-de-obra no Brasil?
André Barbosa – Ainda este mês repassaremos aos japoneses qual será a nossa demanda em termos de mão-de-obra. Quantos doutores e mestres precisaríamos, qual o perfil acadêmico deles, que centros poderiam receber os especialistas japoneses que vierem para cá e quais instituições de pesquisa poderiam mandar professores para o Japão. Aí, os japoneses vão pegar nossa proposta e montar um cronograma. Eles também deverão dizer quantos especialistas brasileiros poderiam ir em uma primeira leva, quantos iriam na segunda, etc, em um projeto de médio prazo. Isso foi um grande avanço, os japoneses vão se comprometer com grande parte desse projeto, mas também haverá recursos por parte do governo brasileiro via Ministério da Ciência e Tecnologia. Ainda não sabemos o quanto será preciso, porque temos que ter uma definição do perfil da mão-de-obra, mas os japoneses nos prometeram ajudar firmemente nisso. Esse projeto de transferência de tecnologia e formação de recursos humanos é um projeto de quatro anos. Ao final desse prazo acreditamos que não precisaremos mais importar gente, já teremos desenvolvimento centros de pesquisa e teremos conhecimento suficiente para estar no "estado da arte"para produzir para a TV digital.

Tele.Síntese – E quando será a próxima reunião com os japoneses?
André Barbosa – A próxima reunião do Grupo de Trabalho Conjunto (GCT) Brasil-Japão, que também foi batizado de Joint Working Group, será no primeiro semestre do ano que vem. Nós fizemos uma recomendação para que a ocorra em abril exatamente para casar com todos esses movimentos. Nossa intenção é que essa segunda reunião consolide todos os pontos: capacitação de recursos humanos, transferência de tecnologia e investimentos em centros de desenvolvimento.
 Tele.Síntese – Mas já há alguma proposta concreta de investimento em centro de desenvolvimento?
André Barbosa – A Toshiba esteve no Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), em Porto Alegre (RS), onde já são desenhados chips e, em breve, começará a montagem de chips, e ficou ficou encantada com o que viu. Os diretores da empresa perceberam que há um centro de design lá que pode ser incrementado. Mais do que isso, os centros de pesquisa que existem no Brasil, além do Ceitec, que é o que está mais desenvolvido, mas tambémo C.E.S.A.R, de Recife, o Inatel, de Minas, e a PUC do Rio, entre outros, precisam de up grade. O Ceitec, que é o que está mais na frente, segundo os japoneses, está 20 anos atrás dos centros de design do Japão. Então, reitero, acho que o início será por esse caminho: centros de desenvolvimento para dar o estado da arte para as plantas de desenvolvimento de protótipos e, ao mesmo tempo, trabalhar na capacitação de recursos humanos. Com isso, você cria design houses aqui no Brasil e passa a ter condições de ter plantas industriais para produzir protótipos.
Tele.Síntese – Então uma fábrica de semicondutores não virá no curto prazo?
André Barbosa – O que os japoneses dizem, e nós aceitamos, é que precisamos cumprir metas e andar degrau por degrau. Veja o caso dos displays de plasma e de LCD, nós temos interesse em dominar essa tecnologia, mas os japoneses nos dizem ela foi dominada há 10 anos e não há mais o que desenvolver.  O que há para desenvolver é em cima de novas tecnologias, como telas orgânicas, os Oleds (Organic Light Emitting Diodes, apontada como uma das dez tecnologias do futuro, são fontes luminosas econômicas produzidas à base de compostos orgânicos. Os compostos químicos utilizados para fabricá-los têm baixo peso molecular e podem ser depositados em forma de filme fino. Potencialmente, poderão ser produzidos em qualquer tamanho e sobre uma ampla variedade de substratos, inclusive plásticos. Telas de celulares e notebooks já são feitas com Oleds) e os polímeros (compostos químicos de elevada massa molecular) áreas nas quais o Japão está na frente. Nossa intenção é que eles tragam para o Brasil um centro de desenvolvimento dessas novidades porque, aí sim, estaremos contribuindo para participar da criação de algo novo, com todas as conseqüências positivas que isso trará para a economia.

 Outro ponto é que toda empresa de semicondutores precisa de escala mundial, pelo menos de 30% do mercado mundial, para fazer um chip killer, ou seja, um chip que seja negociável em escala mundial e essa é a questão, nós não teremos escalas só com chips da TV digital, mas podemos ter com outras coisas, com a indústria automobilística, com a indústria de linha branca, com aviões, com usinas termoelétricas, isso tudo gera um conjunto no qual pode haver investimento em semicondutores no Brasil. Só com TV digital não dá. Isso foi tentado desde o começo, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, tem feito um exercício bem forte nesse sentido. Mas há dificuldades. A principal delas é que a demanda de semicondutores de todo tipo está preenchida no mundo pela produção asiática.

Tele.Síntese – Mas a Medida Provisória de semicondutores virá para compensar o atraso do Brasil nessa área?
André Barbosa – Um dos objetivos da MP, que deve chegar à Casa Civil por agora, passadas as eleições, é incentivar a produção de componentes no Brasil, especialmente para a TV digital. O governo poderá adotar medidas para desonerar a cadeia para o consumidor através da renúncia de PIS/Cofins, por exemplo, de forma a permitir que ele compre conversor mais barato. E hoje você tem uma grande importação de componentes, porque acaba sendo mais barato você importar componentes para produzir o conversor do que fabricá-los no Brasil. E essa desoneração não será simplesmente pontual, em cima de tributos ou taxas, será também em cima de burocracia, reduzir a burocracia para dar mais competitividade ao Brasil. Só para dar um exemplo, nos portos do Japão, a liberação de um contêiner que chega de Hong Kong ou Singapura, demora apenas quatro horas, no Brasil as empresas levam quatro dias para conseguir a liberação. Fica inviável. Enquanto não fizermos essa lição de casa fica também difícil atrair investidores. Mas a MP também trará incentivos à produção de microeletrônica no Brasil, aqueles que colocarem plantas industrias no Brasil terão inclusive diminuição da carga de imposto de renda. Essa MP terá o papel de atrair as empresas que estão trabalhando nessa nova hola da tecnologia, como os Oleds e polímeros.

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