Se o governo definir uma linha, o setor vai atrás.


{mosimage}Ronaldo Iabrudi, presidente da Telebrasil, conta, nesta entrevista, o que espera do 51º Painel, que será realizado pela entidade no final do mês, e explica porque o setor quer se engajar no esforço do governo para levar a internet às escolas públicas.

A Telebrasil realiza, no final de 31 de maio a 2 de junho, o seu 51º Painel, que terá como tema central o Estado Digital. Nesta entrevista, Ronaldo Iabrudi, seu presidente, explica por que a indústria de telecom pleitea ao governo o engajamento nesse projeto e quais as preocupações do setor quanto à construção de uma rede estatal. Aliás, a conexão das escolas públicas à internet, programa considerado prioritário pelo governo e em fase final de elaboração no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, faz parte da pauta do Painel e deverá provocar intensos debates.

Tele.Síntese – O Painel Telebrasil concentra-se no Estado digital. Porque a entidade considera tão relevante esse tema para o desenvolvimento das telecomunicações?
Ronaldo Iabrudi – Percebemos que precisamos sensibilizar as lideranças políticas, porque o setor carece de uma política de longo prazo. No Fórum que a Telebrasil vai realizar no final do mês, estamos abrindo espaço para debates de experiências concretas de inclusão digital, além de seminários executivos, que contarão com a presença de representantes da indústria e de consultorias. Embora saibamos que vai haver conflitos de posicionamento, o que é bom, o importante é que todos estão juntos quanto se trata de encontrar caminhos para a inclusão. A Telebrasil conseguiu, por exemplo, superar a idéia de que somente as concessionárias poderiam utilizar os recursos do Fust. Todos os que participam da entidade estão habilitados para conversar com  governo e para participar da disputa, se houver uma concorrência pública.

Tele.Síntese – Na avaliação da Telebrasil , quais são os grandes ganhos da digitalização dos serviços de governo?
Iabrudi – A melhoria da qualidade de atendimento que se presta à população. Por exemplo, no Detran do Rio de Janeiro, fazemos tudo via internet. Se quisermos marcar uma audiência, renovar a carteira, exame de vista, podemos agendar tudo pela internet. Isso cria qualidade, agilidade no atendimento e uma redução do custo muito importantes. Se pensarmos na Previdência Social, a dimensão é muito maior. Em um evento recente do qual participei, Jorge Gerdau afirmou que, se fosse implantado um sistema informatizado que pudesse ser administrado competentemente, a Previdência Social poderia economizar R$ 50 bilhões. Não sei avaliar se a economia seria dessa ordem, mas conheço bem Jorge Gerdau e eu sei que ele não falaria sobre um valor tão significativo sem qualquer base. Mas sei que seria fantástico, do ponto de vista de atendimento da população e de redução de custo do país, se fosse implementado um processo de digitalização de serviços públicos no Brasil.

Tele.Síntese  – Agora, obviamente, é uma preocupação não só com a causa da cidadania já que o avanço do Estado digital pressupõe-se um consumo maior de meios de comunicação. Qual é a importância do Estado digital para o negócio das comunicações em geral?
Iabrudi – A questão é mais ampla. Nos países desenvolvidos, as telecomunicações crescem na mesma proporção da economia. Ou seja, se o PIB da Alemanha cresce 2%, as telecomunicações também crescem 2%. Na Inglaterra ou nos Estados Unidos é a mesma relação, porque, nesses países, o negócio de telecom está consolidado, amadurecido. No Brasil, não é assim. Houve anos em que o setor cresceu 40%, 50%, porque precisava atender uma demanda até então reprimida.

Defendemos a tese de que telecomunicações é um fator fundamental para o desenvolvimento do país . Quando começamos a debater esse assunto, algumas pessoas, na diretoria da Telebrasil, falavam que uma das formas de se aumentar o consumo de telecom seria incluir o governo. Mas no final, o que prevaleceu é o entendimento de que, ao se usar a estrutura de telecom para fazer inclusão digital – seja na previdência, no cadastro de empregados e desempregados, na saúde, em  educação, em segurança e mesmo nas micro e pequenas empresas que não usam telecom  -, o país vai crescer muito mais. Se todos esses segmentos passam a usar a infra-estrutura do setor de uma forma mais intensa, o desenvolvimento do país será acelerado.

Acho que o que estamos propondo vai na direção da prioridade definida pelo governo, simbolizada no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Todos acreditam que o país vai crescer mais de 4 % este ano, mais de 4% no ano que vem, e nós acreditamos que,  se usarmos telecom, o país pode crescer ainda mais.

Tele.Síntese  – O presidente Lula definiu, como prioridade do segundo mandato, a qualidade da educação, na qual, um dos subprogramas fundamentais é a conexão das escolas à internet. O governo está levantando a possibilidade de o programa ser suportado por uma rede pública de telecomunicações. Como vocês estão vendo essa questão ?
Iabrudi – Estamos conversando desde o início. O coronel Oliva (Oswaldo Oliva Neto), do NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos), é um dos palestrantes convidados a participar do evento. Ele deverá falar sobre a visão do governo relativa a esse programa que pretende investir R$ 9 bilhões até 2010 para fazer essa inclusão das escolas. Nós temos tentado conversar, porque dentro do governo também existem duas visões – pois tem gente que acha que precisa haver um backbone público e tem gente que entende de outra forma.  

Tele.Síntese – Pela proposta, ainda não definitiva, do NAE, não se trata só de um backbone, mas de uma rede que chegará aos municípios por meio de enlaces de microondas, com  a última milha sendo coberta, em grande parte, por sistemas WiMAX.
Iabrudi – Sim, mas não há necessidade do backbone. Hoje, 80% das necessidades podem ser atendidas pelas empresas de telecomunicações. O restante pode ser atendido com rádio e satélite. Teoricamente, não se precisa criar uma rede. O setor se preocupa muito com a idéia de o governo voltar a ter uma rede própria de telecomunicações, porque isso nos parece a reconstrução de uma antiga Telebrás. Mas quando falo com o governo, não percebo que haja a intenção de reestatização ou de construção de uma empresa estatal, até porque, a partir do momento que for lançada uma licitação, tenho certeza de que, sobretudo nas grandes cidades, vão surgir dois, três, até quatro concorrentes para fazer a inclusão digital dessas escolas.

A posição da Telebrasil, sobre essa questão, é a seguinte: se o governo quer trazer uma rede que está disponível, no caso o backbone da Eletronet, se ele quer ter “golden share” nessa empresa, vamos chamar as empresas que hoje operam nessas regiões e ver o seu interesse em participar do projeto.

Tele.Síntese – Então, a visão de vocês é que, se o governo quer resolver a questão desse ativo e quer usá-lo, vocês pretendem que a iniciativa privada participe do projeto?
Iabrudi – Discutimos essa questão na diretoria da entidade e concluímos que temos que ser ter uma posição a mais construtiva possível. Ou seja, não dá para chegar e falar que “esse negócio de rede não é necessário, nós vamos resolver sem ela,” pois achamos que, com essa posição, estaríamos dificultando uma solução dentro do governo. Pretendemos, ao contrário, chamar as empresas que têm interesse e tentar construir, junto com o governo, um modelo, no qual entrariam essas empresas, para facilitar a inclusão digital das escolas.
Mas vamos tentar mostrar, na medida do possível, que uma grande parte da inclusão digital pode ser feita independe desse backbone ou dessa rede.

Tele.Síntese  – Vocês já marcaram alguma conversa formal com o governo , ou estão só conversando entre vocês.
Iabrudi – Nós já tivemos algumas conversas com o governo, já tivemos uma conversa formal com o coronel Oliva há algumas semanas. Depois desse encontro, tivemos uma conversa inicial com a diretoria da Telebrasil e houve consenso que vamos discutir a partir do projeto que o governo construiu para levar a internet às escolas públicas. Em cima dessa proposta, vamos tentar mostrar como pode ser feito de forma mais rápida e com o menor custo.  

Tele.Síntese – Me parece que existem duas questões. Há uma proposta do ministério do Planejamento de uma rede de segurança para as redes do governo federal, que ligaria o backbone da Eletronet a 12 capitais. Essa rede contaria também com as redes ópticas das estatais, inclusive o da Petrobras. E existe também o projeto de conexão das escolas à internet, feito pelo NAE. Vocês estão analisando as propostas separadamente ou não?
Iabrudi – O que entendemos é que o governo quer tratar as duas questões conjuntamente. E entendemos que, para avançar, estamos dispostos analisar e avaliar conjuntamente.

Tele.Síntese – Vocês já marcaram alguma reunião no Planejamento e na Casa Civil?
Iabrudi – Depois dessa primeira conversa, pretendemos ter uma reunião com o ministro do Planejamento, pois ele tem em mãos o trabalho realizado pelo CpqD para o NAE. Queremos pedir autorização do governo para que o CPqD faça uma apresentação do programa integral. O projeto envolve várias questões complexas. Sabemos que se pretende  instalar um computador para cada 10 alunos, ou para cada seis alunos. Temos experiência, de empresas filiadas à Telebrasil, que conectaram escolas à internet com laboratórios com 10 computadores para 500 alunos.  É evidente que o ideal é ter um computador para cada aluno, mas talvez seja uma realidade para daqui a alguns anos. Entendemos que esse volume de investimentos talvez possa dificultar a implantação do projeto.

Estamos pedindo para o  CPqD fazer uma apresentação para um grupo técnico para que possamos propor melhorias, fazer sugestões. Se começarmos, por exemplo, nos grandes centros, incluiremos maior número de pessoas em menor tempo. Mas queremos conhecer o que já foi estudado.

Tele.Síntese – Vocês vão considerar, nessa avaliação, as trocas das metas de universalização?
Iabrudi – Essa é uma das questões que está sendo discutida. Existe a possibilidade de, ao invés de se instalar os PSTs (Postos de Serviços Telefônicos), que, na avaliação de alguns, não têm muito sentido, poderia se trocar por banda larga, mas não é uma posição fechada nossa.

Tele.Síntese – Por que não? Se houver essa troca, que representará cerca de R$ 1,5 bilhão na extensão do backhaul de banda larga, vai cair o custo do que o governo terá que investir para levar a internet às escolas…
Iabrudi – Mas as contas não fecham assim. Na verdade, não sabemos que investimento de R$ 5 bilhões em rede é esse, que está previsto no projeto do NAE. Por isso, precisamos conhecer a proposta do CpqD.

Tele.Síntese – Diante desse cenário, o que você espera do 51º Painel?
Iabrudi – Queremos mostrar o que está disponível e que deu certo no Brasil. Outro ponto é que, efetivamente, estamos começando acreditar que o Brasil vai crescer mais de 4% este ano , talvez mais 5% no ano que vem, e estamos entendendo que o Painel poderá mostrar, de uma maneira muito pragmática, como a infra-estrutura de telecomunicações, com os investimentos feitos nos últimos dez anos, pode contribuir para esse crescimento.
Fala-se que, se o Brasil começar a crescer mais do que 4% durante três ou quatro anos, poderemos ter gargalos de energia elétrica; já estamos enfrentando o apagão nos aeroportos;  temos gargalos em portos, em ferrovias. A safra de grãos do Brasil cresceu enormemente , mas não conseguimos fazer com que essa produção chegue aonde tem que chegar. Em telecom, não temos esse problema hoje, mas é muito importante que o governo perceba isso. Acho que  vamos conseguir demonstrar que a infra-estrutura de telecom pode suportar um crescimento muito maior.

Outro aspecto importante é que vamos contar com muitas opiniões diferentes. Teremos representantes da Net, da Telefônica, da Embratel, da Vivo, com visões diferente sobre determinados modelos de negócio, o que enriquece e ajuda as decisões do governo para as questões que ainda não estão definidas.

Tele.Síntese – Você disse que, nas telecomunicações, não existe gargalo, mas há muitas queixas sobre oferta de banda larga. E não é só um problema de renda, pois há muitos lugares com demanda e sem oferta da conexão.
Iabrudi – Quando falo que não existe gargalo, estou me referindo ao fato de que ninguém deixa de investir quando há retorno desse investimento. Se existe uma região no Rio de Janeiro com demanda, ela tem que ser em número suficiente que justifique o retorno. O retorno de 1% não vai justificar o investimento. No setor, esse retorno varia entre  5% a 9%.

Tele.Síntese – Daí a necessidade do recurso do Fust
Iabrudi – Acho que governador Aécio Neves deu um exemplo do que pode ser feito, quando envolveu os grandes players de telefonia celular em um projeto em parceria com o governo. Estamos convencidos de que, se usarmos os recursos do Fust de uma forma inteligente, eles tornam-se muito mais produtivo do que o seu contingenciamento.

Tele.Síntese – Qual sua análise dos últimos números sobre o setor, divulgados pela Telebrasil em trabalho conjunto com o Teleco?
Iabrudi – Fico um pouco preocupado. Primeiro, acho que estamos investindo menos, em relação aos investimentos históricos. E, quando se investe menos, é um sinal que estamos crescendo menos. E estamos crescendo menos, na minha opinião, porque falta uma política para o setor. Ainda não conseguimos sensibilizar o governo, já que é o seu papel definir a política.

Tele.Síntese – Quando você fala em “definir a política”, qual é a sua proposta?
Iabrudi – Há dez anos o governo brasileiro falou o seguinte: tem que ter um telefone público em todo localidade com mais de 300 habitantes em tal data. A Coréia, por sua vez, decidiu que era preciso instalar  banda larga em toda localidade com mais de mil habitantes até o ano de 2006. Hoje mais de 70% da população da Coréia já está incluída em banda larga.

Se o governo definir uma linha, o setor vai atrás. Ele já mostrou que tem capacidade para alavancar esse crescimento e fazer acontecer o que o governo definir. Mas é preciso ter racionalidade.

A inclusão digital nas escolas tem toda a lógica do mundo, tem todo sentido. O governo precisa de uma articulação, de um caminho único. Em se criando o caminho, nós estamos convencidos de que o setor vai dar a resposta adequada.

Um exemplo é banda larga, o outro exemplo é o celular em localidades que não têm capacidade econômica para os investimentos. Outro exemplo é a IPTV. Estou falando de serviços que  podemos oferecer para a população do país inteiro. Mas temos que lidar, também, com determinadas regiões do Brasil que têm renda igual a dos países do primeiro mundo. O Brasil carece de dois tipos de políticas, uma para ampliar a inclusão, e outra para atender quem já está incluído e quer serviços de melhor qualidade.

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