Para presidente da AEB, satélite estatal fica pronto em dois anos.


{mosimage}Por meio de Parceria Público-Privada (PPP), o governo brasileiro tenta viabilizar a construção de seu satélite geoestacionário em até três anos, a tempo de aproveitar a última autorização da UIT para este fim. Em janeiro, os Ministérios do Planejamento e da Ciência e Tecnologia assinaram termo de cooperação técnica para contratar os estudos de modelagem. Segundo o presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), Carlos Ganem, não há carência de mão-de-obra especializada ou de instituições de pesquisas de ponta. O que falta é foco e persistência. A privacidade da comunicação do Estado é uma das razões para o governo brasileiro querer lançar o seu próprio satélite. 

 

Por meio de Parceria Público-Privada (PPP), o governo brasileiro tentá viabilizar a construção de seu satélite geoestacionário em até três anos, a tempo de aproveitar a última autorização da UIT para este fim. Em janeiro, os Ministérios do Planejamento e da Ciência e Tecnologia assinaram termo de cooperação técnica para contratar os estudos de modelagem. Segundo o presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), Carlos Ganem, não há carência de mão-de-obra especializada ou de instituições de pesquisas  de ponta. O que falta é foco e persistência. No que depender dele, tudo será feito para o lançamento do satélite.

Os satélites geoestacionários ficam parados relativamente a um ponto fixo sobre a terra, geralmente sobre a linha do Equador. E são utilizados nas telecomunicações, em observações específicas de regiões, no controle da segurança de voo. Para Ganem, a privacidade da comunicação do Estado será também uma das prioridades do satélite brasileiro.

“O Brasil já tem muita coisa pronta. Nós vamos atualizar os estudos e buscar parcerias lá fora com vistas a queimarmos etapas, sem abrir mão da participação da indústria nacional”, disse o presidente da AEB.

Tele.SínteseO que representa o início dos estudos para lançamento de satélite geoestacionário para o programa espacial brasileiro?
Carlos Ganem – Representa a realização de um sonho. Tudo o que se sabe sobre a AEB  (Agência Espacial Brasileira) guarda pelo menos dois tempos. Um tempo do passado e um tempo do presente. E este presente guarda relação com as dificuldades e as agruras que o próprio  programa e a política espacial brasileira sofrem ao longo de uma série histórica de mais de 40 a 50 anos. O Brasil é um país continental, de dimensões absolutamente únicas. O Brasil desenvolveu ao longo de 30 anos um extraordinário esforço de capacitação, por entender que o melhor lugar de se ver a terra é do espaço.

Por conta disso, baseado num sonho, representado sobretudo pelos militares da Aeronáutica, com destaque para Casimiro Montenegro, que criou o CTA (Comando-geral de Tecnologia Aeroespacial) fora do eixo da política educacional, que tem no ITA o principal ponto de apoio e suporte da mão-de-obra. Junto com o ITA  (Instituto de Pesquisa Aeronáutica), cinquentenário, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que completa 48 anos este ano, desenvolve pesquisa, forma profissionais, e muitos deles encontraram trabalho nos programas concorrenciais do espaço do mundo afora, seja na Nasa dos EUA, no Canadá, na Europa. Para um programa estar vivo, ele tem que estar debaixo de uma política, não de governo, porque os governos mudam, mas de Estado.

O Copuos, a instituição internacional da ONU que aplica os saberes sobre o espaço sideral, considera o Brasil um importante player nesta história. Por que? Porque poucos países no mundo dispõem, minimamente, de um programa espacial completo. Vale dizer, alguém que possua bases de lançamentos seguras, como o centro da Barreira do Inferno (no Rio Grande do Norte), que lança os foguetes de sondagem VSB-30, comprado pela Europa, que interessa aos EUA, porque é a cereja do bolo, bom, bonito e barato, eficiente, sem casos de fracasso. Tem ainda a base da Alcântara (no Maranhão) e esperamos ter outras bases. Temos vantagens em relação a outros países.

Um foguete ou veículo lançador de satélite, que saia de Alcântara, a 2 graus e 18 minutos sul da linha do Equador, representa uma possibilidade estratégica de não ter vizinhança, a não ser o mar, e, em segundo lugar, uma economia de até 30% de custo, que pode valer até U$ 5 milhões por lançamento. Nós seremos e somos vistos, mais do que nunca, como player desse negócio.

O Brasil tem bases de lançamentos, o Brasil produz há 20 anos, numa parceria exitosa com a China, o CBERS (em inglês, China-Brazil Earth Ressources Satellite), que é um satélite de observação da Terra. Já foram feitos o 1 e o 2, com a sobra dos dois, foi feito o 2B, numa proporção da participação brasileira menor do que gostaríamos, cerca de 30%. Dois novos satélites serão construídos com a China, o 3 e o 4, nos quais, 50% da tecnologia serão brasileiros e 50% serão chineses. Satélite de grande porte, que não é lançado do Brasil.

Temos  a Plataforma Multimissão (PMM), um conceito moderno de engenharia na arquitetura para satélites, que reúne em uma única plataforma todos os equipamentos necessários à sobrevivência de um satélite, com tecnologia nacional e que era completamente pioneiro, se nós pudéssemos ter garantido os recursos para ele a tempo e a hora em que isto ocorreu. A PMM embarcará quatro satélites, entre eles o Amazônia 1 (satélite de observação), que é fundamental para o imageamento em bases confiáveis, de tudo o que hoje se processa e se queima na Amazônia Legal. Será possível dizer, com quantitativos de precisão impressionante a natureza de quem está depredando a  Amazônia. O CBERS não garante essa visualização detalhada. E a gente sabe que o que está queimando na Amazônia são micro propriedades, em que o cara está tirando pau em pé e deixando pau deitado.

Portanto, temos projetos na área da territorialidade, bases; projetos na área de veículos lançadores, como o VLS-1 e como a PMM, que embarca satélites científicos, de observação da terra, radares e de meteorologia. E teremos o satélite geoestacionário.

Tele.Síntese – Como a AEB vai viabilizar isso?
Ganem
– Aquela mão de obra que há muito nós formávamos, que gestou e gerou uma Embraer, a terceira maior empresa de aviação do mundo. Era natural que a Embraer hoje, devolvendo o esforço empreendido pelo governo, fosse contratante principal do programa espacial brasileiro, mas ela não quer. Ela se privatizou, tem outros interesses. Isso não é crítica, faz parte do plano de negócios de uma empresa que, autonomamente, é capaz de produzir o seu próprio desígnio.

Há hoje mão-de-obra a quem eu vou conceder bolsas para o cara ficar on job, produzindo e trabalhando para o espaço. Se resolvo o problema da transitoriedade da mão de obra e da permanência desses quadros aqui trabalhando para o espaço, estou criando a base para  o desenvolvimento de foguetes, como o Cyclone (veículo lançador de satélite), em parceria com a Ucrânia. São 220 lançamentos sem falhas. O primeiro da família Cyclone 4 será lançado do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, em 2010. Estamos trabalhando para isso. Isto se nós tivermos entendimento de que a área, na península de Alcântara, reservada para este lançamento, que fica numa área de 8.700 hectares, possa, com segurança, fazer lançamentos civis.

A nova AEB, de 25 de março de 2008 para cá só faz reunião de natureza operativa. Eu não enxugo gelo. Eu não aposto em promessa que eu não posso cumprir.

Tele.Sintese – O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) poderá, no futuro, ser usado para lançamentos de satélite do porte do geoestacionário?
Ganem
– Não. Pelo projeto original do CLA, toda a calha norte seria voltada para sítios comerciais de lançamento, que seria um ótimo negócio para o Brasil. Infelizmente isso esbarrou nos interesses locais de privilegiar, com bastante atraso, mas com muita generosidade, a comunidade  quilombola, que reivindicava a área e ficou com 79 hectares da península de Alcântara. Hoje ficamos com 8.700 hectares do CLA, mais 673 hectares do Cea (Centro Espacial de Alcântara). Com 9.300 hectares você não faz um programa espacial.

O governo praticou um entendimento pelo qual aquela querela se encerre. E entregou um território que é estratégico para o programa espacial brasileiro. Não se pode manter um programa que dependa de fontes permanentes em estado de espera do que vai acontecer.  Realmente,  Alcântara foi uma importante vila de porta de entrada para os negros da África .

Tele.Síntese – Qual a importância do satélite geoestacionário para o Brasil?
Ganem
– Por que o espaço é vital? Quando uma criança é tratada num hospital de Manaus com o diagnóstico precoce de câncer, estamos falando de espaço. Quando se controla o avião no tráfego aéreo, mesmo nas zonas de branco, da mesma forma. Se alguém usa o celular e liga, isso é espaço. Quando se liga a televisão e vê as Olimpíadas ou uma guerra ao vivo, isso é espaço. Espaço é vida, espaço é sociedade, espaço é integração de todos os sentimentos. O celular hoje é uma estação de trabalho. Mediante uma pequena cota simbólica de assinatura, você se conecta com o mundo.

O satélite geoestacionário brasileiro é uma ambição do país. Essa ambição foi dada pelo conselho superior da AEB no sentido de a gente reconstituir grupos de trabalho, no sentido de validá-los como um instrumento necessário para o país no dia de hoje. Há fortes indícios de que os clientes de um satélite geoestacionário querem-no mais do que tudo e nós vamos fazê-lo acontecer, mediante outorgas, mediante a participação da indústria brasileira associada a outros grupos tão tecnológicos e tão importantes para a inovação quanto possível. Para isso vamos buscar recursos hoje existentes ou parcerias.

A PPP (Parceria Público-Privada) poderá, inclusive, reorientar toda a vocação turística da península de Alcântara, como aconteceu com toda a região de Kouru, na Guiana Francesa. Quando em 1984, o Brasil foi a Kouru lançar o satélite de telecomunicações da coitada, finada, estatal Embratel, que foi desnacionalizada por uma quantidade de recursos extraordinários e esses recursos desapareceram. A Embratel foi desnacionalizada com cinco satélites voando. Dois mais antigos, mas três novíssimos. E o último foi lançado de Kouru
.
Tele.Sintese – O que é preciso fazer para que o projeto do satélite saia?
Ganem
– O Brasil tem um laboratório de integração de testes de satélite, ligado ao INPE, que é o único do Hemisfério Sul. O Brasil forma gente que é responsável por programas da Nasa em Marte. Então o nosso problema não é nem capital humano nem capacidade de saber fazer. O nosso problema é persistência, é foco e prioridade.

Tele.Síntese – Quais as vantagens de se ter um satélite geoestacionário nacional?
Ganem
– Comunicação estratégica é uma delas. No 11 de setembro de 2003, depois do episódio das torres gêmeas e do Pentágono, nos EUA, a pontinha do satélite americano que serve ao Brasil foi desviada . Apenas no agronegócio, dizem que a perda representada pelos dias parados, sem imagens, chegou a ordem de US$ 2 bilhões, o que equivale ao custo de 20 programas espaciais brasileiro, que vale aproximadamente R$ 240 milhões. Se o agronegócio pode perder US$ 2 bilhões de modo tão fácil, será que não está na hora do país começar a querer gastar para garantir não só o agronegócio, mas também garantir a segurança das companhias aéreas, a as telecomunicações brasileiras. Não as telecomunicações comerciais. Estas podem pagar o que elas quiserem, mas a comunicação de Estado.

Tele.Síntese – Qual o prazo para conclusão do satélite?
Ganem
– Como a gente tem os estudos avançados, um grupo dos Ministérios das Comunicações e da Defesa, eu diria que preciso de um tempo menor. A modelagem está pronta na bibliografia mundial e há interesses internacionais de parcerias. Posso perfeitamente aproximar interesses privados com abertura completa do pacote e do sistema de engenharia embarcada reduzir o tempo até a metade. Quero fazer isso com as empresas produtoras de tecnologia nacional que estão na sua maior parte concentradas no estado de São Paulo.

O satélite geoestacionário é ainda um projeto, uma consulta, que quero transformar em um projeto básico e depois em um projeto executivo. Com um pouco de sorte, um pouco de aplicação e com recursos, a gente pode falar num prazo de 2 a 3 anos, porque queremos a participação da indústria nacional. Esse tempo poderia ser menor se fosse usar a tecnologia estrangeira. É função da agência também incentivar a indústria nacional.

Trabalho com o prazo de dois anos porque o Brasil já tem muita coisa pronta. Nós vamos atualizar os estudos e buscar parcerias lá fora com vistas a queimarmos etapas, sem abrir mão da participação da indústria nacional.

Tele.Síntese – No processo de aquisição da Brasil Telecom, a Oi se comprometeu a investir em um satélite militar. A operadora faz parte desse projeto?
Ganem
– Eu ouvi essa notícia na França, mas até hoje não fui procurado por ninguém da operadora.

Tele.Síntese – Esse é o principal projeto da AEB?
Ganem
– É um deles. A AEB é um local de manifestação da cidadania. Eu não sou político, sou um técnico, que trabalha há muitos anos com ciência, tecnologia e inovação. Eu vim aqui gerir um programa que precisa de gestão, precisa de foco e, mais do que isso, de definições sobre a forma de que nós vamos proceder os gastos destinados à agência até 2010.

A AEB é guardiã do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), que também será objeto de uma intensa discussão para reformulação. Mas enfrentamos dificuldades. AEB é um dos primeiros entes autônomos e autárquicos que foram criados no Brasil, há 15 anos, muito antes das outras agências reguladoras e nós não temos as tarefas que elas têm porque o segmento não está regulado. No fundo, somos ordenadores de despesas para dois grandes executores, o CTA (Centro Tecnológico da Aeronáutica) e o INPE. Guardadas as proporções, isso é muito pouco.

Por outro lado, nós somos uma agência que não tem quadros. Os quadros exercem funções chamadas de confiança nas quais 90% das 98 funções que temos aqui são de DAS 1 e 2, ou seja, salários muito baixos.

Não seria melhor ter uma estrutura com um quadro menor, melhor remunerado e usar a possibilidade de uma cessão de talentos de uma universidade, de um centro de pesquisas? Será que não deveria haver uma carreira de Espaço no contexto do governo brasileiro, que criou tantas carreiras? Hoje tem a carreira de papilocopista da Polícia Federal, que ganha mais do que um professor doutor da universidade pública federal. 

Tele.Síntese – O Brasil tem licença para lançamento de satélites?
Ganem
– Não são bem licenças, é um processo junto a UIT (União Internacional de Telecomunicações), uma espécie de autorização. O Brasil tem três pedidos de posição satelital, um vence em 2010, outro em 2011 e o último, em 2013. Vamos tentar aproveitar os dois últimos porque essas autorizações não são renováveis. A  UIT criou um procedimento para forçar que os países que contrataram uma posição avancem no sentido de colocar os satélites em órbita.

Tele.Síntese – Em outras ocasiões o Brasil tentou lançar um satélite geoestacionário, mas o projeto não saiu do papel. O que lhe faz pensar que agora será diferente?
Ganem
– Pode até não sair, pode até acontecer um acidente de percurso que eu tenha que priorizar outra coisa, a questão da legitimação das terras da península de Alcântara, por exemplo. Mas se depender do esforço da diretoria da AEB, do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), o Brasil vai concluir a recuperação da torre nobre de integração de Alcântara (que explodiu em 2003) em 2009; em 2010 o lançamento das novas tecnologias incorporadas ao VLS-1 (veículo lançador para micro e pequenos satélites); em 2011, termina a PMM (Plataforma Multimissão) e parte dos satélites que voarão com ela, faz os  CBERS 3 e 4 com a China, com metade da tecnologia brasileira; manterá no país a mão de obra que, a partir de agora se forma como  doutor ou pós-doutor, para trabalhar no programa espacial brasileiro e fará o satélite geoestacionário.

 

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