Os provedores mantêm o ritmo de expansão


As operadoras regionais de serviços de comunicação continuam a crescer na casa dos dois dígitos, nos sete primeiros meses de 2017 responderam por 73% das novas adições da base de banda larga e já incomodam as grandes operadoras. Que começam a reagir.

O TeleSíntese.com.br está publicando, periodicamente, os textos que integram o Anuário Tele.Síntese de Inovação 2018. A versão integral do Anuário pode ser baixada aqui, em formato PDF.

Efervescência. Essa é a palavra que talvez melhor defina o momento que vive o mercado de provedores regionais no Brasil. Juntas, as pequenas e médias operadoras com licença SCM (Serviço de Comunicação Multimídia) estimularam o crescimento da banda larga fixa nos primeiros sete meses do ano com a adição de 1,2 milhão de acessos, 73% do total, enquanto as grandes operadoras Claro, Vivo, Oi e TIM mais as concessionárias Algar Telecom e Sercomtel responderam pelos 27% restantes. No total, os provedores regionais somavam, juntos, uma base de 5,63 milhões de terminais em julho de 2018, de acordo com dados da Anatel.

A crescente expansão de conexões via fibra óptica entre os ISPs também colaborou para que essa tecnologia fosse, percentualmente, a líder em expansão, apesar dos fios de cobre ainda serem maioria. A capilaridade e a base de assinantes registradas pelos provedores regionais têm um outro efeito sobre o mercado de telecom – o maior interesse por parte de investidores nessas empresas – o que pode acelerar ainda em 2018 o processo de consolidação que vem sendo anunciado há algum tempo.

“Em 2017, os provedores regionais já detinham mais de 50% dos acessos em 1.241 municípios”, observa Artur Coimbra, diretor de Banda Larga da Secretaria de Telecomunicações do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC). No início deste ano, antes da arrancada no número de assinantes no semestre, a representatividade dos ISPs superava 10% da base de banda larga fixa em todos o estados da região Sul e na maioria do Norte e Nordeste. Quando desagregados os dados por municípios, o que se notava era que, em média, 24% dos acessos estavam nas mãos dessas empresas.

“Há dois anos os provedores são campeões da inclusão”, comemora Basílio Perez, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint). Isso tem significado nos últimos dois anos um crescimento anual que oscila entre 20% a 30%, índice cobiçado por vários setores da economia que não conseguem expandir além da faixa de um dígito. E, para o executivo, a expansão deverá permanecer nesse patamar no próximo ano.

Se os números de terminais dos ISPs não fosse subestimado pelas próprias empresas ao informar os dados à Anatel, é possível que os ISPs, em seu conjunto, já tivessem superado a base instalada da Oi, que desligou terminais neste ano. Em julho, registrava market share de 20,23% contra 18,45% dos ISPs, mas, ao anunciar os resultados do segundo trimestre de 2018, divulgou um plano agressivo para recuperar o terreno perdido para os provedores regionais.

Perez considera que os provedores regionais respondem por 50% do acesso via fibra óptica para residências: “Temos algo como 6 milhões de clientes com acesso via fibra; acredito que os provedores regionais atendem pelo menos 3 milhões de consumidores nessa tecnologia”. Essa infraestrutura de fibra óptica tem atraído a atenção de investidores, mas não apenas deles. “As operadoras estão investindo na expansão da 4G e futuramente na 5G, onde os backbones são e serão parte fundamental do crescimento. Para isso, parcerias com os provedores regionais para utilização de suas infraestruturas estão cada vez mais no radar dessas companhias”, diz Perez. A TIM, que já tem acordo de utilização de infraestrutura de ISPs, é uma das operadoras para a expansão do backbone de suas redes
de telefonia móvel.

Como vem acontecendo na expansão da banda larga fixa, os provedores regionais também terão papel relevante no crescimento das aplicações de Internet das Coisas (IoT) em projetos da área rural na opinião do ex-deputado federal, ex-presidente da Telebras e atualmente consultor nesse mercado, Jorge Bittar. Para ele, é importante, em primeiro lugar, garantir o acesso nas sedes dos municípios para que ele possa se estender às fazendas que necessitam de conectividade para suas sedes. E também para o desenvolvimento de novos serviços no campo.

“Os provedores regionais já cumprem esse papel fundamental ao levar a conectividade para as cidades de menor porte”, ressalta. Segundo o consultor, os provedores têm utilizado as plataformas de fibra óptica e rádio para essa cobertura, mas precisam avaliar a faixa de 250 MHz para sistemas LTE em rede privada já que as frequências
de 450 MHz estão nas mãos das operadoras.

As operadoras, por sua vez, não estão atentas apenas à possibilidade de acordos de compartilhamento de infraestrutura. Em alguns casos, o avanço dos ISPs começou a incomodar. Na opinião de Perez, o esforço da Oi – e de outras que estão avançando a cobertura de fibra em cidades menores – pode prejudicar algumas operações
regionais de ISPs, mas, no geral, não vai conter a expansão dos provedores. “Somos cerca de 9 mil provedores espalhados pelo país. Em números globais, os investimentos dessas empresas não vão alcançar todos ao mesmo tempo”, ressalta.

Personalização

“Os provedores entenderam que a profissionalização é parte essencial do seu negócio. Eles prestam ainda um serviço diferenciado, regionalizado e seus clientes os conhecem”, comenta Caio Bonilha, sócio-diretor da consultoria Futurion. Na sua avaliação, são empresas que “não têm medo de competir”, pois cresceram em um ambiente que não lhes foi favorável em vários aspectos, como, por exemplo, o acesso a financiamentos de bancos públicos e privados.

O consultor lembra que, entre 2014 e 2017, os provedores implantaram 3,2 milhões de novos acessos, enquanto as grandes operadoras implantaram 3,3 milhões. Com base em um valor médio histórico de US$ 800 por acesso, os provedores regionais investiram US$ 2,6 bilhões nesse período, uma média de R$ 2 bilhões por ano. “E aplicaram todos esses recursos com capital próprio”, ressalta o consultor. Esses são alguns dos dados que constam do documento elaborado pela Abrint com sugestões de política pública e o papel dos provedores entregue aos presidenciáveis em campanha às eleições de outubro deste ano.

Não por acaso, a questão do crédito é um dos temas que vem sendo debatido com frequência entre os provedores e autoridades governamentais. O maior obstáculo tem sido a exigência de garantias pelos bancos comerciais e públicos, pois eles não aceitam os principais ativos do setor, que são a infraestrutura de rede e a base de assinantes. A solução do problema passa pela criação de um fundo garantidor, discutida desde 2014 sem sucesso.

No entanto, o próprio crescimento do mercado de ISPs e sua participação como um forte instrumento de inclusão digital abriram caminho para se desenhar uma nova saída, depois que a criação do fundo garantidor no âmbito do Executivo ficou paralisada por falta de recursos. “Acreditamos que o BNDES poderá engatilhar o fundo garantidor até o final do ano”, afirmou Perez. Pelos cálculos da entidade, o efeito multiplicador desse apoio poderia representar investimentos adicionais entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões.

Além da possibilidade de viabilizar o fundo garantidor, o BNDES está finalizando novas linhas de financiamento que vão permitir operações diretas com o banco, e não por meio de seus agentes financeiros, para empresas de menor porte. Segundo Coimbra, o Programa Finem deverá reduzir o limite das operações de R$ 20 milhões para R$ 10 milhões e o BNDES 10 vai atender projetos entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões. A necessidade de uma adequação tributária também está na pauta dos provedores regionais.

“Há um ciclo que chamamos de morte súbita quando o provedor deixa o sistema do Simples e passa a pagar o ICMS”, alerta Bonilha. Nesse cenário, foram motivo de grande comemoração as reduções desse imposto em até 75% obtidas nos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. “Esse é um movimento que deve ser ampliado, com a participação nesse esforço de entidades e associações comerciais. É preciso entender que os ISPs investem onde as grandes operadoras não estão atuando, ajudam a desenvolver economicamente vários municípios ao levar a internet para cidades que, muitas vezes, não têm nem saneamento nem água”, enfatiza Salim Bayde, CEO da MOB Telecom, empresa com sede em Fortaleza, com forte atuação no Nordeste e exemplo de provedor regional que registrou expressivo crescimento nos últimos anos.

Consolidação

Em plena ebulição, é difícil avaliar ao certo qual é o valor do mercado de ISPs no Brasil. Mas há cálculos aproximados. Ao considerar que em pouco tempo esse segmento poderá chegar a uma cobertura de fibra óptica próxima a 100%, a atual base de clientes e o Ebitda dessas companhias, Rodrigo Leite , sócio-diretor da Advisia
OC&C, considera que os ISPs, somados, poderão atingir um valor de mercado entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões. Nessa perspectiva, o executivo acredita que o movimento de consolidação que está a caminho – e que ninguém dúvida de que poderá ser grande – deverá ser liderado por investidores de grande porte.

“O nosso mercado já vem passando por um processo de consolidação há um bom tempo, inclusive com fusões e aquisições entre os próprios provedores. Esse cenário de possibilidades mais amplas, por sua vez, também ajuda
a separar o joio do trigo, uma vez que algumas empresas ainda estão na informalidade”, observa Bayde. Esse movimento teve início há três anos quando a Invest Tech e Axxon adquiriram participação minoritária na America
Net. O fundo Pátria comprou cinco provedores consolidados na Vogel Telecom e a Acon Investimentos adquiriu duas empresas regionais de cabo – Cabo Telecom, de Natal, e Forte Multiplay, de Fortaleza – para, em seguida, investir
na expansão via fibra óptica.

Segundo fontes do mercado, há atualmente pelo menos cinco processos em andamento, sendo o mais famoso o que envolve a Sumicity, operadora fluminense com mais de 50 mil clientes e presença em três estados. Está sendo
aguardado desde junho o anúncio de sua aquisição por um grande fundo de investimentos. “Muitas empresas estão sendo procuradas, elas entraram no radar dos investidores quando passaram a registrar crescimento de dois dígitos, algo muito incomum em função da prolongada crise econômica”, observa Bonilha.

Anterior Anatel abre consulta pública da proposta de agenda regulatória
Próximos Na trilha da banda larga