“O modelo atual de banda larga se esgotou”, diz presidente da RNP


Para Nelson Simões, o Brasil precisa construir uma nova política de Estado para levar fibra para o interior do país e ampliar a velocidade. A RNP se propõe a interligar todas as universidades do interior com 100 Mbps e as urbanas com 1 Gbps. “Mas isso exige a construção de uma política nova e diferenciada, seja ela o PNBL 2.0 ou o nome que venha a ter. O modelo atual se esgotou. Para dar um novo salto precisamos de uma nova política”. defende.

*Colaborou Miriam Aquino

Nelson Simões, presidente Rede Nacional de Pesquisa (foto: divulgação)
Nelson Simões, presidente Rede Nacional deEnsino e Pesquisa (foto: divulgação)

Responsável por atender mil instituições de ensino que se espalham pelo interior do país, a Rede Nacional de Ensino Pesquisa, uma organização social sem fins lucrativos vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, enfrenta dificuldades para levar conexão de banda larga de qualidade a todos os pontos. A rede de telecom é deficiente e 70% dos municípios contam com apenas um provedor.

Para vencer as dificuldades, a RNP há nove anos montou um sistema de parcerias com atores do sistema público e empresas privadas, que lhe permitiu prover conexões de qualidade nas áreas metropolitanas. Para cobrir o interior,  agora está recorrendo também aos provedores regionais, pequenas operadoras que respondem pelo acesso em boa parte dos municípios com menos de 50 mil habitantes.

Nesta entrevista, Nelson Simões, presidente da RNP, conta também quais são os principais projetos de desenvolvimento tecnológico nos quais a RNP está envolvida. Entre eles, a preservação digital dos acervos culturais das instituições públicas.

 Tele.Síntese Um dos desafios da RNP é levar a conexão, em alta velocidade, para todos os campi e institutos criados nos últimos anos. Como atende a essa demanda?

Nelson Simões – A cobertura de banda larga nos municípios brasileiros é deficiente: 4.601 municípios têm apenas um provedor de banda larga, em geral concessionária, o que equivale a mais de 70% do total. Ao se cruzar tal dado com os municípios que têm, desde 2010, um backhaul cuja capacidade máxima era de 64 Mbps, chegamos a 47% dos municípios naquele ano. Portanto, há um cenário onde menos da metade dos 5.600 municípios brasileiros tem um backhaul de capacidade máxima acima de 64 Mega, não necessariamente em fibra óptica. E 30% dos municípios têm mais de um provedor de acesso. Esse é o pano de fundo para a implementação de conexões para a educação superior do Brasil, que viveu uma drástica interiorização.

Tele.Síntese – Quantos pontos a RNP precisa conectar?

Simões – Atualmente, existem aproximadamente mil localidades no país, com campus de universidades ou institutos federais (elevados à categoria universitária), que normalmente comportam de duas a três mil pessoas em seu corpo estudantil e docente. Tais estruturas educacionais têm uma necessidade superior a 100 Mbps e, idealmente, a 1 Gbps, necessidade igual a que provemos para as instituições das áreas urbanas, num esforço desenvolvido ao longo dos últimos nove anos envolvendo muitas parcerias para constituir redes públicas de alta qualidade e disponibilidade. Agora em junho, vivemos um momento de grande realização ao lançarmos a rede metropolitana do Rio de Janeiro, uma das mais complexas de se instituir, com mais de 300 quilômetros de extensão e 35 instituições, incluindo a própria prefeitura.

 Tele.Síntese – A RNP teve um papel importante ao impulsionar redes estaduais, que foram desenvolvidas a partir dos acordos firmados para a construção da rede metropolitana. Qual sua opinião?

Simões – Concordo com a seguinte visão: ao construir redes de pesquisa nas capitais, foi mostrado que não é anátema ter a participação do poder público em uma rede comercial. Muito ao contrário, já que se gera um ambiente de maior competitividade. Em alguns casos, isso estimula investimentos dos operadores ou autorizados que também precisavam estar presentes  por outras razões. Esse processo mostrou para os governos que havia espaço para um empreendimento público não comercial ou em associação com o setor privado, ou mesmo em parcerias público-privadas. Podemos utilizar, com exemplo, o Ceará e o Pará. O primeiro se encontra em estágio mais avançado; o segundo ainda se está recuperando a condição de uma interiorização em parceria com o setor privado. Tal processo também pode ocorrer agora na Bahia, e já teve início na Paraíba.

 Tele.Síntese – Quando se fala do desafio de atender à interiorização das universidades e institutos federais, qual é o papel da Telebras?

Simões – Neste momento, a Telebras vem servindo a mais de 50 instituições no interior.  Nos últimos tempos a empresa teve uma demanda muito forte com a Copa, o que limitou os potenciais resultados. A Telebras é de extrema importância para a interiorização, mas também o setor privado, as concessionárias e as novas entrantes foram alternativas de qualidade para a RNP. Especialmente as novas entrantes devido à sua agilidade, já que não têm legado. Destaco o papel dos provedores regionais, presentes em áreas normalmente sem o serviço, inserindo-se na cadeia de telecomunicações ao prover infraestrutura, acesso e backhaul para outras empresas e grupos maiores.

Tele.Síntese – A RNP tem quantos parceiros hoje?

Simões – Para o atendimento do interior, temos por volta de 15 empresas, pois no Sul, Sudeste e parte do Nordeste temos mais de uma parceria em estados como Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraíba, Rio Grande do Norte, e mesmo no Rio de Janeiro. Tem empresas que nem podemos dizer que são da região, pois há, por exemplo, empresas do Sul que estão estendendo sua infraestrutura para o Nordeste, e empresas do Nordeste que desejam voltar-se para o Sudeste por precisar cortar trânsito por questões de custo. O que se percebe é que há um mercado de pequenos e médios provedores que não atende só o segmento de mercado de varejo. Alguns são focados no agronegócio, que está no interior nos vazios de costela dos backbones. Então, é muito interessante, como ordenação e como país: as redes não comerciais de pesquisa estão submersas, assim como a dos pequenos e médios provedores.

Tele.Síntese – Depois do PNBL e da Telebras, que derrubou os preços (apesar de hoje não ser mais competitiva),  ocorreu uma mudança de paradigma. Como você analisa este processo?

Simões – O PNBL foi o gatilho, e pequenos provedores se fundiram e se organizaram, criando marca e estrutura conjunta para atender e acompanhar tal processo. Para estas circunstâncias , temos um mote na RNP: “Se você vai pro interior, eu vou com você”.

Tele.Síntese – Voces estão em quantas localidades?

Simões – Até o final do ano, esperamos atender 70% dos mil pontos a que me referi acima, juntamente com nossos parceiros no interior.  Estamos tentando entregar, como patamar mínimo,  conexão de 100 Mbps, pois os mestres e doutores que vão para o interior, logo após sua pós-graduação, precisam se manter conectados com seus grupos de pesquisa, com os debates. A conexão de qualidade é fundamental para a fixação desses profissionais no interior.

Tenho conversado muito sobre esse tema com Paulo Speller, da Secretaria de Educação Superior do MEC,  com o ministro da Educação Henrique Paim, e percebi que a ponta de lança no Brasil para redução de assimetrias é de fato esse processo de fixação das pessoas que vão transformar as cidades no interior. Além da fixação dos profissionais e do atendimento às instituições, a rede acadêmica vem atuando muito para construir uma infraestrutura de comunicação e colaboração para a área médica, interligando hospitais e grupos de pesquisa. Depois de interligar o interior com 100 Mbps, temos que evoluir para 1 Gbps, que é nossa meta para as áreas urbanas no programa Novas Veredas. Mas isso exige a construção de uma política nova e diferenciada, seja ela o PNBL 2.0 ou o nome que venha a ter. O modelo atual se esgotou. Para dar um novo salto precisamos de uma nova política.

Tele.Síntese – Quais são os arranjos para a expansão da rede acadêmica seja nas regiões metropolitanas, seja no interior? A RNP faz também investimentos diretos?

Simões – O principal arranjo são as parcerias com o setor privado. Temos também parcerias com o setor público, com empresas de processamento de dados. Se necessário, investimos também no empreendimento — nossos recursos vêm do MEC e do MCT. Portanto, o modelo é misto. Temos aliança com atores públicos, em geral uma empresa de processamento de dados ou a Secretaria de Ciência e Tecnologia, onde investimos em conjunto. Temos parcerias com o setor privado seja ele o médio provedor, ou o grande provedor. Muitas vezes, em licitações que fizemos vencidas por uma grande operadora, como a Oi ou a Telefônica, foi necessário fazer um investimento conjunto para atender a uma determinada localidade, onde a operadora não chegava com a conexão de que precisávamos. Nessas situações, fazemos o investimento em conjunto, em troca de qualquer outro serviço e facilidade.

Tele.Síntese – E os 30% das universidades e institutos do interior que não serão atendidos até o final do ano? Que conexão utilizam?

Simões – Boa parte usa conexão comercial, mas com velocidade mais baixa. Uma parte é atendida por satélite, especialmente as que estão no Norte do país. Temos um projeto para construir uma infraestrutura terrestre na Amazônia, com o lançamento de redes subfluviais ao longo da margem dos rios. Vamos começar um piloto que vai ligar Coari a Tefé, um trecho de 200 quilômetros que vai custar R$ 15 milhões, dentro do Programa Inova Telecom. Nosso parceiro de tecnologia é a Padtec. Se o piloto for bem sucedido, poderemos atender a Amazônia com essa tecnologia. Serão 7,7 mil quilômetros de rede subfluvial, a um custo ao redor de US$ 500 milhões.

Tele.Síntese – Qual é a estratégia para elevar a velocidade de conexão desses 30% de instituições? Imagina que elas estarão incluídas no PNBL 2.0 ou 5.4?

Simões – Temos discutido politicamente e esperamos que este universo seja contemplado por uma política pública. Acreditamos que essa deve ser a meta do Estado brasileiro.  O Estado deveria falar que vai fazer dessas mil localidades onde estão as instituições universitárias no interior a ponta de lança de uma estratégia de levar fibra a todos os municípios. Neste caso, a discussão é mais ampla. Saímos da discussão da infraestrutura para pesquisa, de uma ciberinfraestrutura, e partimos para uma estrutura de país. Nós vamos ter uma estratégia para fibra nas cidades? O plano de banda larga norte-americano fez isso ao criar a ideia das instituições amplas. Em minha opinião, isso favorece pois fixa recursos.

 Tele.Síntese – Vocês têm algum levantamento do efeito da presença da rede da RNP nessas cidades?

Simões – Deveríamos, mas não temos. Contratamos um estudo socioeconômico da Unicamp sobre impacto da RNP no mercado de telecomunicações em geral. Mas ele foi baseado em números são de 2010. O estudo mostra que cada real investido na RNP gera dois reais na cadeia de telecomunicações e informação . Portanto, se eu rodo R$ 220 milhões por ano – este foi o orçamento do ano passado –, estou gerando R$ 440 milhões na cadeia. Um emprego na RNP gera oito, de acordo com os dados da Unicamp.

 Tele.Síntese – Você acredita na tecnologia móvel no sentido de suprir necessidades na sua área?

Simões – Certamente, mas ela é complementar. As instituições de ensino e pesquisa são permanentes e gulosas em termos de banda.

Tele.Síntese – A RNP tem uma área de inovação em rede, onde está esse projeto do cabo subfluvial. Que outros projetos inovadores estão sendo desenvolvidos? Algum na área de conteúdo?

Simões – Para a RNP. o  conteúdo  são as plataformas para habilitar armazenamento, uso e reuso. Há uma necessidade, hoje, na rede acadêmica  de se fortalecer a infraestrutura no campus. Por exemplo, a rede metropolitana de Brasília chega na UNB com 10 Gigabits, mas também deve atingir o campus do Gama com 10 Gigabits. Nós estamos expandindo para todo o entorno, mas dentro do campus há fragilidades, como armazenamento, segurança e mobilidade. Estamos trabalhando com a visão da criação de uma nuvem comunitária da RNP em conjunto com as universidades. Há um mês, inauguramos em Manaus o primeiro container datacenter desse projeto de centros de dados compartilhados. O próximo será em Recife.

Tele.Síntese – Você comentou que um dos projetos que a RNP está desenvolvendo  para o Ministério da Cultura é o de preservação digital. O que é isso?

Simões – É digitalizar e guardar, documentos, filmes, livros. É muito difícil fazer isso de forma profissional, segura.

 Tele.Síntese – Mas o Google não está criando um  banco de dados mundial justamente para isso?

Simões — Ele tem uma intenção de fazer um acervo mundial, mas quem são as instituições brasileiras que estão colaborando com o Google? Qual a intenção do Brasil de pegar os seus conteúdos digitalizados e colocar no Google em algum lugar? Acho que é importante que os países tenham capacidade de preservar a sua cultura. E hoje a cultura que temos gerado já nasce digital. Temos aí um desafio. O cinema, por exemplo, ele assim como qualquer cinema é feito digital, e por incrível que pareça é preservado em químico. A indústria do audiovisual foi extremamente transformada pelo barateamento do vídeo de alta qualidade. Produzir um filme em digital é o comum, mas guard-lo em digital é um desafio. Se eu fosse um cineasta e tivesse um curta ou um longa, onde eu armazeno isso? Ponho no Google? Se eu for um produtor e tiver uma produção muito grande, eu preciso guardar em algum lugar, e ai começam os problemas. Por que qualquer lugar que você guarde, dependendo de como ele maneja aquela informação, aquilo é muito mais perecível do que se estivesse em uma cópia de celulóide, pois o filme celulóide dura comprovadamente 150 anos se conservado em um lugar seco.

Portanto, a indústria esta passando por um momento onde novos modelos de negócios e novas tecnologias vão assegurar essa preservação digital. Em todo o mundo se pesquisa formas de fazer isso. E, no Brasil, em especial frente às fragilidades das nossas instituições (de todas elas, ciência e tecnologia, cultura, museus, bibliotecas, universidades), precisamos investir nessa direção, para não continuarmos a perder nossa memória, nossa cultura. Uma das estratégias de RNP no programa com a Cultura é trabalhar com acervos.

Tele.Síntese – Especificamente em relação ao conteúdo audiovisual, vocês tem algum projeto em andamento?

Simões – Com a Cinemateca, temos três linhas de atuação. Uma é o cinema em rede, onde muitos dos títulos importantes da história do cinema do Brasil estão já digitalizados, como Glauber Rocha, Eduardo Coutinho, e outros. Hoje, quase nenhuma universidade tem uma sala de projeção para se colocar um filme em rolo. Mas é possível gerar uma boa sala de projeção digital. Estava faltando criar uma rede de cinemas.

Temos um projeto piloto com seis salas, uma em cada universidade, onde são exibidos filmes da Cinemateca. As salas que estão no piloto atualmente são Cine USP, Cine Redenção (em Porto Alegre, na UFRS), a UFBA, a Fundação Joaquim Nabuco em Recife , e a Cinemateca Brasileira. Um programa em rede, nada diferente do que o circuito comercial faz, mas com um detalhe: as plataformas de codificação em NK de 2K, 4K ou 8K são desenvolvidas por um grupo de pesquisa do Brasil. Estamos conseguindo, a partir disso, gerar um hardware e um software que custa muitas vezes mais barato do que se tivéssemos de comprar dos fabricantes no exterior.

 

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1 Comment

  1. 10 de junho de 2014

    Engraçado que o Paraná tem um modelo diferenciado, que possui mais de um provedor em todos os 399 municípios do estado, por meio da sua empresa de energia e, embora a RNP se utilize desta infraestrutura de maneira massiva, nenhuma menção ao estado foi feita.