O mercado de fibra óptica retoma o fôlego


{mosimage}A Furukawa não esperava muito de 2006, admite seu presidente Foad Shaikhzadeh, em entrevista ao portal Tele.Síntese. Mas a demanda, sobretudo a privada, que consome redes e cabeamento estruturado, não decepcionou, e é ela a que gera metade da receita da empresa. Quanto ao futuro do segmento, passa pelo desaparecimento do cabo metálico, que será substituído pelo óptico, que disseminará a fibra para dentro da casa do cliente.

A fabricante de cabos metálicos, ópticos e soluções de cabeamento estruturado sediada em Curitiba (PR) não tem queixas de 2006, ainda que os parâmetros do auge pós-privatização jamais voltem a se repetir. Neste exercício, a Furukawa deve crescer cerca de 20%, para algo em torno de R$ 300 milhões, segundo informa ao portal Tele.Síntese seu presidente, Foad Shaikhzadeh. E, embora tenha sido forte a concentração do segmento de fios e cabos no Brasil, com fusões, aquisições e simples quebras, sempre acaba chegando mais um competidor – no caso, a Cablena, empresa do grupo Carlos Slim. Quanto às perspectivas para 2007, em resumo, quanto mais banda, melhor.

Tele.Síntese – Vamos começar avaliando como foi 2006?
Foad Shaikhzadeh – De forma geral, foi um ano razoavelmente bom. Tivemos alguns fatores positivos como a volta das compras de cabos ópticos, o que não acontecia deste 2001, quando tivemos a crise. Os volumes não são iguais aos daquela época, mas foram similares aos de 97, 98, pré- privatização. Além disso, o mercado de cabos de cobre realmente diminuiu de tamanho este ano, mas o faturamento das empresas não caiu, porque o preço do cobre como commodity subiu muito, 2,5, 3 vezes, por causa do aumento da demanda mundial, principalmente da China. O preço do insumo disparou, e isso manteve o faturamento das empresas em um nível relativamente bom, comparado com o de 2005, apesar de o volume ter sido menor.

Tele.Síntese – Mas a demanda por cabos metálicos foi regular, ao longo do ano?
Shaikhzadeh – Não, e, no final do período, os volumes voltaram a crescer, o que atribuímos à competição que começou a surgir. Então, é bom dizer que as incumbents, de forma geral, estão sentindo que o mercado de voz vai sumir, ao longo dos anos, talvez nem tantos anos assim, e, por isso, elas estão ampliando a área de banda larga. De um lado, o NET Fone via Embratel e a Telmex, de outro, as demais operadoras. Em resumo, eu diria que, neste instante, tenho uma demanda de cobre localizada.

Tele.Síntese – Cobre, ainda? Para colocar DSL?
Shaikhzadeh – Para colocar DSL. Mas, baseados em nossa experiência no exterior, talvez esse movimento dure seis meses, um ano. Logo em seguida, virá o FTTH (fiber to the home).

Tele.Síntese – É, a Brasil Telecom está pedindo informações sobre a tecnologia.
Shaikhzadeh – Nós participamos desse RFI. A Telefônica tem um projeto, a Telemar tem estudos. Tudo vai acontecer, mas em 2008. O problema é essa ponte até 2008, como preservar o cliente, não perdê-lo. Temos alguns bolsões dentro das cidades , regiões que não estão bem cobertas, e o cabo não suporta mais, não dá condições técnicas para atender uma grande concentração de clientes. Nesses casos, é mais econômico trocar o cabo metálico, atualizar a rede agora, esperando a rede óptica lá na frente. É uma demanda interessante, mas momentânea.

Tele.Síntese – E a Furukawa?
Shaikhzadeh – Devido ás crises anteriores, a empresa expandiu bastante as exportações, que cresceram muito. Decidimos não ficar tão concentrados só mercado brasileiro, e começamos a exportar cabos telefônicos e ópticos e, em paralelo, o nosso foco no mercado interno é cabling, rede interna, e também estamos exportando esse produto, além dos acessórios para instalação da rede interna, tanto metálicos quanto ópticos.

Tele.Sintese – Quais os destinos das exportações?
Shaikhzadeh – Naturalmente, nosso primeiro mercado é o Mercosul. Temos uma operação boa na Argentina, que estamos ampliando, temos um escritório de vendas e estamos até analisando a possibilidade de produção local, porque o país tem uma política protecionista e, como queremos ser fortes nessa região, vamos analisar se faz sentido produzir um ou outro item no país. Temos presença muito forte no Mercosul, de forma geral.

Tele.Síntese – E fora o Mercosul?
Shaikhzadeh – Esse mercado regional era nosso primeiro objetivo. O segundo bloco é o Pacto Andino, onde já temos alguns clientes locais, e nossa estrutura é um pouco diferente, comercializando via distribuidores locais. Só vamos participar diretamente quando forem grandes concorrências. A demanda na Colômbia é forte em cabos ópticos e em cabling. E o terceiro mercado é o da América Central, ou seja, de certa forma, nosso projeto é América Latina como um todo. Temos presença forte na Guatemala, Costa Rica, Panamá, Honduras. São projetos às vezes de porte não muito grande, mas consistentes. E, às vezes, há concorrências para fornecimentos de dois a três anos.

Tele.Síntese – Resumindo, na América Latina, a Furukawa tem dois grandes clientes…
Shaikhzadeh – É, e há mais um problema, porque um desses grupos também tem empresas especializadas, por exemplo, na área de cabos. É a Conomex – Condutores de México, do grupo Carlos Slim. Mais um detalhe: além de esses conglomerados terem um mesmo dono, o diretor geral da Embratel foi diretor comercial da Conomex.

Tele.Síntese – Isso quer dizer que a Embratel está importando cabos do México?
Shaikhzadeh – A Conomex tentou exportar para o Brasil, mas o processo foi interrompido por interferência da Anatel, e por outros fatores naturais de consumo. Então, a empresa começou a produzir no Brasil. O grupo mexicano tem uma indústria de condutores elétricos no país, a Cablena, em Vinhedo (SP), e depois comprou uma planta que pertencia à Duraline, que produzia tubos, em Itupeva (SP), se não me engano. Eles estão modificando a fábrica para produzir cabo ópticos e coaxiais e, até há pouco, estavam procurando obter certificação da Anatel.

Tele.Síntese – Então, depois do ciclo de desaparecimento de empresas no segmento produtivo de fibras e cabos ópticos, teremos novas fábricas?
Shaikhzadeh – Para nós, é um negócio totalmente fora de momento, porque a indústria, mesmo com alguma recuperação da demanda por cabos ópticos, está com enorme capacidade ociosa. No caso da Furukawa, a produção atual representa tão só 20% da capacidade instalada. Ou seja, ainda há uma oferta gigantesca de cabos. Se a Cablena for verticalizar, se os mexicanos forem comprar deles mesmos, vão tirar um player do mercado, vamos ficar com uma capacidade maior, e uma demanda menor.

Tele.Síntese – Com isso, os mexicanos só vão comprar deles mesmos? A Embratel e as outras empresas do grupo vão adquirir da Cablena?
Shaikhzadeh – Vai haver alguma preferência. Pelo menos na Argentina, sem a obrigatoriedade de uma Anatel, em algumas concorrências da CTI, também dos mexicanos, nós participamos, fizemos um preço bom, mas, no fim, eles deram preferência à Cablena, que produziu os cabos no Brasil e exportou. Essa é uma preocupação que o nosso setor tem, e para um dos players, essa situação é complicada. De nosso lado, olhando esse cenário, temos que diversificar, ter mais clientes.

Tele.Síntese – Como está a produção da Furukawa, hoje?
Shaikhzadeh – Temos, basicamente, três linhas. Cabos telefônicos metálicos, o produto mais antigo, convencional; cabos ópticos; e a área de cabling, redes. Por faturamento, mais ou menos 40% são gerados por cabling, 40 % vêm de cabos metálicos, 20% de ópticos. Ao longo do tempo, o metálico vai phasing out, o óptico vai crescer, e o cabling vai permanecer, ou talvez, migrar de metálico para óptico, na medida que a demanda por banda crescer. Exportamos cabling para o mundo inteiro – EUA, Europa e, este ano, pela primeira vez, via Europa, vendemos para a África.

Tele.Síntese – A produção brasileira atende quais mercados?
Shaikhzadeh – Para cabling, nós somos centro de competência mundial. Cabo óptico não, é o Japão. Temos fábricas também na Europa e nos Estados Unidos. Há pequenas produções de cabling no Japão e na Indonésia, mas o principal  centro produtor é em Curitiba. É brasileiro.

Tele.Síntese – E a clientela, é formada só pelas operadoras convencionais, empresas de cabo não?
Shaikhzadeh – As empresas de cabo, este ano, voltaram a comprar, exatamente por causa da competição. Vimos a volta da Vivax, da TVA, da NET. Agora, vamos ver como vai ficar a Vivax dentro da NET, que vai ser dentro da Telmex, Embratel; TVA dentro da Telefônica. Vamos ver quando as empresas se fundirem.

Tele.Síntese – Mas a Telefônica é cliente Furukawa, não é?
Shaikhzadeh – Grande. Eu sou o principal fornecedor mundial da Telefônica este ano, em metálico.

Tele.Sintese – Então, a TVA, tudo bem?
Shaikhzadeh – Por enquanto, estamos aí.

Tele.Síntese – Algum outro segmento?
Shaikhzadeh – Este ano, as utilities também voltaram a comprar. As companhias de energia, que viveram um grande boom, sumiram, agora compram de forma regular.

Tele.Síntese – O que as elétricas compram?
Shaikhzadeh – Grandes volumes de cabos ópticos, primeiro, para controlar a própria operação, o fluxo de energia. E, quando sobra capacidade, vendem às operadoras de telefonia. Nesse aspecto, o projeto do Requião de levar internet para as escolas do Paraná deu certo. É um dos poucos projetos de inclusão digital que deram certo. Se o governo não fornece a infra-estrutura, a inclusão não acontece. A indústria não vai fazer, não tem dinheiro para isso. Tem que esperar pelo dinheiro do FUST. Essa é uma boa desculpa, não é? De qualquer forma, seria bom que o exemplo do Paraná fosse replicado, mas é difícil isso acontecer porque a privatização acabou com a possibilidade de as empresas de eletricidade poderem fazer coisas similares.

Tele.Síntese – Como é a participação dos segmentos de clientes para a geração da receita da Furukawa? Operadoras em primeiro lugar?
Shaikhzadeh – No faturamento total, o mercado privado, em geral, é maior. É onde estão as redes, o cabling. Essa foi uma lição que apreendemos. Para esse segmento, a gente vende via canais. Cerca de 45%, quase 50% do nosso faturamento vêm de clientes privados, porque as telefônicas, em geral, param na porta da casa do cliente, ficam na porta do prédio, não instalam mais as redes internas. Então, a Furukawa desenvolveu soluções de redes metálicas e ópticas para instalações prediais, e aqui temos um market share muito grande no Brasil, mais de 50%. A distribuição é feita via canais, que temos no país inteiro. As telcos continuam muito fortes também em volume. Em terceiro lugar, as exportações. Quando as telcos pararam de comprar, em 2001, da noite para o dia, passamos o segundo semestre desse ano operando a 10% de nossa capacidade. Ou seja, o que nos deu sobrevivência ao longo do tempo foi esse mercado privado.

Tele.Síntese – O que é, exatamente, esse mercado privado? São prédios ou empresas?
Shaikhzadeh – Os dois. Quando um prédio está em construção, por exemplo, um hotel, onde todos os quartos têm pontos para conectar computadores. Pode-se argumentar que há infra-estrutura wireless, Wi-Fi. É, mas a tecnologia Wi-Fi nem é segura, nem tem capacidade para atender a demanda de tudo o que se pede. Se o prédio é novo, tem sempre optado por cabeamento estruturado. Aqui, a Furukawa fornece tudo: além do cabo, todos os elementos passivos do cabling. Esse segmento cresceu bem. Temos distribuidores e integradores certificados, damos treinamento. Por ano, a Furukawa chega a treinar, através de centros terceirizados espalhados no país, em torno de 3 mil pessoas. Não é pouca gente não.

Tele.Sintese – Todo esse pessoal é de campo?
Shaikhzadeh – É. Além disso, há uma segunda etapa. A Vivo, por exemplo, tem vários centros de operação no Brasil inteiro e, numa concorrência que está andando, pede cabeamento estruturado para ligar todos eles e montar um grande back bone nacional. A Telefônica pede a mesma coisa. Fazemos parceria com algum grande integrador – IBM, Medidata, CPM, são grandes parceiros nossos – que, por seu lado, às vezes contrata pequenos instaladores que treinamos, e, no fim, o integrador dá a certificação da rede inteira. A Furukawa chega a dar o que chamamos de garantia estendida de até 25 anos de operação.

Tele.Síntese – Garantia de 25 anos?
Shaikhzadeh – Loucura, não? Mas é o conceito vigente nos EUA, visto que nosso concorrente principal é o cabo importado. Nossos concorrentes em cabo são a Nexans e a Telcon (Draka-Alcatel), mas solução integrada totalmente nacional só a Furukawa tem. Para os competidores, tudo que é americano é melhor do que brasileiro, e como nós somos japoneses, brasileiros com capital japonês e com uma visão global, nós entendemos o que o Brasil precisa.

Tele.Síntese – Não é fácil entender a configuração do mercado de cabos…
Shaikhzadeh – Esse mercado teve muita consolidação após o estouro da bolha. Nós sofremos mundialmente, e aqui no Brasil, também. No auge, pós-privatização, a indústria de cabos do país tinha oito fabricantes de cabos ópticos, e uns 11 de cabos metálicos. Hoje, temos cinco de cabos metálicos, e três de ópticos. Claro, para sobreviver, tinham que ficar alguns poucos. O segmento de ópticos vai aumentar com a vinda da Cablena, do grupo Conomex. No metálico, acho que ninguém vai ter coragem de voltar a produzir porque, dentro de alguns anos, diminui de vez e desaparece.

Tele.Síntese – O que aconteceu com a área de ópticos?
Shaikhzadeh – Dos oito, a Furukawa comprou um, a Alcatel juntou com outro. O nosso, na verdade, era a Lucent, que, no Brasil, a Furukawa comprou inteira. A Alcatel juntou com a Draka, e a Brasfio quebrou, foi à falência, desapareceu. Dores do parto dessa mudança, também era um mundo irreal.

Tele.Síntese – O que é o futuro para a empresa?
Shaikhzadeh – É crescer bastante. No Japão, a Furukawa tem soluções FTTH completas, é grande fornecedora de DWDM (splitters), e está, gradativamente, trazendo todos os produtos para o Brasil. Esperamos vários trials em 2007. Brasil Telecom, Telefônica. Estamos participando do pedido de informações da Brasil Telecom para FTTH, vamos ver no que vai dar. Na Telefônica, já fizemos pequenas soluções dedicadas para eles fazerem pequenos testes. A operadora tem um trial de FTTH na cidade de São Paulo. Pediram o desenvolvimento de cabo drops (de distribuição óptica), que não é uma solução muito simples, mas é o que liga o assinante à rede.

Tele.Síntese – Como foi 2006 para Furukawa?
Shaikhzadeh – Estamos no quarto trimestre e, até o terceiro, conseguimos cumprir nosso plano anual em volume de vendas. O faturamento bruto nos nove meses foi da ordem de R$ 240 milhões. Esperávamos alguma retração para 2006, o que acabou não ocorrendo. O quarto trimestre tende a diminuir muito na área de cabling. Mas devemos crescer em torno de 20% este ano, fechando o período com aproximadamente R$ 300 milhões.

Tele Síntese – E 2007?
Shaikhzadeh – O mercado deve ficar do mesmo tamanho. Temos um problema sério que é o preço do cobre, que subiu muito este ano. Se ele cair, será um pouquinho, e nossa previsão mais pessimista é que o tamanho do mercado pode diminuir por causa do preço do cobre. A mais realista, é que vai ficar como está. Em 2007, o mercado de telecom vai continuar crescendo na área de fibra, vai diminuir no metálico, o mercado de cabling vai crescer um pouco, também. Em resumo, não será de muito crescimento dos mercados atuais. Haverá alguma expansão de fibra, mas o ano do FTTH será 2008.

Tele.Síntese – Novo ano, novo governo?
Shaikhzadeh – Vamos ver o que acontecerá nos ministérios, se serão promovidas, ou não, algumas coisas que valorizem a inclusão total. É preciso um envolvimento maior do governo na infra-estrutura de telecom, para complementar os projetos das teles. Projetos como o Casa Brasil, acabaram ficando muito na teoria, e os projetos de inclusão digital do ministro Hélio Costa, a gente até agora não entendeu.

Tele.Síntese – Como é que a convergência afeta a Furukawa?
Shaikhzadeh – Totalmente, e de forma positiva, eu diria, porque ela resulta no aumento de banda. E na medida que aumenta a banda, porque a demanda de serviços virá junto, a demanda por fibra óptica cresce. O lado negativo é que alguns mercados vão desaparecer, como o metálico. Só espero que os dois efeitos se compensem.

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