Queda da rentabilidade reduz margem de manobra das concessionárias locais


Tele.Síntese Análise 379 Queda da rentabilidade reduz margem de manobra das concessionárias locais   O corte de pessoal anunciado esta semana pela Telefônica/Vivo e o programa de demissões voluntárias em desenvolvimento pelo Sercomtel são parte da realidade vivida hoje pelas concessionárias locais: a queda da rentabilidade e a manutenção da pressão dos impostos e do …

Tele.Síntese Análise 379

Queda da rentabilidade reduz margem de manobra das concessionárias locais

 

O corte de pessoal anunciado esta semana pela Telefônica/Vivo e o programa de demissões voluntárias em desenvolvimento pelo Sercomtel são parte da realidade vivida hoje pelas concessionárias locais: a queda da rentabilidade e a manutenção da pressão dos impostos e do custo do dinheiro reduzem a margem de manobra para enfrentar eventuais aumentos de custos. No período de 2003-2012, todas as concessionárias locais enfrentaram queda acentuada de rentabilidade (veja o gráfico).

 

 

Na avaliação de Eduardo Tude, do site Teleco, especializado em dados sobre o setor de telecomunicações, a queda da rentabilidade se deveu à retração das receitas de voz fixa, às contrapartidas estabelecidas pelas medidas regulatórias e à competição. A queda das receitas de voz fixa foi compensada em parte pela oferta de outros serviços como telefonia móvel, banda larga e, mais recentemente, TV por assinatura.

 

O cenário é ainda mais complexo porque o mercado de telefonia móvel parece ter chegado ao limite, conforme avaliação do analista Alex Pardellas, da CGB Security. Em janeiro deste ano, a expansão no número de acessos foi de apenas 0,18%, ante crescimento de 1,22% em janeiro de 2012. Pardellas lembra também que o segmento com maior promessa de expansão, a TV paga, trabalha com margens de lucro menores.

 

“Margens de Ebitda na casa dos 40%, como as que eram exibidas pela Oi e pela Telefônica, não existem em um mercado competitivo e em empresas com obrigações de cobertura. A exceção é a GVT, por ser uma empresa muito focada e sem as obrigações das concessionárias”, observa Tude. A margem de Ebitda das locais deve se manter ao redor dos 30%, acredita ele, lembrando que a margem de Ebtida da América Movil no México, de 50%, foge da curva porque a operadora tem 50% de market share.

 

Já a Embratel, originalmente uma empresa de longa distância e mercado corporativo, sempre teve uma margem de Ebitda inferior à das locais, na casa dos 25%, que se manteve relativamente estável no período – a não ser nos anos 2004, 2005 e 2006, quando a margem despencou. Para recuperar o desempenho, a Embratel também buscou novos mercados como os de telefonia local, banda larga e TV por assinatura, que prestava isoladamente até incorporar a Net Serviços no ano passado.

 

Se formos comparar a margem Ebitda das grandes concessionárias brasileiras com operadoras estrangeiras consideradas eficientes como a Portugal Telecom (34,4% em 2012), as frequentes reclamações de seus executivos e acionistas não teriam razão de ser. Só que não é possível fazer essa comparação porque o indicador não considera os impostos que são muito mais altos no Brasil do que na Europa e maioria dos países do mundo.

 

O estudo realizado pelo Instituto ProGescal – “Balanço Socioeconômico da Prestação de Serviços de Telecomunicações no Brasil” – mostra que, no período de 2002 a 2011, os governos estaduais e federal, por meio de impostos e taxas, se apropriaram de 59,7% do Valor Adicionado Distribuído – VAD (o VAD é composto por impostos, taxas e contribuições; juros e alugueis; pessoal, encargos e benefícios; distribuição aos acionistas e acionistas controladores; resultado retido no exercício; e doações e patrocínios).

 

A participação do governo no VAD somada à dos rentistas (juros e alugueis) foi de 78,7% contra 21,3% dos trabalhadores e acionistas. Segundo os responsáveis pelo estudo (os dados relativos ao ano de 2012 ainda estão sendo compilados), é essa desproporcional participação do governo e dos rentistas no VAD que reduz a margem de manobra das operadoras e sufoca o setor. O raciocínio é que frente a essa apropriação compulsória (no caso dos impostos e taxas), qualquer aumento de custo tem de ser compensado ou com corte de pessoal e salário ou redução da remuneração do acionista. Nesse cenário, há pouco espaço, afirmam os autores do estudo, para a absorção de custos determinados por medidas regulatórias sem imediato reflexo na remuneração ou dos trabalhadores ou dos acionistas.

 

No período 2002-2011, a apropriação do VAD pelo governo e rentistas cai de 84,7% para 76,7%. A queda não foi determinada por menos taxas e impostos, mas em função da redução dos juros e alugueis. Na verdade, o peso dos impostos e taxas subiu de 55,5%, em 2002, para 59,7%, com um pico de 61,6% em 2007. Alguns estados, que haviam elevado a alíquota de ICMS sobre serviços de telecom, depois recuaram para o patamar anterior.

tabelas TELESINTESE 379

Em relação ao Valor Adicionado Produzido – VAP (formado pelas receitas menos os insumos de terceiros, depreciação e amortização mais resultado da equivalência patrimonial e receitas financeiras), o VAD comeu, no período estudado, 49%, assim divididos: 29,2 (impostos), 9,3% (juros e alugueis), 4,3% (pessoal), 2,4% (acionistas controladores), 2,2% (acionistas minoritários), 2% (resultado retido do exercício). Os demais 51% das receitas foram gastos no pagamento de fornecedores intermediários e de bens de produção.

 

Segundo o estudo, o resultado médio da operação no período das operadoras que compuseram a amostra foi de apenas 0,3%, engordados por 3,9% das receitas financeiras. Frente a esses resultados, o estudo conclui que, para promover a queda do preço da banda larga para o usuário final, um dos objetivos do governo, só há dois caminhos: redução do lucro dos acionistas ou dos tributos. Se o valor apropriado pelos acionistas for reduzido a zero (só por hipótese), o preço cai só 1,36%. Queda equivalente acontece com uma redução de 4,65% dos tributos, o que leva o estudo a concluir que o preço é muito mais sensível à redução dos tributos.

 

Não à toa, analistas têm avaliado com cautela o investimento das grandes empresas de capital aberto do setor. O colunista do Valor Econômico e analista independente André Rocha defendeu em artigo que o investimento de longo prazo nas grandes teles é um erro. Entre os argumentos elencados, está a necessidade dessas companhias manterem o Capex alto, por conta das constantes inovações tecnológicas, ao mesmo tempo em que a margem dos serviços cai.

 

Segundo estudo do SindiTelebrasil – considerando as empresas do IbrX 50 – as empresas de telecom registraram margem líquida (lucro líquido dividido pela receita líquida) de 2,5% no período de 2000 a 2010 contra 29,3% do setor de finanças e seguros, 16,5% de papel e celulose e 3,9% do comércio.

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