Antony Passemard, head de gerenciamento de produtos da divisão IoT do Google Cloud

O Google é conhecido por sua ferramenta de busca no Brasil, pelo sistema operacional Android, pelo serviço de e-mail Gmail, pela plataforma de colaboração G Suite. Mas, há um ano, a empresa decidiu entrar num mercado em desenvolvimento: o da internet das coisas. Empresas de tecnologia e comunicações no mundo inteiro buscam a melhor forma de abordar esse segmento, à caça da oportunidade que o transforme em uma vaca leiteira. Para a gigante digital, a maior oportunidade está não na conectividade ou nos sensores, mas na inteligência que a internet das coisas gera.

Por isso, lançou na última semana um chip capaz de extrair insights de objetos conectados e propor tomadas de decisão imediatas no local em que estão os sensores. O Edge TPU é a aposta da empresa para encontrar uma fonte de receita no mercado nascente da internet das coisas. Conforme Antony Passemard (foto), head de gerenciamento de produtos da divisão IoT do Google Cloud, esse conceito terá efeitos sobre o ecossistema. Por exemplo, ao se processar os dados e extrair insights in loco, reduz-se a necessidade de banda dos dispositivos para se conectar à nuvem.

O hardware chega ao mercado apenas em outubro, quando estará à venda. Os clientes poderão testá-lo. Os serviços que o acompanham (como machine learning e analytics) ainda estão em fase de precificação, que será definida apenas quando o produto se tornar “beta”. Abaixo, leia a entrevista que o Tele.Síntese fez com Passemard, sobre como e porque a empresa decidiu abordar o mercado da IoT.

Tele.Síntese: Qual a visão do Google para o mercado futuro de internet das coisas?
Antony Passemard, head de gerenciamento de produtos Cloud IoT: Ano passado anunciamos nossa entrada no segmento de internet das coisas com o lançamento de uma plataforma chamada IoT Core, que foi lançado em fevereiro. Depois compramos uma empresa chamada Xively, cujo negócio foi concluído em março, com objetivo de acelerar nosso roadmap. E daí vimos crescer a tração com clientes como LG, o que nos motivou a direcionar bastante investimento do Google para IoT. Também nos fez mudar certas coisas. Contratamos Injong Rhee, que era CTO da Samsung Mobile, para criar um departamento dedicado a IoT. E isso é muito importante, estamos contratando muita gente para IoT.

Por outro lado, com a demanda dos clientes, percebemos que há grande necessidade por cloud, mas também na ponta final da rede. Todos precisam de algo que não dependa da rede o tempo todo, que precise de baixa latência quando tiver acesso, que tenha um bom protocolo de transferência de dados. Então decidimos lançar um produto para a borda da rede, mas diferente do que existe aí de conectividade e armazenamento. São até capazes de rodar AutoML [plataforma de aprendizado de máquina do Google], mas não de forma eficiente. Então decidimos lançar um hardware super otimizado, com baixo consumo de energia, para rodar o aprendizado de máquina, a baixo custo. Ele realmente tem mais capacidade de lidar com nossas aplicações de forma melhorada, especialmente analytics e machine learning.

De quem é a rede em que os dispositivos de vocês vão se conectar? Alguma parceria com operadoras?
Passemard: Somo agnósticos em relação à rede. O produto roda sobre um gateway, e este gateway pode usar conectividade celular, ou LoRa, ou WiFi. O que importa é que haja uma comunicação IP com a nuvem em algum ponto da rede. Mas não importa qual a tecnologia da rede local.

Nós fazemos parte da LoRa Alliance, apoiamos o desenvolvimento dessa tecnologia, mas não achamos que vai solucionar todos os problemas. Ainda é preciso WiFi, ainda é preciso celular.

Ainda assim não acredito que os módulos que lançamos vão ter qualquer chip celular. Nosso foco é ciar ferramentas para fornecer insights baseados nos dados coletados na borda da rede. Nosso objetivo é fornecer insights rápidos, com equipamentos de baixo consumo e baixo custo. Nosso foco não é conectividade.

O agribusiness é importante no Brasil e em muitos outros países. E no campo a conectividade ainda é um problema. Vocês pensam em como lidar com essa situação?
Passemard: No caso do fornecimento para a LG, eles tinham um problema de conectividade. Precisavam de uma solução para analisar 200 imagens da linha de produção a cada 0,8 segundos. Se tivessem que mandar tudo isso para a nuvem, para inferência, e aguardar uma resposta, isso levaria muito tempo e iria exigir muita banda larga. Atrasaria a velocidade da linha de produção. Então, ter um chip capaz de fazer a inferência do machine learning no local era crítico, e esse é o tipo de problema de conectividade que o Edge TPU resolve.

O IoT já é um negócio lucrativo para o Google? Empresas do setor de telecomunicações ainda procuram a forma ideal de monetizar o serviço. Para vocês, será forte fonte de receitas no futuro?
Passemard: A gente não comenta nossas receitas. O que vimos no mercado é que IoT sempre se concentrou no conceito de conectar coisas. E realmente, é possível conectar as coisas. Mas e daí? Você comprou e conectou objetos e só gastou centenas de dólares em objetos sem valor acrescentado. O único jeito de IoT dar retorno é com inteligência para os dados coletados, ajudando a transformar o negócio, a encontrar otimização de custos, a enxergar os pontos fracos. Sem os insights, não tem porque conectar as coisas, sobram apenas sensores bobos.

Achamos que temos um ótimo posicionamento justamente para gerar os insights a partir dos dados que os objetos conectados coletam. Quando mais inteligência for possível colocar, seja na nuvem, seja na ponta da rede, mais valor os clientes vão enxergar na IoT e permitir mudanças no modelo de negócio ou melhorias nos processos.

A IoT ainda é muito concentrada em redução de Opex. É preciso chegar a um modelo diferente?
Passemard: Sim, a redução de custo é o uso mais óbvio. Acho que temos que trabalhar para que IoT migre de Capex para Opex, na verdade. O custo inicial não deve ser muito alto. Novos modelos de negócios devem se pagar. Por isso, mais inteligência melhora isso.

Alguém no Brasil já em conversas para uso do Edge TPU?
Passemard: Não.

Como serão as ofertas de vocês?
Passemard:
Nosso modelo de negócio ainda está em análise. Então ainda estamos cuidadosos sobre como iremos abordar o mercado de forma correta. Mas conforme for se tornando disponível, e sairmos do alpha, vamos entender melhor como será preço, distribuição, fabricantes. Mas ainda precisamos esperar um pouco. O Edge TPU e o Kit de desenvolvimento poderão ser comprados online, a partir de outubro.

O consumo de energia do chip permite com que ele rode por anos sem recarga?
Passemard:
Não. Ele gasta pouco, mas não tão pouco quanto sensores. Em uma solução para acompanhamento de gado, por exemplo, o recomendado é que cada cabeça use um sensor e um chip LoRa. Os dados então coletados em um hub, e o Edge TPU, nesse hub, processa o conjunto dos dados.

Em termos de segurança, como a Google trabalha para que os objetivos conectados não sejam usados como bots para ataques em massa?
Passemard: Essa é uma questão importante. Nós desenvolvemos um módulo que vem com um chip próprio de segurança. Esse módulo pode ser usado com qualquer equipamento LoRa, por exemplo, para garantir uma conexão segura com a nuvem. Seu design faz com que ele possa ser fabricado na China, por exemplo, sem que o cliente precise informar qualquer chave criptográfica. Esta é inserida depois, pela nuvem, via um serviço que fornecemos. Aí tem outro ponto, que na nossa arquitetura, nenhum objeto conectado se comunica com a internet sem passar pela nossa nuvem. O acesso é sempre cliente-nuvem-objeto ou objeto-nuvem-cliente. Isso já dificulta a tomada do controle.