Compartilhamento de endereços IPV4 degrada serviços e prejudica VoIP


Enquanto nos EUA, 8,15% dos protocolos são IPV6, no Brasil a adoção não ocorreu no ritmo esperado (apenas 0,04% adotaram o novo protocolo). Com o esgotamento dos endereços do IPV4, as operadoras estão usando uma tecnologia para compartilhamento de endereços.

Um levantamento da Cisco aponta que, no Estados Unidos, 8,15% dos usuários já adotaram o IPV6, enquanto no Brasil apenas 0,04% usam a nova versão. As razões do atraso vão da falta de investimentos em novos equipamentos a dificuldades na migração, que ocorrem, por exemplo, com a tecnologia 3G ou com o conversor docsis 2.0. Fora isso, com a reserva de endereços IPV4 limitada a 4 milhões (divididos em dois blocos de 2 milhões cada) e outras restrições (a liberação, que pode ser feita somente de seis em seis meses é limitada a 1.024 endereços por provedor), as operadoras estão testando um recurso pouco recomendado, o do compartilhamento de IPs públicos. A tecnologia, chamada de Carrier-Grade NAT (Network Adress Translation), permite que o provedor, ao invés de entregar para seu cliente um IP público, entregue um número que não é válido. “As operadoras de celular já usam esse recurso e as de telefonia fixa estão testando o Carrier Grade”, informou, ao Tele.Síntese, Edwin Cordeiro, analista de projetos sênior do NIC.br.

O recurso, explicou, pode trazer algumas limitações para o usuário final, uma vez que pode inviabilizar o serviço de VoIP de um cliente ou impedir que um usuário jogue play station, caso tenha recebido um endereço de IP não público. Para Vanda Scartezini, da Polo Consultores, o problema mais grave no compartilhamento de IPs é a dificuldade legal que esse recurso cria para identificar um usuário suspeito de um crime, como pedofilia. “O ISP faz o truque e não se sabe quem é o cliente”, diz Vanda. “O serviço fica pior. A pratica mais adequada de mercado seria ter um equipamento adequado para rodar o IPV6”, defende Vanda.

Cordeiro concorda. Segundo ele, se a Polícia Federal identificar um crime de pedofilia, notificar a operadora, esta não poderá indicar um único endereço do suspeito. “Se uma grande operadora estiver usando o Carrier Grade, não terá um número de usuário mas uma centena de números, o que vai dificultar e até inviabilizar a investigação”, afirmou.

Tanto para Cordeiro, como para Vanda, o ideal seria que os clientes, públicos e privados, e as operadoras, acelerassem a adoção do novo protocolo, o IPV6. Até porque, lembra Cordeiro, o estoque de IPV4 acabou no dia 4 de junho. A reserva de aproximadamente 4 milhões de endereços é para toda a América Latina e Caribe, e não só para o Brasil. E o critério, em resumo, é: os endereços podem ser liberados para uma nova empresa, que não tem IPV4 no país, ou para um provedor que esgotou seus números e não fez nenhum pedido em seis meses. Nos dois casos, a liberação é limitada aos 1.024 endereços.

“O problema é que o IPV6 não está extremamente difundido. Embora tenha sido adotado pelos principais provedores de conteúdo, como Google, Facebook, Terra, os sites do governo federal e dos governos estaduais não têm o IPV6”, comenta Cordeiro. No caso do governo federal, o Serpro tem, em sua infraestrutura, equipamentos para rodar o IPV6, porém, o processo de colocar o site de seus clientes ainda não está pronto, de acordo com o analista. “Falta o sistema web que roda em cima do equipamento preparado para o IPV6”, informa. Cordeiro dá como exemplo o Imposto de Renda. Se o site da Fazenda não migrar para o IPV6, as declarações enviadas por pessoas físicas ou empresas que usem o novo protocolo, não chegarão ao site da Receita Federal. Nos estados e nas respectivas empresas de processamento de dados a situação é bem semelhante.

Atraso

A expectativa era de que o mercado adotasse paulatinamente o IPV6 e, em dez anos, a migração ocorresse naturalmente. “Isto não aconteceu. Em algumas regiões os endereços IPV4 acabaram em 2011”, comenta o analista do NIC.br. Acredita-se que o principal motivo tenha sido a falta de investimentos: do lado da operadora, é preciso investir em centrais e em sistemas; do lado do usuário, há necessidade de troca de alguns equipamentos, como computadores e até mesmo celulares, uma vez que os modelos mais antigos não funcionam com o IPV6.

Outra questão é que, com algumas tecnologias, caso da 3G, a migração é mais difícil. Isto porque o IPV6 foi considerado no desenvolvimento da 4G mas não na tecnologia 3G. “Isso torna mais difícil a migração e é preciso considerar também o volume”, observa Cordeiro. A mesma situação se verifica no cable modem da TV paga. Com a versão mais nova, docsis 3.0, funciona bem; com a anterior (docsis 2.0) é mais difícil. “Em alguns casos é necessário trocar o equipamento, seja na central ou o roteador na casa do cliente”, diz Cordeiro.

 

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