Saúde: um mercado à espera de inovação


Startup catarinense com foco em internet das coisas cresce investindo no segmento de controle da cadeia do frio em hospitais, postos de saúde, laboratórios e farmácias. Aguarda regulação da Anvisa para acelerar seu crescimento, e já planeja expansão para setor de alimentos.

douglas pesavento sensorweb e djalma rodrigues fanem
Douglas Pesavento (esq.), CEO da Sensorweb, e Djalma Luiz Rodrigues, diretor executivo da Fanem

O mercado nacional de internet das coisas (IoT) aplicada ao segmento corporativo da saúde ainda é novo. Com poucas empresas atuando no segmento, ele é um grande quadro em branco à espera dos inovadores que vão desenhá-lo. A Sensorweb é um destes. Fundada em 2009 a partir de incentivos vindos da Finep (R$ 120 mil) pelos engenheiros de controle de automação Douglas Pesavento e Victor Rocha, hoje é incubada pelo MIDI Santa Catarina, núcleo de empreendedorismo mantido pelo Sebrae local.

Tem em seu portfólio hardware, software e serviços de monitoramento da chamada “cadeia do frio” aplicada à saúde. São mais de 1,5 mil sensores em operação, coletando dados para o gerenciamento dos insumos em grandes redes hospitalares e laboratoriais. Os produtos coletam dados e jogam na nuvem informações como alteração de temperatura, abertura e fechamento de portas ou quedas de energia, permitem o acesso remoto aos dados e a análise da situação. São clientes a Beneficência Portuguesa de São Paulo, o Instituto Carlos Chagas da Fiocruz e o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, a hemorrede de Santa Catarina – o Hemosc.

No final do ano passado, a startup recebeu um aporte, de valor não revelado, da Fanem, tradicional fabricante de tecnologia do setor de saúde do Brasil. Além de investimento, entraram no negócio acesso aos canais de venda, marketing e ao desenvolvimento conjunto de novos produtos para hospitais, como unidades neonatais. Douglas Pesavento, CEO e fundador da Sensorweb, estima que o mercado de IoT aplicado à saúde, no Brasil, possa movimentar R$ 800 milhões ao ano. A maior parte deste valor, no entanto, ainda não vai para a IoT de fato. Ele acredita que 90% dos sistemas de gerenciamento da cadeia do frio sejam ainda manuais, dependendo de um funcionário para coletar dados de termômetros tradicionais e acrescentá-los a planilhas ou software não ligado a um banco de dados em nuvem ou qualquer sensor.

O motivo é a regulação. O segmento depende de normas da Anvisa para a conservação dos insumos. Por enquanto, a agência cobra aferições rotineiras, mas não exige acompanhamento em tempo real ou uso de sistemas automatizados. Mas as conversas neste sentido já existem. Outro vetor para o crescimento são as operadoras. A Sensorweb conversa com Claro e Vivo, além de ter contratos com a Vodafone. “Trabalhamos com contratação por brokers, para trabalhar com plataformas multi-operadoras, pois ainda não encontramos nenhuma com cobertura e nível de entrega de serviço em todo o país”, conta. Os dados dos sensores são enviados pela internet, criptografados, por conexão 3G. Abaixo, a conversa que Pesavento teve com o Tele.Síntese.

sensorweb central 3g iotQual é o principal produto de vocês?
Douglas Pesavento, CEO e fundador da Sensorweb  O carro chefe são sensores de monitoramento de temperatura, acoplados em câmaras de conservação, geladeiras etc para medirmos temperatura, abertura de porta, tensão, corrente. São sensores que permitem ler variadas dimensões físicas. Eles se ligam a uma unidade de transmissão, que coleta as informações. A informação, então é processada por um equipamento, uma central de monitoramento, que sincroniza os dados com a plataforma na internet. Toda a comunicação é feita por rede celular 3G, para não depender do cliente e garantir operação 24×7. Temos um segundo produto, que é a central de monitoramento, local ou pela internet. E um terceiro produto, que permite conectar dispositivos eletrônicos e criar dashboards de monitoramento para sensores de terceiros.

Vocês buscam acordos com as operadoras de telefonia móvel?
Pesavento – A gente vem querendo trabalhar com brokers, que oferecem contratos multi-operadoras, porque não encontramos nenhuma que consiga atender o Brasil todo. Hoje a gente tem dois parceiros, a Datatem e Vodafone para os chips 3G e conectividade. Para garantir funcionamento em 99% do tempo, os sensores se comunicam por rede Zigbee e a central tem até 2 chips 3G e acesso Ethernet 3G, do cliente. Mas a internet fixa é usada em último caso, procuramos depender o mínimo de recursos do cliente para entregar o produto final. Acredito que as operadoras podem ser um canal de venda também. Elas já vieram a nós com demanda em telemetria, por exemplo. Tivemos algumas reuniões com Claro, com Vivo, para entender como eles se colocam neste mercado. Acho eles ainda não estão dando ainda muita atenção.

Por que associar-se à Fanem, em vez de busca capital com fundos, por exemplo?
Pesavento –
 Quando a gente criou a Sensorweb, mapeamos os possíveis parceiros e investidores. Conhecemos a Fanem em 2010, quando fomos apresentar a Sensorweb, sem ter um cliente na carteira ainda. Mas o setor de saúde é muito conservador. Até realmente acontecer o investimento, a empresa evoluiu sozinha, até o ponto que eles entenderem que o modelo estava validado no mercado. A gente já vinha conversando com outras empresas, apresentamos para fundos. Mas o investimento em inovação na área de saúde, em 2010, era ainda muito limitado. Os investidores tinham mais interesse em empresas de internet. No nosso caso, como envolvia a área de saúde, com hardware, e o segmento é afetado por regulamentação, gerava dúvidas.

O setor de saúde é o único que planejam abarcar?
Pesavento – A plataforma pode ser customizada a outras demandas. Temos casos de uso para medir alterações no PH da água, para identificar vazamento de gasolina e óleo em postos de gasolina. A gente fez recentemente projetos para duchas de praia, em que construímos as bioduchas, duchas automatizadas, aqui em Florianópolis. Homologamos uma série de produtos integráveis, como equipamentos para transporte, caixas para transporte de órgãos, sangue, e estamos finalizando na área de transporte frigorificados. O setor de perecíveis é uma área muito maior, muito mais sensível a custos que o de saúde. É uma área que a gente vem estudando. Como a tecnologia está ficando mais barata, a mesma solução usada em saúde pode ir para alimentos. 

A gente entende que o mercado de IoT vai crescer para soluções corporativas. Ainda é preciso reduzir o custo da transmissão de dados. Para crescer no setor de alimentos, este é o principal custo. O custo de telecom tem que cair, pois é um gargalo. Ao mesmo tempo, a própria tecnologia tem que evoluir em termos de confiabilidade e segurança, no mercado corporativo.

O Google investiu na Nest, ano passado, e esta virou uma frente de pesquisa em sensores e automação doméstica. O consumidor final brasileiro não entra no radar de vocês?
Pesavento – A gente não identificou o mercado doméstico como um nicho específico. Acreditamos mais na área de alimentos, onde pode ter maior escala. Acreditamos que a IoT chegará na ultima milha, que é a geladeira do supermercado, onde está o frango congelado etc. Imaginamos que, em algum momento o consumidor poderá acessar as informações na nuvem daquele frigorífico, passando a ser um fiscal e a acompanhar a história do alimento. A IoT vai se proliferar em casa, no uso doméstico. Mas ainda não está claro para a gente qual vai ser a aplicação.

Qual o tamanho do mercado de IoT aplicado à cadeia do frio na saúde, estimado por vocês?
Pesavento – A gente faz cálculos com base no que já temos de clientes, na quantidade de hospitais, farmácias e postos de saúde em funcionamento. No caso, a gente estima demanda de 300 mil a 400 mil pontos de monitoramento. Hoje a gente tem pouco mais de 1,5 mil. Então temos menos de 1% do mercado.

Vender qualidade no Brasil é bem trabalhoso. No momento, buscamos grandes clientes que querem se diferenciar pela qualidade. Então estamos nos clientes que procuram se diferenciar no mercado, que tem um potencial para movimentar R$ 800 milhões ano. Mas acreditamos que logo a regulação vai apertar e todos vão buscar esse processo.

A regulamentação do Marco Civil da Internet traz alguma preocupação? E projetos, como o de dados pessoais, podem impactar o negócio?
Pesavento – Não acredito. Contratualmente, os dados são do cliente, criptografados. Só se acessa com login e senha. O trabalho que a gente faz aqui, em termos de conectividade, é monitorar a disponibilidade dos sensores. Garanto o data center 99,9% disponível. Da nossa base, 99% dos sensores estão online. No momento, usamos o Linode, um serviço estrangeiros com data centers no Japão, Reino Unido e Estados Unidos. Já estamos estudando, também, ter essa infraestrutura no Brasil.

Qual regulação regulação deve mudar as coisas?
Pesavento – A Anvisa pede que seja feito um registro de histórico de temperatura, mas não define como deve ser feito esse registro. A maioria dos hospitais, postos de saúde, farmácias etc. têm termômetro local, e uma pessoa que registra essa informação de tempos em tempos. A gente tem conversado com representantes, não só da Anvisa, mas também da Hemobras, e vimos que existem iniciativas do governo para incentivar a adoção de sistemas automatizados, principalmente em bancos de sangue e imunobiológicos.

Existe uma perda muito grande de vacinas. São milhões de reais em perda de vacinas ao longo de cada ano apenas em Florianópolis e Curitiba. Imagina outras localidades, cidades do interior e distantes dos grandes centros. A OMS fez um estudo e identificou que, no mundo, em média, se perde 50% dos insumos imunobiológicos hoje, por falhas da cadeia do frio. O grande problema está na última milha, o local de armazenamento. A gente tem conversado com as prefeituras para levá-las a entender a questão e lidar com o problema.

Mas ainda não existe um recurso que viabilize o uso de IoT pelos governos. Para que prefeitura e estado invistam nisso, dependem de o governo federal liberar verba. O governo federal tem lançado editais para a cadeia do frio, mas não prevê, em nenhum, o custeio para sensores. E estimamos que com 0,5% do investimento feito nas câmaras, por exemplo, se faria o custeio de manter o serviço.

Vocês farão outra rodada de investimentos?
Pesavento – Temos nossa operação paga, mas temos que investir em equipamentos constantemente. A gente vem conversando com fundos, outras empresas. Novos negócios podem, sim, acontecer. Daqui a cinco anos a gente se enxerga como principal player da cadeia do frio em saúde, e diante de um mercado para alimentos bem aquecido. Hoje temos um market share de 1%. E 90% do mercado é dominado não por sensores ou automação, para ainda pelo processo manual. Nosso concorrente é a planilha e o termômetro. Temo concorrentes, mas são poucos.

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