shutterstock_yienkeat_telefonia_fixa_fibra_otica_geral_abstrataO movimento das grandes grandes empresas de buscar sua oxigenação nas ideias que nascem em startups começa a envolver as operadoras de telecom. E a crise econômica, nesse caso, parece até ser um fator a estimular iniciativas e investimentos nessa direção. TIM e Grupo Algar lançaram este ano suas iniciativas na área. Telefônica Vivo ampliou seu programa. Elas parecem integrar o grupo da iniciativa privada que vê a atual recessão brasileira como um momento de promover avanços e há mesmo uma expectativa de que as startups e as iniciativas de inovação de modo geral serão, de fato, um meio importante de deixar a crise para trás.

A conjuntura econômica brasileira, com previsão de encolhimento do PIB de 3,5%, é mais do que desafiadora. Mas as empresas sabem que, sem novas ideias e mais agilidade, mais difícil será encarar de frente os desafios. É por isso que o Grupo Algar, o único grupo nacional que atua no mercado de telecomunicações por meio da Algar Telecom, maior fonte de sua receita, lançou recentemente o Algar Ventures.

O investimento definido pelo grupo na Algar Ventures é de 5% de seu lucro líquido por ano. Isso significa que os recursos para o primeiro ano de atuação do fundo de investimento serão de R$ 10 milhões. De acordo com Clau Sganzerla, vice-presidente de Estratégia e Inovação do Grupo Algar, o objetivo, com a Algar Ventures, é levar a inovação para todas as áreas do grupo e identificar oportunidades inovadoras e disruptivas que possam complementar o portfólio de negócios do grupo, nas áreas onde já atua.

No primeiro ano, os recursos do Algar Ventures serão direcionados a entidades parceiras, como incubadoras, startups, universidades, etc. Mas, a partir do segundo ano, os investimentos serão diretos em startups, com projetos nas áreas de atuação do grupo: telecom, agronegócios, turismo e serviços.

Já a TIM montou um programa onde não investe diretamente em startups, mas oferece infraestrutura e ferramentas para que se desenvolvam. Para isso, se associou ao Cubo Coworking, espaço dedicado ao empreendedorismo mantido pelo Itaú e Redpoint Ventures. A intenção da tele é entrar no ecossistema de inovação sem lançar mão de capital. “Acreditamos que o ecossistema de empreendedorismo no Brasil está bem servido. O que de melhor podemos oferecer às start ups é o acesso a nossos clientes, Big Data, sistemas”, disse Luis Minoru, CSO da TIM Brasil, à época do lançamento do programa.

Segundo Minoru, o acesso a 65 milhões de clientes, a uma ampla rede 4G, o contato com uma série de serviços inovativos – área que fatura R$ 1,5 bilhões na operadora – e a capacidade de processar nada menos que 6 bilhões de CDRs por dia pode garantir o sucesso de uma empresa nascente e inovadora. A operadora está concluindo, ainda, a implementação de plataforma da Oracle e Engineering que, entre outras coisas, abrirá as portas para uso de API por parte das startups para acessar os sistemas da TIM.

O grupo América Móvel e a Oi ainda não têm uma estratégia definida em relação a programas de startups. No caso da Oi, a operadora está colocando toda sua energia em seu projeto de transformação digital. Da mesma forma que a Telefônica Vivo, criou uma diretoria de Transformação Digital, que investe em uma nova forma de desenvolvimento de produtos e serviços: equipes multidisciplinares, com tarefas de curto prazo e autonomia de trabalho. Conceito que também entrou na estrutura da TIM, mas de forma mais ampla. Em sua nova sede no Rio de Janeiro, também na Barra da Tijuca onde já se encontrava, eliminou a barreira das paredes, criou horário flexível de trabalho e espaços comuns que permitem a convivência colaborativa.

Já a Telefônica Vivo, a primeira em investir em inovação apoiando startups, continua avançando em seu programa. A Wayra Brasil, a incubadora de inovação da operadora espanhola com presença em vários países, apresentou, em junho do ano passado, a cerca de 25 investidores, sendo um estrangeiro, a proposta de negócio de dez empresas aceleradas em seu ecossistema.

As dez empresas apresentadas são a primeira geração de startups aceleradas pela Academia Wayra, do grupo Telefónica, que faz parte do programa federal Start Up Brasil. Elas concluíram seu período de aceleração em maio de 2015 e, a partir daí, deveriam buscar inserção no mercado de trabalho com as próprias pernas, com o apoio dos fundos de capital de risco.

Em outra iniciativa, a operadora, também por meio da Wayra, opera espaços de crowdworking no país, em parceiras. No caso de Santa Rita do Sapucaí (MG), os parceiros são Ericsson e Inatel. A Accenture, por sua vez, lançou um programa próprio para startups de vários segmentos da economia, mas que envolve mobilidade.

O cenário

Apostar nas startups é integrar um grande movimento do mundo empresarial, que se espraia por todas as áreas. Não só são um ambiente propício para novas ideias, como criam empregos e empregos qualificados. Segundo um levantamento veiculado no início de julho deste ano pela Gama Academy, que prepara estudantes e profissionais para atuar no mundo digital, as startups responderam pela abertura de quase 10 mil vagas, no universo das mais de 4 mil companhias iniciantes em operação no país. A estimativa, conforme Guilherme Junqueira, co-fundador da Gama Academy, “é que cada empresa tenha, na média, duas vagas abertas”. Na amostra das 149 companhias pesquisadas, a demanda inicial foi de mais de mil novos profissionais.

Outro exemplo é o estudo divulgado no final do ano passado pela entidade internacional Endevour, cujo sonho é triplicar o número de scale-ups (startups com elevado ritmo de crescimento) no Brasil para 100 mil, até 2030. Mais de 90% das scale-ups são pequenas e médias, mas estão ligadas às cadeias produtivas de grandes empresas privadas e estão presentes em metade dos municípios brasileiros. Por isso, se acredita que serão peças fundamentais na recuperação econômica esperada a partir de 2017. A Endeavor está trabalhando com essa perspectiva.

Sem recursos para crescer comprando grandes empresas, as teles têm mais é que investir em startups, avaliam analistas. A situação de todas elas, mesmo as estrangeiras, não é confortável. O grupo espanhol Telefónica, que controla a homônima brasileira, tem dívida de mais de € 50 bilhões. A dona da TIM, Telecom Italia, deve quase € 30 bilhões. A Claro registra prejuízos seguidos há dois anos, enquanto a brasileira Oi deve R$ 65,4 bilhões e está em recuperação judicial.

A aposta é que o caminho de apoio às startups para acelerar a inovação seja um caminho com bom retorno. Só mais tarde será possível avaliar os frutos da iniciativa.

 

Colaboraram Flavio Dieguez e Rafael Bucco