O mercado depois da megafusão Alcatel-Lucent


“O maior motivador de ações como a fusão Alcatel-Lucent é a busca de melhor desempenho e atendimento a clientes cada vez mais exigentes. A evolução tecnológica tem seus desafios: há cada vez menos operadoras e os fornecedores, de seu lado, querem estar melhor preparados para atendê-las”. Eis como Petronio Nogueira, sócio-diretor da Accenture, responsável pelas …

“O maior motivador de ações como a fusão Alcatel-Lucent é a busca de melhor desempenho e atendimento a clientes cada vez mais exigentes. A evolução tecnológica tem seus desafios: há cada vez menos operadoras e os fornecedores, de seu lado, querem estar melhor preparados para atendê-las”. Eis como Petronio Nogueira, sócio-diretor da Accenture, responsável pelas áreas de telecomunicações, mídia e tecnologia, situa a megafusão que criará uma empresa franco-americana com faturamento conjunto de US$ 25 bilhões.

Se essa associação será coroada de êxito no período previsto de seis a doze meses é outra história. Deixando claro que consideram o movimento positivo, alguns analistas enumeram possíveis pedras no meio do caminho: dificuldades relacionadas a cultura e governança; ajuste de carteiras de produtos e serviços; unificação de processos de negócios; questões de infra-estrutura, inclusive física.

No tocante ao desafio cultural, os especialistas consideram que a demissão em massa será o primeiro de muitos. Quanto a produtos e serviços, podem ser necessários alguns anos até que as duas empresas consigam combinar linhas de produtos, equipes de funcionários e executivos dispersos pelo mundo, e que estão acostumados a fazer negócios de modo diferente.

Auto-defesa?

Outros especialistas avaliam que, diante da consolidação da demanda, a junção de fornecedores seria irreversível: o que se vê, por todos os lados, é a migração fixo-móvel e mais e mais aquisições, “de montante a jusante”. Eles traçam um paralelo com outros setores, por exemplo, o varejista: quando começou a concentração em enormes cadeias como Wal-Mart e Carrefour, o mesmo se assistiu no lado dos fornecedores.

Outras análises do atual ciclo de fusões apontam a associação de empresas como uma resposta à competição crescente entre empresas ocidentais e fabricantes asiáticos que produzem a custos muito mais baixos. Bem como ao poder de barganha de operadoras cada vez maiores. Mas, para a fusão Alcatel-Lucent atingir seus objetivos, “as duas companhias terão que ser muito disciplinadas”, observam especialistas. Chamam atenção, ainda, para o fato de que “as empresas deixaram acentuada impressão de que a associação é principalmente defensiva, feita mais com o objetivo de cortar custos do que com o de achar novas fontes de receita”.

Anunciada ontem, domingo, dia 2, no dia seguinte, as ações da Alcatel tiveram alta de quase 6% na Euronext Paris, dando à empresa uma capitalização de mercado de 19,3 bilhões de euros (US$ 23,25 bilhões). Se as autoridades da concorrência aprovarem a fusão, no máximo em um ano, superadas as dificuldades apontadas por especialistas, nascerá o segundo maior fabricante de equipamentos do mundo, cujo volume de negócios ficará próximo ao da Cisco (US$ 28 bilhões), mas superior ao da Ericsson (US$ 21,9 bilhões), Siemens (US$ 16,2 bilhões) e Nortel (US$ 11,1 bilhões).

Pontos fortes

“A lógica estratégica dessa transação é incontestável. A indústria de telecomunicações assiste ao início de uma grande transformação das redes, das aplicações e dos serviços, que deve lhe permitir a oferta de serviços convergentes às operadoras e empresas, sobre uma enorme gama de terminais pessoais”, afirmou Patricia Russo, hoje a principal executiva da Lucent e indicada para CEO da futura empresa, no primeiro comunicado conjunto da fusão, ontem, dia 3.

De fato, na área de produtos e serviços, dizem analistas, a megaorganização terá presença marcante em vários segmentos: será a número 1 em DSL; a terceira (atrás da Cisco e Juniper) em roteadores IP; e estará bem posicionada na área de serviços. Contudo, o posição no segmento móvel é menos confortável, visto que as duas empresas trabalham com padrões distintos: a Alcatel tem participação de 11% no mercado GSM, e a Lucent, 48% no CDMA. E no tocante à implantação de redes UMTS a presença das duas não é significativa.

Por fim, mesmo que o ciclo atual de fusões e aquisições possa trazer à lembrança o que aconteceu há pouco mais de duas décadas, quando o órgão regulador das comunicações dos EUA, a FCC, determinou o desmanche da AT&T, que hoje se reaglutina, o contexto, destacam analistas, era outro. Tratam-se, apontam, de cenários completamente diversos tanto no tocante às tecnologias vigentes e como aos modelos de negócios.

No passado, a decisão da FCC foi movida pela necessidade de introduzir a competição no mercado. Hoje, é também a competição que leva as operadoras a se associar para poder fazer face às tecnologias emergentes (wireless, WiMAX, PLC) que possibilitam a oferta de serviços convergentes. Ao se fundir, as empresas têm maior capacidade de investimento e de dar passos mais largos. E o processo de compras deve ser propagar para fazer face aos desafios que se colocam, ajustar o foco de atuação e obter ganhos de escala.

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